Rapidinhas do Festival do Rio #3

em 11 de outubro de 2013
Leandro Ferreira/Divulgação

(Foto: Leandro Ferreira/Divulgação)

O fim está próximo! O Festival do Rio1 entrou em seus últimos dias e quem acompanha de perto, embora já cansado e consideravelmente mais pobre, tem que correr para assistir aos últimos filmes de sua wish-list.

Por isso, cruzei a cidade até a Gávea e no belo e amplo Estação Vivo consegui ver Deus Ama Uganda (2013, de Roger Ross Williams, mostra Fronteiras, trailer no final da postagem), impressionante ao retratar a perseguição a homossexuais por fundamentalistas cristãos, com foco na influência de doutrinas e missionários estadunidenses nesse processo. Vale a pena ater-se a esse filme um pouco mais do que apenas com um comentário: até certa altura ele funciona como uma simples exibição do serviço missionário prestado pela organização religiosa IHOP no país africano e, por abster-se de qualquer inclinação crítica, parece ser favorável à missão evangelizadora. Muda completamente, contudo, quando mostra a influência dos EUA nas políticas públicas de saúde (mais precisamente nas medidas contra o surto de HIV/AIDS) do país, quando mostra que os pastores pregam ideologias claramente homofóbicas e que parte da população, desinformada e mística, compra esses ideais e parte para uma verdadeira cruzada contra os gays; ainda quando tribos são coagidas pelos missionários a se converterem ao Cristianismo e, no mais chocante dos momentos, quando entrevistados do filme, simpatizantes e líderes LGBT no país, sofrem retaliações – um deles chega a ser morto.

O diretor em vários momentos leva o público a risadas nervosas diante da hipocrisia, cinismo e ignorância revelados pelos discursos rasos de homens e mulheres que fazem mal em nome de Deus. Por exemplo quando um dos pastores, criado e educado nos EUA, mostra aos fiéis de Uganda fotos de sessões homossexuais de sadomasoquismo escatológico para defender seu discurso sobre as “práticas imundas” dos gays. Não apenas uma postura absurda, como também criminosa, o filme vale a pena ser visto e que rende vasto assunto pós-sessão.

goldie hawn

Goldie Hawn, homenageada na mostra Goldie Goes Rio! exibiu os filmes Shampoo (1975, Hal Ashby), A Morte lhe Cai Bem (1992, Robert Zemecks) e o delicioso O Clube das Desquitadas (1996, Hugh Wilson)

Para aliviar um pouco o clima a programação de sábado (05) contou com Stuart Hall e os Estudos Culturais (2012, de John Akomfrah), sobre o sociólogo britânico. Mas quem quis seguir pelos assuntos sérios tinha uma boa opção com A Escala Humana (2012, de Andreans M. Dalsgaard), sobre os trabalhos do arquiteto John Gehl em Copenhagem, Dinamarca, que geraram um novo conceito de arquitetura responsável e inclusiva. O filme compõe a mostra Meio Ambiente, que promove uma discussão sobre a situação atual do planeta com obras como Blackfish – Fúria Animal (2012, de Gabriela Cowperthwaite), sobre a orca Tilikum, do SeaWorld de Orlando (EUA), que matou três pessoas; Outono e Inverno (2012, de Matt Anderson) sobre poluição, seca e mudanças de temperatura nos EUA, e Refugiados do Aquecimento Global (2010, de Michael P. Nash), sobre as comunidades vítimas de desastres ambientais.

Quem quis terminar o dia de forma mais hardcore, a mostra Midnight Movies apresentou Kink – Sadomasô Online (2012, de Christina Voros), sobre bondage, BDSM, fetiches e o site kink.com. No domingo (06) fui prestigiar uma obra da mostra Midnight, pena que foi o péssimo Gerontophilia (2013, de Bruce LaBruce, Mundo Gay), cujo diretor, presente na sessão, arrogantemente anunciou-o como uma pretensão de versão gay de Ensina-me a Viver (clássico de 1971, de Hal Ashby, com Ruth Gordon), mas não passa de uma produção oca, mal estruturada, com atores ruins e cenas que indiscretamente ofendem a inteligência do espectador.

Domingo, dia tradicionalmente religioso, começou com Mea Máxima Culpa: Silence in the House of God (2012, de Alex Gibney, Panorama), documentário que aborda as denúncias de pedofilia a clérigos católicos. Outros filmes interessantes nesse dia foram Setenta (2013, de Emilia Silveira, Fronteiras), sobre os 70 presos políticos que em 1970 foram enviados ao Chile em troca do embaixador suíço; 99% – o filme colaborativo do Occupy Wall Street (2012, vários diretores, Fronteiras), e também Damas do Samba (2013, de Susanna Lira, Première Brasil longas), sobre algumas das importantes mulheres do samba do Rio, reforçando ainda mais o pendor dessa edição do Festival aos documentários.

Agora partimos para o último dia, já com dor no coração e atento às premiações do troféu Redentor. Parodiando Machado: Ah, Festival, por que bom se curto? Por que curto se bom?

Bruce LaBruce, diretor de Gerontophilia, pedante, tecnicamente cartesiano, mas posando de alternativo

Bruce LaBruce, diretor de Gerontophilia: pretensão de alternativo, mas extremamente pedante e tecnicamente cartesiano

Melhor filme (entre sexta, 03, e quinta, 09): Gore Vidal e os Estados Unidos da Amnésia (2012, de Nicholas Wrathall), ótimo ao apresentar a personalidade forte e certamente polêmica de um dos maiores autores modernos, falecido em 2012. Seus comentários ácidos, sobretudo sobre os EUA, atiçam nossa reflexão, e uma imagem de arquivo onde Gore fala da mania americana de espionagem hoje nos soa como profecia – e fez a plateia do Cinema aplaudir.

Outros destaques: o catálogo oficial do Festival, novamente pelo preço simbólico de R$ 10 e com um belo trabalho de capa e diagramação, a edição é mais bonita que a do ano anterior e mais prática, com divisões por mostras, textos introdutórios e outros divertimentos informativos.

Destaques negativos: nessa quinta-feira (09), ao correr para o bairro do Catete à sessão de Pussy Riot – A Punk Prayer (2013, de Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin, Panorama), recebi a informação de que todas suas sessões haviam sido canceladas porque a cópia HD enviada ao Brasil pela distribuidora chegou, vai lá saber por quê, “em estado deplorável” (foram essas as palavras do rapaz do staff). O filme, então, foi substituído pelo péssimo Bastardos, de Claire Denis, com Chiara Mastroianni, uma obra que roda e roda com uma história pesada e numa ambientação tensa para, no fim, chegar a lugar nenhum.

  1. O homem de braços abertos na imagem em destaque é o diretor Lee Daniels, de Preciosa (2009), que veio divulgar seu novo filme, The Butler, com Forest Whitaker e Oprah Winfrey

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