Crítica: ‘Memórias de Salinger’ – genialidade e reclusão

em 24 de fevereiro de 2014

Informações

  • Título: Memórias de Salinger (Salinger)
  • Diretor: Shane Shalerno
  • Roteiro: -
  • País: EUA
  • Ano: 2013
  • Elenco: Gore Vidal, Phillip Seymor Hoffman, Tom Wolfe, entre outros

“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci…”

Assim começa O apanhador no campo de centeio1, romance célebre que Jeremy David Salinger (1919-2010) lançou em 1951 e que mudou o curso da literatura moderna, a vida de muitos leitores e, sobretudo, deu fim à paz de seu autor. Estrondoso sucesso desde o lançamento, o livro tocou fundo em jovens da geração imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, tornando-se símbolo cult nos anos 60 e vendendo mais de 60 milhões de cópias. Passados mais de cinco décadas, estimativas apontam que a vendagem atual gire em torno de 250 mil cópias por ano. Um best-seller eterno.

Seu autor, um balzaquiano nova-iorquino que sonhava em ser o próximo Hemingway – na verdade, melhor do que Hemingway –, foi posto no pedestal reservado aos mestres, mas curiosamente optou pela reclusão à fama, e abraçando a máxima de Greta Garbo, “I wanna be alone”, refugiou-se nas montanhas nebulosas de New Hampshire, onde nunca deixou de atrair olhares de fãs e da imprensa.

Memórias de Salinger2, documentário de Shane Shalermo exibido no último Festival do Rio e desde sexta-feira em cartaz nas salas comerciais do país, repassa sua biografia no tradicional formato de entrevistas com seus convivas, além de celebridades e especialistas. De especial, contudo, o fato de ter realizado o último registro de Salinger vivo, em 2010, ano de sua morte.

Numa narração deveras dramática, adornada por uma trilha sonora que assume o tom narrativo da trama e por emulações pós-brechtianas de um cover de Salinger, Shane repassa episódios pontuais da vida do autor na tentativa de montar o quebra-cabeça de sua personalidade geniosa e genial, reclusa e perfeccionista, deixando sempre e acima de tudo a pergunta: “Por que Salinger sumiu?”. Além de amigos e parentes, o doc entrevista personalidades como os escritores Tom Wolfe e Gore Vidal, e até mesmo o ator Phillip Seymor Hoffman, para capturar impressões externas de seu estranho protagonista.

A primeira conclusão é a de que Salinger e seu filho pródigo, Holden Caulfield, o púbere protagonista de O Apanhador do Campo de Centeio, foram moldados pelos horrores da Segunda Guerra Mundial. Salinger, filho de judeus endinheirados de Manhattan, decidiu-se desde cedo por uma vida intimista e simples, partilhando os impulsos literários com amigos borra-botas – alguns dos quais também se tornaram grandes escritores – em bares nada requintados da Big Apple. Com a adesão estadunidense à Guerra, Salinger decide se alistar, e depois de várias recusas do exército, é aceito para o serviço de investigação, capturando informações em territórios inimigos a serem ocupados pelas tropas Aliadas. Como relata o filme de Shane, seu trabalho começou no Dia D, 6 de junho de 1944, quando tropas americanas chegaram à Normandia, e encerrou-se apenas no Dia da Vitória, quando a Alemanha se rendeu. Entre confrontos diretos e investigações, visitando campos de concentração e entrevistando alemães, passaram-se 299 dias de serviço de campo do sargento Salinger, em algum dos quais escrevera trechos de seu grande livro, culminando num colapso nervoso e internação numa clínica de recuperação.

Antes de sonhar em ser reverenciado com o maior autor de sua geração, Salinger tinha uma sonho muito mais modesto: ser publicado na revista The New Yorker. Desde aquela época, a revista gozava de grande prestígio internacional e publicava contos de autores promissores. Salinger recebeu mais de meia dúzia de recusas, até ser aceito pelo editor e amigo para toda vida, o lendário William Shawn (pai de Allen Shawn).

Enquanto isso, na vida pessoal demonstrava pendor a garotas mais jovens. O filme de Shane revela sua polêmica relação com a alemã Sylvia que, segundo fontes, teria sido filiada ao Partido Nazista. O autor teria se apaixonado enquanto oficial do exército, a serviço dos esforços de desnazificação da Alemanha pós-guerra, e a levou aos EUA, ato ilegal na época e comprovado por documentos do desembarque marítimo, chegando até mesmo a apresentá-la a sua família judia. Um mês depois, o casal se separou.

As polêmicas envolvendo o autor abordadas pelo filme vão desde os fatos supracitados até os assassinatos cometidos por autores que se justificaram apontando o livro de Salinger como referência – o mais célebre deles, Mark Chapman, matou John Lennon enquanto carregava uma cópia do livro no bolso. Chapman chegou a enviar uma carta ao delegado responsável pelo caso em que dizia: “Se quer entender porque fiz isso, leia O Apanhador no Campo de Centeio“. Sem dúvidas, perturbador.

Simultaneamente, o filme explora conjecturas para a reclusão do autor. Enquanto ex-namoradas e amigos dizem que foi medida de proteção, contra a perseguição constante de paparazzi e fãs (muitas vezes psicologicamente comprometidos), outra linha narrativa subentende que o colapso nervoso de Salinger nunca fora completamente curado. Suas obras tornaram-se cada vez mais autobiográficas e perturbadoras, e seu perfeccionismo afastou seus filhos e encerrou relações.

O que resta é a obra e uma sequência de fotos finais, crepúsculo de uma vida, que mostram o velho Salinger de bengala, caminhando até o carro onde sua mulher, bem mais nova, lhe aguarda. Resta um sorriso final, como se o autor – sempre místico, fiel à tradição de meditação indiana de Bhagavad Gita – soubesse que estava sendo observado. No final do filme, informações surpreendes: o autor, que morreu em 2010, controlador como era, fundou um trust responsável por suas obras cuja incumbência principal será divulgar, entre 2015 e 2020, escritos de Salinger realizados após 1965, ano de sua reclusão. Entre as obras prometidas, um guia espiritual (de meditação, provavelmente), histórias completas da família Glass, sua obra de maior sucesso depois de O Apanhador…, duas obras sobre a Segunda Guerra (uma provavelmente explorando sua relação polêmica com a alemã Sylvia) e, pasmem, um conto novo com Holden Caulfield, sua persona literária.

Parece ser tempo de revival de Salinger, anos futuros que prometem uma releitura de sua obra e um reexame de sua figura, tentativa infinita de desvendar sua personalidade que, mesmo com o filme de Shane, ainda parece um misterium tremendus.

)

  1. Versão disponível na web, pelo coletivo Sabotagem
  2. A foto em destaque, exibida no filme, é o único registro conhecido de Salinger trabalhando em sua obra mais famosa, em serviço na Segunda Guerra.

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