O último dos magnatas, por F. Scott Fitzgerald

em 6 de janeiro de 2014

Informações

  • Autor: F. Scott Fitzgerald
  • Tradutor: Christian Schwartz
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 232
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 25,50

Tenho um apreço especial pela obra do escritor norte-americano Francis Scott Key Fitzgerald. Foi através de uma indagação após a leitura de O grande Gatsby que experimentei um dos turning points de minha obsessão com os clássicos. Explico-me: quando terminei de ler o célebre romance de 1925 não pude compreender por que fosse aclamado como um dos grandes clássicos da literatura norte-americana, de modo que busquei tentar entendê-lo.

O grande Gatsby, por conseguinte, me atentou para a historicidade das obras literárias não somente como um dos pontos nevrálgicos de seu estatuto de clássico, mas também como componentes essenciais de uma obra literária. Em outro termos, a busca em torno de O grande Gatsby me mostrou o quanto uma obra literária pode servir de aporte à compreensão da história e, por consequência, de seu artífice central: o homem e suas matizes.

Foi por esse caminho que procurei caminhar quando da leitura de O último magnata, o romance (infelizmente) inacabado de Fitzgerald.

É preciso dizer que o livro era ambicioso. Fitzgerald lançava seu olhar por sobre o universo hollywoodiano buscando compreender a “fauna” humana que o habitava, usando como artifício, novamente, uma história de amor com suas idas e vindas. Nesse caso trata-se de Monroe Stahr, um dos grandes cineastas e magnatas da indústria do cinema, e Kathleen Moore, moça pelo qual Stahr se apaixona perdidamente.

Assim como em O grande Gatsby, a história nos é contada por um terceiro, um personagem que vê o desenrolar do imbróglio amoroso de fora, de um ponto de vista privilegiado, digamos assim. Fitzgerald, aliás, se vale disso para dar quase uma onisciência a Cecilia Brady, a narradora. O que torna as coisas mais interessantes nesse caso é que a narradora tem um interesse amoroso em Stahr, de modo que conta a história ora com uma espécie de ressentimento, ora com uma resignação conformada, ora com algumas pontadas ferinas, afinal, ela era o vértice mais distante desse triângulo amoroso.

No prefácio, Edmund Wilson – crítico literário cuja leitura recomendo veementemente – afirma que apesar de inacabado, O último magnata é o grande romance sobre Hollywood (a assim chamada Hollywood novel). Embora eu considere O dia do gafanhoto (Nathanael West) e Sonhos de Bunker Hill (John Fante) obras muito interessantes para se ter noção da dimensão de Hollywood na vida norte-americana, me sinto compelido a dizer que o romance de Fitzgerald, embora não terminado, é mais redondo do que os dois outros. Explicar esta afirmação pode muito bem dar corpo à resenha dentro da leitura que explicitei antes, portanto, ei-la.

O livro de West é uma grande sátira, que se importa centralmente em verrumar o vazio de Hollywood, sendo, portanto, construído em torno desse objetivo – o qual ele cumpre com maestria tragicômica. É possível ver rasgos de apreensão sensível ao longo de todo o livro – os personagens são hilários –, mas nada feito de maneira sistemática, como aquilo que é levado a cabo em O último magnata.

Fitzgerald conviveu de perto com o feérico universo de Hollywood, compareceu a muitas festas, conversou com muitos artistas, diretores e produtores, e acompanhou com afinco a vida e os frutos da indústria cinematográfica. É dito, aliás, que o romance de Fitzgerald é um roman à clef (me pergunto quais livros não o são em alguma medida), e que o personagem Monroe Stahr é uma espécie de alter ego de Irving Thalberg, famoso produtor de Hollywood. Isso, ponderado constantemente pelo rigor do escritor para com seu texto, investe de força a composição como um todo, dotando-a de uma aguda perceptividade que se desdobra em profundidade e amplitude, além de um domínio admirável da arte narrativa.

Quando se fala de Sonhos de Bunker Hill e, em espectro mais amplo, de Fante e seu personagem Arturo Bandini, é forçoso reconhecer que o escritor teve argúcia em observar a densidade da atmosfera de Los Angeles e sua conexão com Hollywood e o mundo do cinema. Pergunte ao pó é tido, inclusive, como um dos grandes clássicos.

O que, no entanto, me faz pender a balança para o lado de Fitzgerald é o fato de que ele perscrutou esse fenômeno humano – Hollywood e seus – para além de uma certa individualidade, que parece estar mais presente na obra de Fante do que em O último magnata.

É preciso reiterar aquele pressuposto da exegese literária que diz que não se pode cobrar do escritor aquilo que ele não se propôs a fazer, de modo que tenhamos de reconhecer, e respeitar, as escolhas de Fante: ele escolheu Arturo Bandini como aporte para poder abordar as questões, os dilemas e os problemas aos quais se volta. Isso não é um demérito, é uma questão de escolha; não é uma razão para hierarquização absoluta, é uma distinção.

Sendo O último magnata um livro menos comprometido com o ponto de vista subjetivo do fenômeno Hollywood, ele consegue se estender mais por problemas que atravessam o affair de Stahr e Moore, usando a quase-onisciência de Cecilia Brady para colocar a vida do magnata do cinema disseminada sobre um ambiente rico, que desempenha um papel importante no próprio desenrolar da história. Em alguns momentos é possível perceber como Fitzgerald formava compósitos de pessoas para construir seus personagens, apreendendo trejeitos, características e bricabraques que lhe permitissem a criação de um tipo. Não uma tipificação simplista, mas uma tipificação fruto de uma observação obstinada, de caráter quase sociológico.

A sensibilidade das apreensões e retratos vem da incansável observação, e a incansável observação vem da mal disfarçada admiração de Fitzgerald pelos grandes magnatas dos loucos anos 20. Quem pode dizer que não há algum tormento na forma como Fitzgerald repudia a mentalidade materialista da Era do Jazz ao mesmo tempo em que celebra as possibilidades que ela abriu para que se celebrasse a vida com extravagância?

O que não se pode esquecer sobre a Era do Jazz aqui, é que ela teve fim com a aridez abissal dos anos 30. Assim como a Grande Depressão pôs fim a diversas fortunas, ela também pôs fim aos protagonistas desse espetáculo regado a high ball e gim tônica: os magnatas.

A ascensão dos grandes financistas desde o final do século XIX personificara as fortunas, dando a sujeitos como J.P. Morgan e Cornelius Vanderbilt uma aura quase super-humana: eles eram os grandes arautos do evangelho da riqueza e a confirmação cabal dos mitos do self-made man. Mas nem essa estratosférica supremacia passou incólume pelos anos 30. Embora seja ingenuidade pensar que eles tenham sido escorraçados à rua da amargura, o fato é que a economia mudara muito e o caráter pessoal da administração e das próprias fortunas se dissolvia dia a dia com a ascensão das sociedades anônimas e das grandes e impessoais empresas, essas sim as protagonistas da nova realidade econômica estadunidense.

Não há como deixar de sentir certa melancolia se arrastando por debaixo do título do romance de Fitzgerald. Tendo escolhido a indústria do cinema como palco para tratar esse problema, o escritor fez com que Stahr encarnasse as transformações da economia, de tal maneira – e aí está uma das genialidades de Fitzgerald – que seu drama pessoal tivesse ressonâncias históricas que extravasassem sua individualidade. Seu conflito com as exigências dos produtores e do mercado, a pressão do dinheiro sobre cada centímetro de película rodado está lá, retratada pela escritura de Fitzgerald. O sonho americano que Hollywood parecia tão bem representar se metamorfoseia em ruína, assim como a vida de Monroe Stahr e a própria realidade histórica estadunidense.

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