Sobre a dit-lit

em 8 de junho de 2012

Uma das características compartilhadas por todo regime totalitário é o controle dos meios de comunicação. Sempre existe, em graus variados, a censura. E a literatura é uma das áreas que sofrem impacto mais direto disso: as publicações costumam ser selecionadas a dedo e, quase sempre, surge uma literatura oficial – a ser subvencionada e estimulada pelo Estado – e uma não-oficial – que, quase sempre, é mais significativa, apesar de enfrentar inúmeras dificuldades para chegar até o leitor.

Existem alguns casos, porém, em que o ditador – aquela figura mítica, central nos totalitarismos, alvo de culto (muitas vezes forçado, mas nem sempre) das pessoas comuns – tem certo apreço pela literatura e tendo todo o aparato estatal a sua disposição, resolve lançar-se à empreitadas literárias. Surge assim algo que poder-se-ia chamar de dit-lit (como em chick-lit, mas para ditadores).

Isso é claro, varia bastante. Mas é justamente isso que me interessa ao analisar a relação entre esses indivíduos e a literatura: desconstruir a imagem planificada que se tem deles, nas quais eles são apenas monstros sádicos loucos pelo poder – sem nenhuma individualidade real.

Tomo por primeiro exemplo o autocrata etíope, Haile Selassie. Ele não escreveu nada. Na verdade, nem sequer seus decretos: era analfabeto e só foi aprender a ler na prisão, depois que o poder lhe foi tomado pelos militares (que instituíram uma outra ditadura).

Em contraponto temos Josef Stálin que, acredito, dispensa apresentações. Ainda um jovem, antes de se meter em política, escreveu uma série de poemas em georgiano, sua língua nativa. Eram poemas com características românticas que exaltavam, entre outras coisas, as paisagens de sua terra natal – um ou outro se lançando a glorificar os príncipes históricos que defenderam a nação. Mais tarde, já no poder, Stálin soube da tentativa de alguns poetas em traduzir e publicar – anonimamente – esses versos: proibiu-os, ameaçando-lhes com a Sibéria caso não abandonassem o projeto.

Outros, porém, não foram tão autocríticos quanto o líder dos bolcheviques: Sadam Hussein, em 2000, publicou um romance chamado Zabiba e o rei, em que narra a história de amor uma garota chamada Zabiba e um rei iraquiano, no século VII ou VIII. O livro intenta ser alegórico, aludindo à invasão americana ao país, depois da Primeira Guerra do Golfo. Na época, tornou-se rapidamente um best seller no Iraque, recebendo uma tradução não-autorizada para o inglês em 2004. Deixo o primeiro parágrafo, traduzido por mim do inglês (tradução do original pertencente a Robert Lawrence, mas não sei quem a fez – se alguém souber, agradeço):

Não é a vida entre as coisas comuns repleta das coisas mais extraordinárias? Não será seu fluxo constante interrompido por saltos inesperados? Será que as cores da vida seriam igualmente ricas se as coisas mais comuns não fossem entremeadas por milagres? Será que um vale traria prazer aos olhos de um observador, não fosse pelas montanhas ao fundo?

Indo ainda mais para o oriente, um dos nomes mais importantes a ser ressaltado é o de Mao Tsé-Tung, ou “o Grande Timoneiro”, como gostava de se autodenominar. Foi um dos líderes da Revolução Chinesa, instaurou o comunismo e promoveu a revolução cultural, ainda hoje é conhecido na China por ser exímio poeta. Cito um de seus poemas, em tradução de Armando Rozário (publicado originalmente em O Rebate):

Alto é o céu, adejam nuvens,

Vejo patos selvagens buscando o Sul para além do horizonte.

Conto nos dedos — 20.000 li de distância;

E dito para mim que não seremos heróis se não atingirmos a Grande Muralha.

Agora, de pê, no pico mais elevado das Seis Montanhas,

O pavilhão ondulando ao vento ocidental,

Com esta longa corda nas mãos,

Pergunta-me quando será que amarraremos o monstro.

Termino com o caso de Radovan Karadžić – não apenas por considerá-lo especialmente problemático, mas por minhas afinidades eslavas e contemporâneas. Vale lembrar que ele não chegou a ser um líder totalitário em si – mas governou, por um curto período, um estado excludente e racista, promovendo massacres, deportações e estupros em massa. Foi o líder da República Sérvia da Bósnia-Herzegovina durante o cerco a Sarajevo. Depois disso passou anos exercendo a medicina e escrevendo poemas (que chegaram a ser publicados!) sob disfarce, até ser preso e levado ao Tribunal Internacional de Haia. Deixo um de seus poemas, que traduzi a partir tradução inglesa de Richard Jackson, intitulado Sarajevo (publicada originalmente no blog da Revista Sinuosa):

Escuto sobre as desgraças.

Tornado besouro, como se um velho cantor

esmagado pelo silêncio e transformado em uma voz.

A cidade queima como um pedaço de incenso.

Na fumaça ressoa nossa consciência.

Ternos vazios escorregam pela cidade.

Vermelha é a pedra que morre, transformada em casa. A praga!

Tranquilidade. O exército de álamos armados

Marcha sobre o vale, dentro de si,

O ar, agressor, toma de assalto nossas almas

E sendo humano você é uma criatura do ar.

Eu sei que tudo isso são prelúdios para o grito:

O que o metal escuro na garagem tem para nós?

Veja como o medo tornou-se uma aranha

Que procura a resposta em seu computador.

PS: E não posso deixar de lado, nem que seja apenas com uma menção, a autobiografia de Adolf Hitler, Mein Kampft, e os romances de Benito Mussolini. Mas não pretendo me estender demais.

3 comentários para “Sobre a dit-lit

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