Discussões internas

em 26 de fevereiro de 2013

Antes de entrar na discussão de Páginas Sem Glória, livro mais recente do ficcionista brasileiro Sérgio Sant’Anna, lançado em dezembro de 2012 pela Companhia das Letras e formado por dois contos e uma novela, vamos falar um pouco sobre a obra-prima do pintor espanhol Diego Velásquez.

Pode ser que ainda não se tenha dito tudo o que é possível dizer sobre As Meninas– mas provavelmente já se disse tudo o que havia de relevante. Por isso, não passarei de uma breve descrição. Concluída em 1665, a célebre pintura estabeleceu um novo paradigma na história da arte ao trazer o processo de representação para dentro da própria obra. Nela, vemos em primeiro plano o artista (que parece nos encarar diretamente) e a tela na qual está trabalhando. Ao seu lado estão duas garotas e uma anã que têm o olhar fixado em algo à sua frente, como se observassem o espectador.

Seria um simples auto-retrato de artista, não fosse o detalhe crucial presente no fundo da composição: ali, um espelho situado na altura dos olhos de quem observa o trabalho reflete a imagem esfumaçada do casal real da Espanha – que são, ao mesmo tempo, os modelos do pintor, as pessoas para quem as meninas estão olhando e quem paga o salário de Velásquez.

Trata-se, portanto de uma inversão de pontos de vista – não é o retrato de alguém, mas o retrato do ato de retratar alguém. Declara-se a metalinguagem aberta ao público. De maneira mais abstrata, é um retrato do processo artístico. Quanto ao retrato de fato, o espectador nunca chega a vê-lo, senão por meio daquele reflexo distante e esmaecido.

Se evoco As Meninas para falar de Sérgio Sant’Anna, não é por mero preciosismo: uma reprodução da obra foi utilizada como contracapa de Um Crime Delicado, romance de sua autoria publicado em 1997 – e, vendo a freqüência com que obras de artes visuais se tornam protagonistas nas narrativas do escritor, é difícil acreditar que seja por acaso.

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Talvez por isso, a pintura me veio à mente já nas primeiras páginas e me acompanhou durante toda a leitura de Entre as Linhas, que abre Páginas sem Glória. No conto, um narrador-escritor se apresenta em um único parágrafo. Ele está sentado em uma poltrona, diante de uma amiga que acabou de ler um de seus textos e está prestes a submetê-lo a uma análise crítica.

Daí em diante, a amiga assume a palavra e a narrativa transcorre até o fim do conto em forma de monólogo. Linha após linha, ela desfia observações que resgatam vestígios do dito texto (ao qual o leitor jamais tem acesso), comentando seus eventos de forma cronológica e permitindo, assim, uma ideia vaga de sua estrutura. Como a análise parte de uma ótica mais subjetiva do que acadêmica, revelam-se também alguns contornos da relação entre os dois interlocutores.

O leitor é impelido a reconstituir as lacunas deixadas tanto pela breve apresentação da trama quanto pela tensão sutil existente entre o narrador e sua amiga. No entanto, é impossível resgatar qualquer detalhe a partir do reflexo distante e esmaecido presente nos breves comentários, e é isso que permite o paralelo entre As Meninas e Entre as Linhas.

O segundo conto, O Milagre de Jesus, também transcorre como um quase-monólogo. O narrador, um mendigo chamado Jesus, alterna entre trechos cômicos e profundamente tristes. Ao entrar numa igreja, ele é confundido com Cristo por uma mulher com má-formação no corpo. Em um primeiro momento, alegra-se pela súbita importância atribuída a ele e se faz passar por uma aparição. Porém, após servir de ouvinte para o relato de violência extrema e desmedida do qual ela fora vítima, resolve desfazer o mal entendido, sem sucesso devido à recusa da mulher.

Tendo aconselhado-a com cautela, o mendigo está deixando a igreja quando é filmado sem autorização por um casal de jovens que está produzindo um filme experimental. Como condição para tomar parte nas gravações, ele exige um pagamento em dinheiro e uma boa refeição. Junto à abordagem veementemente crítica do conto, emerge uma questão recorrente na obra de Sant’Anna: a função prática da construção de narrativas, tanto no âmbito social quanto na vida interior de um indivíduo.

Muito embora suas primeiras frases não o sugiram (“Beleza pura também tem função? A arte deve ser aplicada?”), a novela que fecha o livro, Páginas sem Glória, assume um tom de leveza tanto formal quanto de conteúdo que contrasta com os textos que a antecedem.

Em estilo de crônica de jornal, ainda que de uma crônica de jornal primorosa, o narrador, que se confunde com o próprio Sant’Anna, resgata a saga do jogador de futebol (fictício) José Augusto, o Conde, e o contexto futebolístico do Rio de Janeiro na segunda metade dos anos 1950. Destacam-se as detalhadas descrições de partidas de futebol e corridas de turfe.

Mas, assim como em O Milagre de Jesus, o efeito pragmático das narrativas sobre a vida cotidiana vem à tona como uma reflexão crucial. A questão é simbolizada na forma como a cobertura da imprensa a respeito de um único lance de Conde em um jogo não muito importante acaba por afastá-lo definitivamente do futebol e condená-lo ao esquecimento. Um esquecimento que seria definitivo, não fosse a intervenção tardia (o tempo da narrativa situa-se em 2012) do narrador, que resgata o ocorrido em meio às suas memórias de infância – e é ele mesmo quem propõe a discussão acerca da importância de seu ato:

 

Mas a história dita menor, quem a documentará? Quanta coisa digna de registro não se carrega para o túmulo: imagens e sensações inesquecíveis, conhecimentos adquiridos depois da longa observação e aprendizado, grandes ideias, sentimentos fundos que nunca foram passados para o papel? 

Ainda que estejam longe de ser inéditas na literatura, são perguntas contidas e muito bem situadas – como é tudo neste livro de Sérgio Sant’Anna, onde o conteúdo parece trabalhar, em última instância, sempre em função da forma. E talvez seja essa a característica que acaba por dar coesão a um livro constituído por três textos tão distintos: em todos eles, a narrativa ficcional é empregada como ferramenta para a discussão de sua própria constituição e relevância. Isso ocorre de maneira sutil, em contraponto à metalinguagem escrachada que tantas vezes consta da cartilha pós-modernista. Novamente, cabe mencionar, um tanto à moda de As Meninas.

Um comentário para “Discussões internas

  1. Excelente resenha. Sóbria e argumentação bastante interessante. O paralelo com o quadro de Velasquez pode ser aplicado em quase toda a obra do Sant’Anna. Cada conto e novela dele trabalha com a questão da metalinguagem de uma forma bastante unica e perspicaz. O Sant’Anna nunca me decepcionou. Fiquei muito interessado em ler esse ultimo livro em particular.

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