Festival do Rio: the best so far

em 29 de setembro de 2014

Informações

  • Título: Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro
  • Diretor: -
  • Roteiro: -
  • País: Brasil
  • Ano: 2014
  • Elenco: -

Os que acompanham nossa cobertura do Festival do Rio devem ter notado que este ano as coisas estão um pouco diferentes. Não se desesperem! Infelizmente, as tradicionais Rapidinhas do Festival não acontecerão, mas como tudo na vida tem um lado ruim e outro bom, a boa notícia é que agora o Posfácio está infiltrado na organização do evento! Explico: esse que voz escreve – e que é o único posfaciano no Rio de Janeiro –, esse ano descolou um freela no staff do Festival1 e, se por esse motivo tenho visto muito menos filmes no circuito, o que é bem triste, em compensação agora tenho informações fresquinhas de bastidores para vocês e coisas bacanas para contar, como ter acompanhado a entrevista de Najwa Najjar, diretora de Olhos de Ladrão, selecionado pela Palestina para disputar uma vaga no Oscar do ano que vem.

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Em evento para os fãs, a produtora e o ator Chad Coleman, de The Walking Dead, chegaram acompanhados de zumbis. (Foto:Davi Campana/R2Foto)

No Armazém da Utopia, no Cais do Porto, está o QG do Festival, onde ocorrem eventos para a imprensa e fãs e por onde passam diretores como Walter Carvalho, que traz seu documentário Brincante; atores como Chad Coleman, de The Walking Dead, que ofereceu seminários e encontro com fãs; e personalidades das artes como Martinho da Vila, protagonista de O Samba, filme do suíço Georges Gachot sobre o poder desse ritmo no Brasil. É no Armazém que também acontece a RioMarket, um importante evento para as aspirações da cidade em se tornar pólo cinematográfico da América Latina e que consiste em seminários e reuniões entre mandachuvas do setor – foi, por exemplo, na RioMarket 2012 que se discutiu a lei 12.485/2011, que estabelecia cota de produção nacional independente em todos os canais de TV a cabo.

Assim, o mais interessante de trabalhar no evento e concomitantemente participar dele enquanto fã, cinéfilo e crítico é observar um pouco do mundo empresarial que gira em torno do produto Cinema. Em uma das paredes do galpão, por exemplo, vê-se uma pesquisa do IBOPE Media de “soluções para o setor [audiovisual]”, informando que 69% dos gêneros mais vistos no cinema são de ação e aventura e que é de 17% o índice da população que diz frequentar os cinemas. É bom sair um pouco da metafísica sentimental do Cinema enquanto arte, a sétima arte, a arte de “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” e observar que ele também é (e para algumas pessoas, acima de tudo) um negócio.

Mas agora vamos falar de filmes? O Festival desse ano traz 350 produções de 60 países, espalhadas por quase 20 salas (menos o Odeon, o mais lindo e antigo da cidade, que atualmente está fechado), inseridas em 22 mostras (incluindo as de tributo aos diretores Michael Cinimo e Roberto Rossellini), com duração e 14 dias, entre 24 de setembro e 08 de outubro.  A data não é das melhores, passando bem no meio da turbulenta eleição de 2014, em 5 de outubro, mas parecia a única disponível, entre o Festival de Brasília, que terminou dia 22 e a Mostra de São Paulo, que começa no próximo dia 16.

O destaque do Festival, como sempre, é a Première Brasil, onde as produções nacionais de curta-ficção, curta-documental, longa-ficção e longa-documental competem pelos troféus Redentor e prêmios do júri – que esse ano é presidido por Karim Aïnouz (diretor de Praia do Futuro, de 2014) e também conta com a atriz Malu Mader e o diretor e produtor independente Cavi Borges, entre outrxs. Entre os filmes da Première, destaque para A Luneta do Tempo, ficção musical e metafisica do cantor Alceu Valença (foto em detaque), com o respeitado ator Irandhir Santos como Lampião, Hermina Guedes como Maria Bonita, e premiado com dois Kikitos no último Festival de Gramado (em breve crítica completa aqui no Posfácio).  Destaque também para os documentários Favela Gay, do estreante em longas Rodrigo Felha, mostrando a vida da comunidade LGBT nas favelas do Rio; e Esse Viver Ninguém me Tira, do ator Caco Ciocler sobre dona Aracy Guimarães Rosa, mulher do autor de Grande Sertão: Veredas.

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Wim Wenders filma Sebastião Salgado

Até o momento, a sessão mais disputada tem sido a de O Sal da Terra (foto acima), com a imbatível proposta documental do premiado Wim Wenders (Paris, Texas, 1984), em parceria com Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado, sobre o trabalho do pai, um dos fotógrafos mais premiados do mundo. O filme foi a Gala de Abertura do Festival e a Gala de Encerramento será com Trash – A Esperança vem do Lixo, produção britânica dirigida por Stephen Daldry (Billy Elliot, 2000), filmada no Rio, com elenco internacional.

Das falhas que puderam ser observadas até aqui, há o sistema instável de compra de ingressos no QG de vendas, no Estação Botafogo, que tem provocado muitas filas, e o péssimo trabalho de design da campanha do evento, com um pôster realmente horroroso. Porém, a mais pungente é a falta de uma mostra em homenagem a Eduardo Coutinho, certamente o documentarista mais relevante desse país, morto neste ano. O catálogo do Festival tem um texto em sua homenagem – e outro ao ator José Wilker –, mas preferiram inserir na programação uma mostra fraca e desconjuntada de Alfred Hitchcock (homenageado praticamente todos os anos), do que as obras de um grande cineasta brasileiro.

Pelo lado dos cinéfilos, sei que esses seres-da-sala-escura criam estratégias das mais malucas para assistir aos filmes que selecionaram. É bonito cruzar, em bares, restaurantes e centro culturais, com pessoas munidas de suas revistinhas do Festival, caneta na mão, lendo as sinopses e horários dos filmes e circulando os que pretendem assistir. Alguns buscam só os “filmes de arte”, aquela comédia romena de cinco horas, em preto e branco e sem falas, aquele filme que certamente não estreará em circuito comercial. Existem aqueles, mais endinheirados, que dispendem umas centenas de reais para comprar o passaporte, que dá direito a cinquenta ingressos. Já os menos endinheirados vão às sessões baratinhas, de R$ 5 a meia-entrada, nos centro culturais, como o da Justiça Federal e o Museu da República, este pela primeira vez participando do evento. Já que esse ano não tem telão na praia de Copacabana, que em 2012 exibiu filmes de graça, o jeito para nós, simples mortais, é às vezes contar moedinhas para ir tantas vezes no Cinema numa mesma semana.

Assim, às vezes aos trancos e barrancos, mas muitas vezes acertando bem, o Festival do Rio continua seguindo como o maior e mais premente do Brasil. Em breve, mais notícias, além de críticas dos filmes já vistos.

  1. Obrigado agência Febre pela boa recepção!

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