A bolha

As ofertas estão em todos os lugares. Para qualquer jovem casal é irresistível não apaixonar-se por um desses novos empreendimentos com churrasqueiras, áreas de lazer em comum, piscinas e saunas, a academia logo no térreo, a varanda lacrada à prova de balas e paredes em tonalidades de branco estéril e amarelo hepatite. Um saldão de novas moradias a preço de banana. E podem até pechinchar parcelas por trinta anos direto com a construtora, pagando mais da metade do preço de um milhão de reais na planta, antes mesmo do terreno estar assentado.

Mas peço que me ouçam por um instante. Algumas linhas não lhes farão mal e vocês não perderão a visita aos pré-decorados. Antes de fecharem com a construtora, visitem apartamentos usados e deem preferência àqueles cuja data de construção seja do período pouco antes da ditadura. Não somente pelo charme de seus halls de entrada ou seus elevadores com portas manuais. Há muito mais nesses idosos imóveis do que a aparência “vintage”. Leia mais

Me dê motivo

Outro dia, era uma quarta ou quinta-feira, ele ouviu que ela queria um motivo. Com certeza ela queria que ele desse um e para pedir um motivo, com certeza, era quarta-feira. Era uma quarta-feira e chovia, porque era maio. Era o mês cinco porque ele engoliu o choro, segurou para não derrubar nenhuma lágrima quando a viu pedindo um motivo para ele amá-la. Ele olhava para o chão, para o teto, para a janela com gotículas de chuvas de maio; esfregava a mão no queixo e depois no cabelo – atordoado -, enquanto ela parecia decidida a querer um motivo olhando diretamente para ele, transpondo sua alma errante e hedionda.

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Vamos ler sobre sexo?

Tem coisas que decoramos na escola. Não. Não é aprendizado. Acho que algo que aprendemos não é enfiado goela abaixo por outra pessoa, necessariamente. O aprendizado é algo que descobrimos por nós mesmos, se fodendo como a vida sempre quis. Precisamos daquela queda de bicicleta para continuar a andar e até para desistir de vez. Há pessoas que aprendem a ficar quietas no momento apropriado por terem sido esculhambadas muitas vezes. E quem nunca ouviu que quem lê mais pode aprender mais coisas? Não acho uma máxima, mas levando em consideração dá para se evitar constrangimento se você conhecer algumas dicas dos mais variados autores quando a questão é sexo. Porque o sexo nada mais é que o aprendizado máximo. Maior do que a meditação durante o tédio. Toda vez que se muda de parceiro ou de sexo que você cobiça, as coisas mudam, a química é diferente, os corpos, os pontos erógenos, etc. Não sou um professor. Mas vamos ver o que nos ensinaram no maravilhoso mundo das letras. Leia mais

Essa é uma história verdadeira aconteceu com o amigo de um amigo meu

F. era cheirosa e nunca teve CC. Ela adora suvacos. Abraça as pessoas aproximando sua narina nas axilas alheias. “Cada pessoa tem seu azedinho.” Ela adorava os odores e quanto mais amigo, mais cafungava. O dia que o seu primeiro CC subiu, quase com 30 anos, odiou. Leia mais

Quero ser grande

Quando eu tinha lá pros meus 6 ou 7 anos de idade, a minha mãe me matriculou na natação do CREC do meu bairro, Vila Baeta Neves, em São Bernardo do Campo. Ela fez isso no inverno. Não havia aquecimento. Logo, o professor dava atividades lúdicas para todos os matriculados (leia-se futebol para os meninos e pega-pega para as meninas).

Naquela época eu não era fã de futebol e tampouco achava legal jogar ou assistir. Por influência, em grande parte dos colegas dessas atividades, eu sonhava em ser goleiro da seleção brasileira. Não poderia ser de time, porque não seria de coração. Teria de ser da seleção. Leia mais

Dr. Sucinto; ou como parei de me editar e amar a verborragia

“For sale: baby shoes. Never used.”

Esse é o melhor trabalho de Ernest Hemingway. Não sou eu quem disse. Ele quem disse, juro. Um desafio numa mesa de bar valendo a rodada.

Quantos de nós hoje em dia nos entregamos ao prolixo? Eu mesmo já estou sendo prolixo. Quero enrolar o leitor para fisgá-lo e permanecer o máximo de tempo possível dentro do meu espaço. Só que os apressadinhos já pularam para a última linha, que pode ser a melhor ou pior que escrevi. Talvez o recheio seja melhor. A piada talvez esteja inserida no meio e não quando as risadas nos estimulam a rir forçadamente. Leia mais

O melhor amigo

Você já teve um melhor amigo imaginário? Eu não. Tive famosos imaginários. Geralmente algum personagem, ator, atriz ou desenho figuravam como meus amigos de brincadeirinha. Eles se escondiam na parede e eu demorava para convencê-los a sair do lugar e, quando conseguia, era o único a enxergá-los, o que levou muitos membros da minha família a me olhar como um desajustado falando sozinho.

A grande verdade é: todos precisam de melhores amigos. Todos nós precisamos de outra parte, outro ser, para cumprir o papel de ouvinte. Eu não falo de amigos confidentes. Daquele vizinho que cresceu junto com você e inevitavelmente hoje é o seu melhor amigo. Também não falo daquele amigo de colégio que sempre ouviu suas mazelas e te ajudou nos momentos difíceis, como também esteva presente em grande parte da diversão. Não estou aqui para fazer uma homenagem aos meus amigos como se ao fundo tocasse “Why Can’t We Be Friends”. Leia mais

Cheios de charme

Me foge da memória a época em que minha mãe me levava ao Studio Center, em Santo André, para assistir a Família AdamsDe volta para o futuro III – dois filmes guardados na minha memória afetiva – e O Sombra (minha primeira decepção como espectador de salas de cinema). Era interessante como um teatro tinha em seu palco uma tela grande como principal atração. Também era curioso, e aqui talvez entra em ação a minha criptomnésia, os camarotes no alto, as cadeiras baixas de couro vermelho, os lanterninhas e o cheiro de suor misturado com o de manteiga. O roteiro era quase o mesmo: sábado, começo de noite, minha mãe, seu namorado da faculdade, eu e muita pipoca.

Esse cinema de rua fechou logo quando o antigo Mappin da cidade – uma verdadeira loja de departamento de infinitos andares –  virou Shopping ABC e prometia um cinema de última tecnologia. O mesmo aconteceu nas cidades vizinhas como São Bernardo (onde o melhor cinema de todos ficava dentro do Extra Hipermercado) e São Caetano. A graça de ir ao cinema era justamente ir ao cinema. Transformar o passeio no shopping em um eventual cineminha não era a mesma coisa, porque, de certa forma, gastávamos mais tempo andando de lojas em lojas do que indo direto à sessão. O cansaço da caminhada eliminava parte do divertimento de estar na fila com um saco de pipoca à mão (isso virou um fardo, na verdade). Sem contar os coitados dos lanterninhas que aumentaram as estatísticas de desemprego.

Todavia, reencontrei os cinemas de ruas. Leia mais

One Year Later

Era meia-noite e um minuto na Rua Rodésia e caiu um toró. Na Mercearia São Pedro, o antro dos escritores paulistanos e radicados na capital paulista. Era meia-noite e um e ninguém conseguiu uma só mesa para sentar-se após uma quinta-feira de trabalho. A única recompensa era lembrar, no alto do consumo etílico, que a sexta-feira era, além de sexta, um feriado na cidade. Aniversário da cidade.

O Posfácio surgiu naquela meia-noite e um com uma compilação das melhores leituras feitas por diversos escritores, jornalistas e convidados. Fora do mundo virtual, todos ficaram acuados debaixo de árvores, mas permaneceram para dar boas-vindas ao site que ninguém sabia bem do que se tratava. Era filho bastardo, era híbrido, quimera, mutante. Era aposta e ainda é. Leia mais

Season Finale da Literatura 2013: Capas, Títulos e Trocadilhos

Posso chamar esse ano de atípico nas minhas leituras, comecei mais do que terminei, recebi bem mais do que sou capaz de ler, absorver e resenhar. Todavia, é bem fácil continuar como um grande consumidor de livros e ir papando título após título e deixá-los em estado tsundoku por tempo indeterminado. Ok, essas são as desculpas para todos os anos e como bom ou mau leitor as uso até me jogarem contra a parede.

Sem criar alarde: essa não é a lista de melhores livros lançados em 2013, ou melhor, não é uma lista de melhores leituras, mas de LIVROS. Os cheirosos, os bonitos, os longos, os títulos, as fontes, as orelhas e por aí vai. Quase um Oscar do Mundo Literário, mas sem eu ser judeu, dar uma estátua de ouro ou criar suspense durante meses. O que importa, talvez, sejam os breves e pouco edificantes comentários, um pitaco pessoal sobre o que me chamou a atenção.

Vamos? Leia mais

Sou escritor, um rascunho

Muitos são os percalços no caminho de quem vive de escrita.

De um lado, o inédito. Alguém que sabe que escreve bem, a namorada elogia logo na primeira linha, a mãe se diz orgulhosa, o amigo – que amigo, hein? – aponta um erro de concordância e falta de sentido na frase do clímax. “Ele que não entendeu”, pensa o talentoso prosador nunca publicado. Leia mais

Lugares Favoritos

A. é estudante de economia e seu lugar favorito é o bar do W.. Ele pode assistir aos jogos do seu time do coração na mesma mesa e com os mesmos amigos, pedindo a mesma cerveja, a mesma cachaça e, no intervalo, uma porção de amendoim (sem casca, por favor);

G. é funcionário público e adora sentar nos pufs da Livraria Cultura (do Conjunto Nacional na Av. Paulista da Pauliceia Desvairada) para ler livros que, talvez, não vá comprar – e não compra mesmo. G. terminou romances em uma sentada, os dos livros, por lá. Na vida, “Estão muito bem, obrigado”, diz ele com sotaque mineiro; Leia mais