O Quarteto de Alexandria é considerado a obra máxima do escritor Lawrence Durrell, sendo especialmente conhecido pelo método que o próprio autor denominou “relativístico”: os três primeiros livros descrevem essencialmente os mesmos acontecimentos sob três perspectivas diferentes. O primeiro deles, Justine, apresenta a cidade pelas palavras de um jovem escritor estrangeiro, encantado com a misteriosa e sedutora Justine.

Como uma discreta reprodução do estilo do Quarteto, assumimos também uma discussão pluralista de Justine, aqui sob duas vozes:

Lucas: É curioso como Durrell constrói a imagem de Alexandria. Ele recorre constantemente à comparações e metáforas lúbricas, dando-lhe cheiros, feições e um aspecto carnal que para os mais puritanos talvez seja promíscuo demais. Ele procura fazer da cidade um verdadeiro personagem, um ser, como ele já avisa logo no início do livro. A geografia da cidade é a descrição de um corpo, as linhas de bonde aparecem como as veias de ferro, a camada de poeira como a pele desértica que o recobre etc. A visão de Alexandria que ele nos proporciona é de uma cidade exótica e de clima quente, onde se encontram diversos bordéis, várias nacionalidades, pessoas das mais diversas e, consequentemente, aspirações variadíssimas, de modo que daí comece a ser desenrolada a história dos personagens.

Gigio: Ao contrário de muitos escritores, e apesar de ser dada muita reputação aos personagens do Quarteto de Alexandria, me parece que não é a partir deles que a história é construída. Eles soam mais como emanações produzidas da vivência de Alexandria. Cada um deles abriga uma visão da cidade, como se tivessem sido criados não pela observação de alguém que Durrell por ventura tivesse conhecido em suas andanças, mas por impressões mais amplas que fossem destiladas até a individuação. Existe, por exemplo, a figura de Balthazar, o médico e o místico, as duas funções unidas em um mesmo personagem, e o mais sereno de todos eles, como se não houvesse ali nenhuma descontinuidade entre as duas matérias, ou mais ainda, como se fossem dois aspectos de uma única verdade. Ou toma-se Nessim, que aparece de início como um homem leve e inofensivo, em todo seu poder econômico e sua influência, mas que gradualmente revela um lado grave e ameaçador. Essencialmente, dessa forma vejo o Egito, ainda hoje, como um lugar em grande parte receptivo, mas disposto a mudanças inesperadas de temperamento. Assim, acredito que não seja também por acaso que o narrador deste primeiro livro do quarteto seja um inglês, um estrangeiro (que ainda não recebe nome): o leitor deverá ser apresentado não apenas aos personagens, mas a esse espírito fragmentado de Alexandria.

Lucas: Precisamente esse “espírito fragmentado” de Alexandria que me intriga tanto. Também penso que Balthazar é uma figura simbólica, pois, se dissemos que a cidade é como um personagem que influi de forma direta na vida e nas decisões dos personagens, não estamos tratando disso em termos deterministas, como às vezes aparece nas obras de Taine ou em alguns exemplos da literatura naturalista. Isso acontece porque Durrell não se limita ao aspecto material de Alexandria, por mais que os personagens existem de forma dialógica com a cidade, eles não “respondem” a ela de forma mecânica. É um jogo sensível, erótico, eu diria, afinal a sensualidade e a sexualidade alexandrinas são características marcantes da trama. Isso está incrustado na trama central do livro (e que, pelo que sei, receberá aprofundamento nos volumes seguintes, pela mudança de foco narrativo): Justine personifica certos aspectos de Alexandria, e se mostra diferente para com Nessim do que se mostra para com o escritor inglês que nos conta a história, ela é uma espécie de musa moderna, oriunda de um contexto histórico que hora a faz uma Messalina hora a transforma numa mulher libertada do moralismo sexual. De forma diferente, Melissa, com quem o narrador mantém outra ligação, encarna outros significados, pois parece evocar uma sensualidade diferente, e, embora erótica, não é tão lúbrica quanto Justine, é menos carnal e mais romântica.

Gigio: Essa maneira como os personagens se relacionam de modos diferentes entre si realmente é essencial no livro. Durrell tem um estilo muito próprio, em que não se segue aquela estrutura da maioria das obras, em que o leitor vai acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. Em Justine a história se apresenta como uma grande reflexão do narrador, que vai retomando diversos eventos, não necessariamente na sequência temporal em que ocorreram, mas com o principal propósito, me parece, de esclarecer a natureza das relações entre os personagens, especialmente aquelas que envolvem Justine. Nesse sentido, a questão que andaria por todo o texto a perturbar o narrador, embora ele evite enfrentá-la diretamente, seria: Justine realmente o teria amado? E mais: ele teria amado Justine? Essas mesmas perguntas ele repete, implicitamente, quanto a diversos personagens.

Uma outra característica da obra que emerge dessas condições é que o narrador não tem um conhecimento privilegiado dos fatos. Todas essas questões são analisadas de maneira aberta e caberá ao leitor construir suas próprias conclusões. Por isso tenho também a impressão de que Justine tem potencial para provocar muitas decepções. Das duas uma: ou o leitor aceitará o estilo de Durrell – e louvará a complexidade dos seus personagens -; ou rejeitará seus discursos como excessivamente obscuros e cerebrais, como os delírios de um escritor estrangeiro sob o calor de Alexandria. Quanto a mim, espero Balthazar antes de me decidir à primeira vista.

Lucas: Penso que é exatamente essa dubiedade lastreada pelo ponto de vista “relativístico” de Durrell que faz a obra ser o que é. Cada vez que nos perguntamos sobre a veracidade ou a solidez dos fatos, e a cada vez que perscrutamos a obra em busca de respostas, esbarramos não na riqueza do retrato construído pelo narrador desse primeiro volume, mas sim na sua “natureza”, que é precisamente sua limitação típica de primeira pessoa. Estou contigo quando diz que espera Balthazar para ter uma opinião mais sólida: estou tão cético quanto ansioso por saber mais, ainda mais vindo dessa figura enigmática e meio mística que é o Balthazar, que deu as caras brevemente no primeiro volume.