Há sempre algo de paradoxal na denominação “romance histórico”. É, ao mesmo tempo, história e literatura, fato e ficção, a busca de preencher as lacunas da intimidade que, por sua própria natureza, nós nunca saberemos. É claro que algumas figuras históricas deixaram diários, cartas, registros de suas vidas interiores e cotidianas, mas isso não costuma impedir nem nosso impulso de ficcionalização nem a mítica que muitas vezes ultrapassa essas vidas.

Essa mistificação, contudo, permite que algumas dessas figuras se tornem símbolos: nós as assimilamos pelo que representam, e sua subjetividade deixa de importar. Tentar imaginar suas vidas interiores, em contraste com o mito, quase sempre dá em algo interessante. É o caso, por exemplo, da Maria Antonieta de Sofia Coppola. Símbolo máximo de alienação e ostentação, ela pôde se tornar mecanismo para um filme autobiográfico sobre encontrar a si mesma no ar rarefeito da realeza. É o caso também de Dickinson, série produzida por Alena Smith para a Apple+ que “conta”, com boas doses de ficção, a adolescência da poeta Emily Dickinson.

Nos dois casos, saber o final dessas personagens é essencial para as obras. Maria Antonieta acabará decapitada em parte como consequência de seu modo de vida; já Emily Dickinson ficará para sempre na casa da família, solteira e desconhecida. Conhecer esses finais dá à história de ambas um substrato trágico e confere gravidade ao humor usado para contá-las.

Em um movimento um tanto subversivo para a forma como consumimos televisão hoje em dia, Dickinson tem nos spoilers sua melhor ferramenta. Nós sabemos que Emily nunca superará as forças que enfrenta na série – o machismo, o confinamento, o pai que desaprova mulheres que “buscam fama literária” -, mas sabemos também que ela chegará a ser considerada a maior poeta de literatura americana, o que transforma sua arrogância da adolescência em clarividência e dignidade. Cada vez que ela bate uma porta gritando que é um gênio, o espectador sabe que isso é verdade, mas também que, para a Emily viva e jovem que vemos na tela, isso não adiantará nada.

Emily Dickinson é um símbolo de muitas coisas para pessoas diferentes: do apagamento das mulheres da literatura; da resistência dos homens velhos e brancos a uma poesia radicalmente moderna; da loucura; do confinamento e solidão impostos pela heteronormatividade. Há décadas sua recusa em se casar tem sido lida como um indício de homossexualidade, e estudos recentes indicam uma boa possibilidade de que, de fato, Emily tivesse uma relação amorosa com Sue Gilbert, amiga da poeta que acabou por se casar com seu irmão.

Alena Smith toma todos esses símbolos e possibilidades para sua versão. A Emily de Dickinson, interpretada maravilhosamente por Hailee Steinfield, que também é produtora da série, é bissexual e tem seu primeiro orgasmo com Sue enquanto compõe o poema “I Have Never Seen Volcanoes”. É rebelde e tem visões em que a própria morte vem buscá-la de carruagem. Smith assume todas as suposições mais loucas para a misteriosa Emily Dickinson e, ao torná-las todas reais, aumenta o mistério e liberta sua série da prisão do realismo.

Em uma produção em que abelhas gigantes e a morte de carruagem aparecem ao som de Mitski e Billie Eilish, o pacto feito com o espectador não é o de contar a verdadeira história de Emily (da qual, afinal, sabemos tão pouco), mas a de seus simbolismos. A trilha sonora e estética de série adolescente tipo Gossip Girl apontam para o universal: genial, trancafiada e cheia de desejos, Emily não é muito diferente de adolescentes possíveis.

Esse paralelo entre 1850 e 2020 é parte do humor da série, mas é conduzido com uma mão leve. Além da trilha sonora, a fala dos personagens é contemporânea, mas são os comentários a respeito de política e lugar das mulheres que tornam a série atual. A proximidade entre a família de Emily, relativamente liberal para o século XIX, e famílias conservadoras do século XXI é notada com uma ironia fina. O quão pouco as coisas mudaram fica claro pela presença de outros personagens famosos, como um Thoreau esquerdomacho e uma ambiciosa Louisa May Alcott.

É possível que esses personagens nunca tenham cruzado o caminho da poeta, mas são importantes para o panorama simbólico do qual a série é feita. Um dos melhores movimentos, aliás, é o uso do inconsciente de Emily, como sonhos e alucinações em que coisas que a personagem se recusa a reconhecer ficam claras (que um pretendente seu possa ser gay, por exemplo), e também dos poemas como fios condutores para os episódios. Cada um deles leva à escrita de um poema, todos anacrônicos e escritos por Emily muito mais tarde, na verdade, mas que com isso ganham um lastro na vida.

Emily Dickinson é famosa por seus poemas herméticos, enigmáticos, cheios de referências cifradas à mortalidade. Aqui eles se abrem. Não são simplificados ou explicados, mas ancorados na experiência, tornados concretos, inclusive, pelas letras douradas que flutuam na tela. É uma opção arriscada, mas seu funcionamento está no coração de toda essa obra. É uma série sobre a poeta e o fato de que essa poeta foi um dia uma pessoa de verdade, uma mulher de verdade. Seu mistério e mito não anulam isso, nem isso anula sua genialidade imortal.

Dickinson aparece como um animal raro na televisão desses tempos. Impecavelmente produzida, é também despretensiosa e funciona por ser ao mesmo tempo profunda e cômica. É uma piada com muitos fundos de verdade, rebelde como sua protagonista. Assim como ela, é uma série que se recusa a aceitar que os bastiões da arte sejam intocados. Seus mitos são vivos como as peças gregas deveriam ser em seus dias de encenação regadas a vinho. Em um ato de rebeldia literária ainda ousado, Alena Smith e Hailee Steinfield dão rosto e sexo a alguns dos maiores poemas da língua americana. E esse rosto é o de uma garota adolescente que gosta de outras meninas, de festas e de umas doses de ópio.