Retornar às aventuras de Tintim é o mesmo que reencontrar um velho amigo que não vejo há anos. Mais do que isso, é convidar esse velho amigo para tomar uma cerveja enquanto conversamos por horas. Depois de alguns copos, ele sente-se à vontade para mostrar seus diários de viagem e vários álbuns com fotografias das suas jornadas ao redor do mundo. Suas experiências são sensacionais!Imediatamente, quando o assunto é Tintim, muitas “listas” passam pela minha cabeça. As histórias do belga Hergé mesclam aventura e humor, envolvem paisagens reais e situações políticas contemporâneas. Costumo dizer que é possível estudar a história do século XX através de Tintim. Considerando essa proposta, preparei um “top 5” que fala sobre política, guerras e tecnologia…

A seleção traz cinco referências históricas e a forma como são representadas nas revistas de Tintim.

1 – Invasão da Manchúria: Em O Lótus Azul (1936), o cuidado com as referências geográficas e culturais da China evita a visão de mundo estereotipada das primeiras revistas da série. Na trama, Tintim persegue um agente secreto japonês e testemunha a explosão de uma linha ferroviária. Esse atentado foi baseado no histórico “Incidente de Mukden”: dinamites são detonadas perto de uma ferrovia na região da Manchúria, extremo nordeste da China, e, embora a explosão não tenha causado danos significativos, o Exército Imperial Japonês acusa dissidentes chineses, responde com uma invasão e ocupa o local. No quadrinho, o atentado também causa danos pequenos, mas é retratado pelo governo japonês como um ataque terrorista de grandes proporções. Apenas um pretexto para a invasão da Manchúria.

2 – Guerra do Chaco: O Ídolo Roubado (1937) se passa na República de San Teodoro, uma ditadura sul-americana ficcional. Ainda assim, toca em assuntos políticos importantes da década de 30. A “Guerra do Gran Chapo”, na qual Tintim acaba se envolvendo, faz referência à Guerra do Chaco, conflito armado entre a Bolívia e o Paraguai (1932-1935) originado pela descoberta de petróleo no sopé dos Andes. No quadrinho, San Teodoro e seu vizinho hostil Nuevo Rico entram em guerra pelo domínio da região petrolífera do Gran Chapo (“grande chapéu”, em português).

3 – Ascensão do Fascismo: O subtexto político de O Cetro de Otokar (1939) faz alusão ao surgimento dos grupos paramilitares fascistas, movimentos de extrema-direita comuns na Europa do período entre guerras. Em meio ao estado de crise entre a Bordúria e a Sildávia (nações ficcionais), abre-se caminho para a invasão estrangeira. O mentor invisível da conspiração chama-se Müsstler (uma combinação de Benito Mussolini e Adolf Hitler). Ele é o líder do partido “A Guarda de Aço” e pretende tomar o poder da Sildávia, o Reino do Pelicano Negro.

4 – Viagem à Lua: Rumo à Lua (1953) e Explorando a Lua (1954) foram escritos mais de uma década antes da missão da Apollo 11. Hergé fez questão de assegurar que as suas revistas foram cientificamente precisas em relação aos conhecimentos disponíveis na época, no que diz respeito às viagens espaciais tripuladas.

5 – “Hei, Al Capone!”: Apesar da visão marcada por estereótipos em relação aos povos indígenas americanos, Tintim na América (1932) retrata os problemas dos EUA durante a Grande Depressão e o crime organizado em Chicago. Logo na primeira página, o famoso gângster Al Capone e seus comparsas aparecem brevemente. O mafioso considera Tintim um “temível adversário” por ter abortado o seu plano para controlar a produção de diamantes no Congo. Essa é a única aparição de uma figura histórica na série de Hergé. Al Capone também é mencionado em Tintim na África (1931).

Sobre o autor: Professor de História 24h/dia, Lúcio Reis Filho (codinome Mitleid) é mestre em Comunicação, divulgador científico e estudioso dos zombies no cinema, na literatura e na cultura popular. Leitor compulsivo, gamer e rock ‘n’ roller.