Os anéis de Saturno (W.G. Sebald)

em 23 de julho de 2012

Informações

  • Autor: W.G. Sebald
  • Tradutor: José Marcos de Macedo
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 296
  • Ano de Lançamento: 2010
  • Preço Sugerido: R$ 47,00

Cheguei a Sebald pela curiosidade despertada em mim pelas resenhas de Cidade aberta, do escritor nigero-americano Teju Cole. Várias delas citavam o autor alemão como uma referência bastante sensível ao longo da trama, principalmente no que diz respeito às andanças e reflexões como processos concomitantes, que concorrem para a estruturação do livro. Os ecos que reverberam em Cidade aberta podem ser encontrados todos em Os anéis de Saturno.

Do ponto de vista do enredo, Os anéis de Saturno não é complexo, trata-se de um narrador que percorre a multissecular Inglaterra, visitando regiões clássicas, longamente tratadas pela literatura e pela cultura em geral. Os cenários urbanos e campestres vão se sucedendo, passando por debaixo dos pés e por dentro da mente de Sebald, que extrai deles toda a sorte de reflexões, digressões e divagações, que, se não possuem uma “unidade temática” tão nítida, não deixam de ser tão pujantes e interessantes para o leitor.

Não há como tentar abarcar a trama de Os anéis de Saturno, a profusão de temas, de lugares e de discussões é amplo demais para que seja possível resumi-lo aqui sem se tornar empobrecedor ou mesmo enfadonho. Basta-nos, por hora, saber que se trata de um livro que haure da humanidade e da historicidade dos lugares e das coisas para extrair os elementos de sua constituição literária.

Alguns exemplos, no entanto, ajudam-nos a compreender a peculiaridade da composição de Sebald no romance. Há um momento, quando da visita a uma região costeira, em que Sebald se põe a falar do arenque, desde seus hábitos alimentares, as peculiaridades de seu acasalamento, sua exploração como atividade comercial e o papel que ele ocupou na constituição da pesca e na alimentação dos ingleses. O arenque funciona como uma espécie de dispositivo de investigação, pois ao falar de tais informações, Sebald está pondo em relevo não o arenque em si, mas os próprios seres humanos em relação ao arenque. Soa um tanto estapafúrdio, mas não se deixe enganar, esse “estilo de construção narrativa” tem uma grande porção de brilhantismo.

Em outro momento, falando sobre um monumento na Bélgica, que fica sobre o campo de batalha de Waterloo, Sebald se questiona sobre as fundações e os arredores da construção numa tônica muito similar àquela de Walter Benjamim ao falar sobre os monumentos e a barbárie:

“Agora não há mais nada além de terra marrom. Que terá sido feito de todos os corpos e dos restos mortais? Estão enterrados sob o obelisco do monumento? Estamos de pé sobre uma montanha de mortos? É esse, afinal, nosso ponto de observação? Será que de tal ponto temos de fato a famigerada sinopse histórica?” (p. 130)

Ou seja, um monumento, inerte e frio, enseja por meio de suas entranhas toda essa sorte de questionamentos, cuja extensão extrapola a Bélgica, a Europa ou os monumentos, pois se estende a toda a experiência e história humanas, em alguma medida.

Outro exemplo que pode ainda ser mostrado de forma pormenorizada é quando Sebald, inspirando-se nos cenários marítimos ingleses e o comércio que evocam, explora o comércio imperialista e a busca incessante por matérias-primas e energia, de onde extrai mais um corolário sobre a história humana:

“Da primeira lanterna até os revérberos da século XVIII e do brilho dos revérberos até o fulgor pálido das lâmpadas de arco voltaico sobre as rodovias belgas: tudo é combustão, e combustão é o princípio mais recôndito de cada objeto que produzimos. A fatura de um anzol, a manufatura de uma xícara de porcelana e a produção de um programa de televisão fundam-se em última instância no mesmo processo de combustão.” (p. 172)

Todo o romance se funda nesse processo de valer-se de dispositivos, sejam quais forem, para reconstruir sua trajetória histórica e descobrir-lhes a humanidade neles investida, para o “bem” e para o “mal”. Assim como em As memórias de nossas memórias Nicole Krauss trabalha com as características essencialmente humanas com as quais os objetos são investidos, também Sebald se valeu disso. Por isso é que, seja qual for o tal “dispositivo” (e são vários: sericultura, a obra de Thomas Browne, a poesia de Swimburne, o Japão à época do Imperialismo, uma pintura de Rembrandt, a vida do pai de Joseph Conrad, a arte modelista de Alec Garrard, etc.), sempre existe algo de humano nele, algo que faz dele um elemento da alçada de existência dos homens, algo que lhes dota de um valor que lhes extrapola sua apresentação meramente física ou material.

Posta em perspectiva como é em Os anéis de Saturno, a história humana parece feita de acasos e de violência, embora também de encantamento e uma melancolia meio desnorteada, não raro voltada ao passado mas sendo tragada pelo devir. Não se trata de um tratado sobre a “natureza” dos seres humanos nem a “natureza” de sua trajetória existencial, mas de um livro que procura fixar algumas bases nesse emaranhado de oposições e contradições que caracteriza toda a caminhada dos homens pelo mundo. Há um fragmento de humanidade (uma centelha divina, talvez dirão os religiosos) em cada objeto, em cada pequena peça que foi tocada pelos homens.

Ao mesmo tempo em que descobre essa complexa e interessante genealogia histórica das coisas, Sebald mantém uma caminhada – verdadeiramente uma busca, em última instância de sentido, de horizonte – a um tempo instigante e sedenta de um rumo, tão tipicamente contemporânea.

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