Histórias e Estórias – Vácuo, embalado a celofane

em 27 de setembro de 2012

Essa coluna tem sido orientada pela pretensão de, apesar de seus vagos esforços notáveis de síntese, mostrar a matriz histórica das obras literárias, i.e., reconhecer que nas partícula literárias mais elementares existem cargas de historicidade. Tais cargas aparecem sob as mais inusitadas e insólitas roupagens e apresentações e dentro das mais intrincadas e tresloucadas tramas, afinal, seu diálogo com a dialética de sua origem divide espaço com os artifícios e prerrogativas da ficção, a qual, por si só, tem uma tradição gigantesca a precedê-la e, não raro, assombrá-la.

Os personagens ocupam, nesse sentido, um lugar muitíssimo interessante: eles sintetizam parte importante do olhar do autor a respeito de sujeitos e, na medida em que constituem o fruto de um olhar reflexivo sobre algo factual – histórico -, nos revelam uma riqueza e uma complexidade singularmente admiráveis, carregadas de profunda significação. A obra O dia do gafanhoto, de Nathanael West, é um ótimo exemplo disso.

A trama não é complexa, pois são os personagens que devem roubar a cena. E eles roubam. Cena, aliás, é um termo muitíssimo adequado ao falar sobre essa obra, pois a história toda se passa em Hollywood, a “fábrica dos sonhos”, onde a realidade não parece se desenrolar como nos outros lugares, ela parece ser encenada a cada passo, como se à luz de holofotes.

O protagonista do livro é Tod Hackett, um artista que pinta como trabalho e como aspiração pessoal, como atividade que deve engrandecê-lo ontológica e espiritualmente. Ele almeja, além de se tornar um grande pintor, conseguir as graças de Faye Greener, uma mocinha bonita mas cheia de veleidades que deseja se tornar uma grande estrela de cinema. Ela é filha de Harry Greener, um ex-ator do vaudeville clássico que vive a decadência de sua arte diante da superficialidade dos novos holofotes, que não comportam mais o espetáculo como ele o conheceu.

Além desses, dividem ainda as páginas de O dia do gafanhoto personagens como Homer Simpson, um guarda-livros que veio para a Califórnia por recomendação médica, para que pudesse relaxar. Ele é extorquido por Faye, que se utiliza de sua pequena fortuna – aquela que ele juntou com afinco ao longo da frugal vida de guarda-livros – para sobreviver naquela pequena selva urbana que era a Hollywood dos anos 30. Há também Audrey Jenning, uma cafetina de luxo, que encontra na obsessão pela beleza e pelo espetáculo uma oportunidade de negócio; Earle Shoop, um sujeito metido a cowboy que veio do Arizona para ganhar a vida se tornando um estereótipo dos trajes, trejeitos e sotaques do “velho Oeste”; Maybelle Loomis, a mãe de Adore Loomis, um garoto enjoado cujo destino, acredita ela, é tornar-se criança-prodígio algum dia. E assim por diante.

Nathanael West nos conduz por essa colorida galeria de personagens, mostrando suas excentricidades e sua exuberância externa em contraste com o vazio interno que parece tomá-los a todos. Tod é um dos únicos que ainda almeja transcender essa existência medíocre de aparências, mas acaba encontrando sérios obstáculos em seu caminho. Em quaisquer outras condições todos esses sujeitos seriam bizarros ou não fariam sentido, mas é justamente por estarem em Hollywood, essa caleidoscópica reunião dos tipos mais insólitos, que são “normais”.

Através desses sujeitos West desenha o que Raymond Williams talvez chamaria de “estrutura de sentimentos”, o conjunto de aspirações, valores, sentidos, visão de mundo, postura ética etc. que, naquelas condições sócio-históricas, encontraram um solo humano onde vicejar. Todos os personagens de West estão imbuídos de sonhos, sonhos esses que não nasceram tout court, mas que provieram de promessas, as quais, por sua vez, encontravam-se inscritas na própria dinâmica cruel da “fábrica de sonhos”.

Num deserto de aridez econômica e escassez de oportunidades concretas de estabilidade e de existência como eram os Estados Unidos da época de West – décadas de 20 e 30, em especial -, Hollywood, com toda a sua profusão de luzes, cores e sons, talvez lhes parecesse um oásis. Para alguns o foi, mas não para a grande maioria da procissão de sujeitos que rumou para lá, e, certamente, não para os personagens de O dia do gafanhoto, os quais, cada qual com suas idiossincrasias, constataram que aquele luxuriante corpo externo não raro se mostrava vazio, seja de sentido, seja da capacidade de cumprir as promessas tão alardeadas.

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