Fahrenheit 451 – #livrospelaliberdade

— Você não estava lá, você não viu — disse ele. — Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas; tem de haver alguma coisa. Ninguém se mata assim a troco de nada.
— Ela era fraca da ideia.
— Ela era tão racional quanto você e eu, talvez até mais, e nós a queimamos. (…)
— Ontem à noite eu pensei em todo o querosene que usei nos últimos dez anos. E pensei nos livros. E pela primeira vez percebi que havia um homem por trás de cada um dos livros. Um homem teve de concebê-los. Um homem teve de gastar muito tempo para colocá-los no papel. E isso nunca havia me passado pela cabeça. Montag saiu da cama. — Às vezes pode levar uma vida inteira para um homem colocar seus pensamentos no papel, depois de observar o mundo e a vida, e aí eu chego e, em dois minutos, bum! Está tudo terminado.
— Me deixe em paz — disse Mildred. — Eu não fiz nada.
— Deixar você em paz! Tudo bem, mas como eu posso ficar em paz? Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?

Enjoo Matinal

Todo dia de manhã gostaria que fosse como o dia anterior. Todo dia de manhã gostaria que não tivesse raiado o dia. E todo dia de manhã gostaria de não ver ninguém de manhã, de tarde ou de noite. Quase todo dia na manhã penso na inspiração que me carregará por todo dia. Todo dia de manhã deixo passar pela ressaca da noite anterior. Todo dia de manhã eu desejo que o dia não se repita. Mas todo dia de manhã eu desejo que todo dia seja igual. Todo dia de manhã me pergunto do futuro e todo dia de manhã não quero pensar no futuro. Todo dia de manhã eu me preocupo, mas todo dia de manhã não calculo. Todo dia de manhã é todo dia de manhã, igual e diferente, de novidades velhas e velharias novas, das mesmas conversas ou pensamentos. Todo dia de manhã eu tenho preguiça. E todo dia de manhã quero fazer algo para mudar de vida. Toda manhã eu enjoo em pensar nas náuseas de amanhã. Todo dia de manhã mulher ou menina. E toda manhã de neblina gosto de recordação. E quando a madrugada ainda não é dia, mas todo dia com você quero compartilhar um dia, uma cama, uma vida. Todo dia de manhã vivo de amor. Mas todo dia de manhã penso que não dá. Todo dia de manhã tento lembrar o que toda a noite antes de dormir me faz pensar. Todo dia de manhã já dei um tapa. Todo dia de manhã já dei um beijo. Todo dia de manhã passo a mão pela barriga. Todo dia de manhã me preocupo em não me preocupar e todo dia de manhã continua com todo dia de tarde e todo dia de noite. Todo dia, de manhã ou de noite, sou ser humano com meu currículo completo: mesquinha, metida, egocêntrica, alterada, louca, altruísta, de bem com a vida, decidida, mal humorada, bem humorada, musa, vivida, perdida, mãe, irmã ou filha, aprendiz, professora, escritora, amante, senhora, senhorita, esquecida, lembrada, saudade, despedida…

Literatura de testemunho

Em muitas das minhas resenhas aqui no Meia eu costumo falar em algo chamado literatura de testemunho. Não tenho certeza sobre o quão técnico o termo é, ou melhor, sobre o quão hermética é a palavra: apesar de acreditar que seu significado seja mais ou menos dedutível, eu mesmo só fui ouvir isso depois de enfiar-me nos labirintos da academia.

Resolvi, logo, fazer um breve post acerca do que é a tal da literatura de testemunho. Trata-se, como diz o nome, daquela literatura que serve como testemunho de alguma situação. As coisas que foram escritas pelos sobreviventes dos campos de concentração, por exemplo. Nesse sentido pode-se pensar em Primo Levi, Tadeusz Borowski, Imre Kertész, Elie Wiesel… Leia mais

Especial de Rosh Hoshaná – Tradição judaica na literatura

Franz Kafka, Imre Kertész, Philip Roth, Amós Oz, David Grossman… Todos autores que tem algo em comum: a origem judaica. E não são os únicos: eu já escrevi uma série de posts sobre literatura judaica, mostrando o quão vasta ela é (e eu, certamente, só conheço uma parcela ínfima de todo um universo). Apesar de todo mundo que eu conheço já ter lido algum livro de escritor judeu, vejo que poucas dessas pessoas conhecem a cultura judaica, mesmo que superficialmente.

Pensando nisso resolvi unir o útil ao agradável e preparar um post especial de Rosh Hoshaná (o Ano Novo Judaico, que acontece entre hoje e amanhã), falando sobre livros que entrem mais a fundo na cultura judaica tradicional. O que é kosher? Que festa é aquela que acontece quase no Natal e na qual se acende aquele candelabro engraçado? O que é um goy? Não vou responder nenhuma dessas perguntas, mas vou dizer quem pode responder de modo muito mais proveitoso do que eu. Leia mais

Nossas Apostas para o Nobel 2011- parte II

Eis aqui a segunda parte das apostas para o Nobel de Literatura desse ano. Agora é a hora em que realmente apostamos: eu e o Tiago apontamos, cada um, cinco autores que pensamos terem a maior probabilidade de serem escolhidos para receberem o galardão da Academia Sueca de Literatura.

Vale lembrar que as escolhas não são aleatórias: a Academia Sueca de Literatura deve obedecer o testamento de Alfred Nobel e premiar o escritor que ‘mais auxiliar no desenvolvimento da humanidade, fazendo isso na melhor direção possível’. É claro que isso é bastante subjetivo e a Academia tem suas tendências políticas, além de ser influenciada por inúmeros fatores ‘externos’ (nós discutimos tudo isso na primeira parte).

A terceira (e última) parte das nossas apostas deve sair no mês de outubro, logo depois de o comitê do Nobel anunciar o vencedor.

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Sobre Dostoievski

Eu gosto de pensar que que sou um propagador e defensor da literatura contemporânea: pelas minhas resenhas aqui no Meia Palavra deve dar para notar a minha preferencia pela literatura que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, e uma tendência para ler escritores ainda vivos.

Não é espantoso, então, que eu seja de certa forma um ‘opositor’ da literatura ‘clássica’: eu sei que Shakespeare, Cervantes e Camões são importantes. Eu reconheço o valor – e a qualidade – de um Machado de Assis. Mesmo considerando rima e métrica algo um pouco rançoso, não deixei de ler Álvares de Azevedo. Li e apreciei todos eles. Mas acho que bons autores vivos são mais importantes que bons autores que viveram em um mundo completamente diferente do nosso.

Existe, porém, um escritor do século XIX – e que sequer chegou a ver o século XX – que eu defendo como essencial. Trata-se do russo Feodor Mikhailovich Dostoievski.

Sua obra é extensa, por isso torna-se difícil saber por onde começar. Eu o fiz, meio que por acaso – peguei emprestado de uma amiga atraído pelo título, sem saber exatamente do que se tratava-, por Recordações da Casa dos Mortos. Leia mais

James Joyce não é tão difícil

Ulisses, de James Joyce, é, talvez, uma das obras literárias mais famigeradas da modernidade. O livro é famoso como uma das obras venais do modernismo, não só na Irlanda, não só em língua inglesa, mas no mundo. Também é famoso por seu tamanho avantajado: dependendo da edição, pode variar entre oitocentas e mil páginas – e isso que trata sobre um único dia. Mas, provavelmente, o que o torna mais conhecido é o fato de ser um livro difícil.

Em qualquer lugar em que pessoas que tem a leitura por hábito se encontrem, ao se mencionar o tópico livros difíceis, o nome de Joyce surge, notadamente com Ulisses e com Finnegan’s Wake.  A relação contrária também é verdadeira: ao mencionar que já li Ulisses, as pessoas costumam se espantar e mostrar certa admiração misturada com a descrença, e as fatídicas palavras ‘um dia eu ainda vou ler, mas ainda não estou pronto’.

O engraçado é que depois que você o lê – seja em alguma das traduções ou no original – uma das sensações que se corre o risco de sentir é o desapontamento. Não que o livro desaponte em qualquer sentido, é mais do que merecedor de todos os elogios e louvores que há quase cem anos vêm recebendo (ou talvez não tão quase assim: os elogios não vieram automaticamente com a publicação, já que o livro sofreu duras críticas no início), mas ele é mais fácil do que costuma ser dito por aí.

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Literatura e Holocausto- parte II

Jonathan Safran Foer nasceu em 1977. Existe, portanto, a impossibilidade histórica de que ele tenha sobrevivido ao Holocausto: a Shoah terminou trinta e dois anos antes que o escritor norte-americano de ascendência judia-polonesa nascesse. Sua obra ‘Tudo Iluminado’, porém, tem ligação direta com esses fatos.

Do mesmo modo, temos o quadrinista Art Spiegelman, autor de Maus– quiçá um dos mais vívidos relatos sobre a tragédia que se abateu sobre a Europa (notadamente sobre os judeus, mas sem poupar poloneses, ciganos, Testemunhas de Jeová, comunistas e homossexuais), nunca esteve lá- mas seu pai sim.

E, conforme prometi, eis a segunda parte do texto sobre literatura e holocausto. Os autores que mencionarei agora- como pode ser visto nos dois primeiros parágrafos- não sentiram na pele os horrores pelos quais Kertesz, Borowski, Levi e Sutzkever passaram, mas carregam, de alguma maneira, resquícios disso.

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Literatura e Holocausto- parte I

A Shoah -o nome que os judeus dão para o Holocausto- foi uma experiência de violência inacreditável, evocando horrores até então impensáveis. O choque foi tão grande que levou o filósofo alemão Theodor Adorno a declarar pemas a respeito como barbáricos. Não foi o único, ele apenas ecoava a opinião de muitos de seus contemporâneos, que consideravam a natureza da poesia oposta à natureza do holocausto: toda poesia seria demasiado agradável ou demasiado formal para expressar o que significou esse momento da história, violando assim a incoerência inata ao fato.

Mais tarde, porém, o próprio Adorno voltou atrás dizendo que ‘o sofrimento perene tem tanto direito de expressão quanto o homem torturado tem de gritar’. Certamente os gritos ouvem-se até hoje: três ou quatro gerações depois da desumanização promovida pelo regime hitlerista- primariamente contra judeus, é certo, mas não se pode esquecer os ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, comunistas, poloneses e soviéticos- ainda se pensa, lê e escreve sobre o Holocausto.

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A poesia de Roberto Bolaño

Não sei o que o escritor chileno Roberto Bolaño pensaria a respeito de todo o frisson que existe ao seu redor. Pela natureza de sua obra- com todo o conteúdo que vai contra o estabilishment literário- acho que talvez ele não achasse isso a melhor das coisas. Ou talvez eu me engane.

De qualquer maneira, fosse ele gostar ou não, o que importa é que ele está bastante em voga. Quase todas as pessoas que eu conheço já leram, querem ler ou acham que deveriam ler alguma coisa dele. O que é bastante merecido,  verdade, pois Bolaño realmente é um dos melhores e mais singulares escritores que conheci nos últimos anos- e talvez o melhor dos que ‘explodiram’ recentemente (mesmo que de forma mais modesta se comparado a best-sellers, mas ninguém está contando com isso aqui).

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Literatura Judaica V- Literatura Judaica no Brasil

O Brasil é notadamente uma grande mistura das etnias mais diversas. Os judeus, obviamente, não deixaram de marcar presença na construção da cultura do país. São aproximadamente 90 mil judeus, a segunda maior comunidade da América Latina e a décima primeira no mundo, isso considerando-se apenas os praticantes da religião e não meramente os indivíduos de ascendência hebraica.

A história dos judeus no Brasil começa já no descobrimento (ou achamento, como preferirem), com a presença de Mestre João e de Gaspar da Gama na esquadra de Pedro Álvares Cabral- ambos eram cristãos novos, judeus forçosamente convertidos ao cristianismo.

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Literatura Judaica IV- Literatura Hebraica

O hebraico é o idioma judaico por excelência, já que foi o idioma dos judeus na antiguidade, originou o ídiche e o ladino e é o idioma de Israel. É também o idioma da literatura judaica mais antiga e da mais jovem, ao mesmo tempo.

Apesar da aparente contradição, é fácil explicar. A Torah (o Pentateuco) é o registro literário mais antigo nesse idioma- e o registro literário judaico mais antigo. Por século foi nisso que consistiu a produção em hebraico: textos religiosos e místicos. Alguns contos folclóricos também foram colocados no papel. O grosso da produção literária- romances, novelas, poesia-, porém, foi na maior parte do tempo em ídiche.

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