Meu vestido é da sua conta?

É incomum que se questione a cobertura do tapete vermelho das grandes premiações. As mulheres que passam por ele sabem que serão escrutinizadas e que não há como ter certeza a respeito da reação dos críticos fashionistas (e, pior, das pessoas em casa) ao que escolheram vestir – com o devido auxílio de diversos profissionais especializados, claro.

A velocidade com qual se propagam piadinhas e comparações, tuitadas enquanto ainda estão sendo processadas pelo cérebro a fim de que todos as curtam e compartilhem o mais rápido possível (“viram como Meryl Streep estava parecendo um ovo de Ferrero Rocher?”), inspirou uma esquete de Jimmy Kimmel durante o Oscar deste ano para perguntar aos telespectadores: “Qual é o problema de vocês?”. Leia mais

A falta que eles fazem

Erga a mão com a qual você escreve, uma forma fácil de lembrar qual lado é o esquerdo e qual não é – nem todo mundo foi agraciado com um senso automático de direção. Pedimos isso porque a presente coluna está sendo escrita por dois homens. E – ainda que ambos trajem o mesmo bigode, os mesmos óculos metidos a hipsters e a mesma camiseta do Atari – eles não são iguais.

À sua direita está um mestrando em literatura e crítico literário com resenhas mensais no Jornal Rascunho; à esquerda, um blogueiro e tuiteiro que escreve semanalmente sobre o que lhe passa pela cabeça no Posfácio. O primeiro acredita em coisas como “ter distanciamento crítico” e “pensar tanto sobre o mesmo assunto que a eventual conclusão a que se chegue pareça tão óbvia que não precise ser enunciada”; o segundo é cabeça quente e gosta de agir duas vezes antes de pensar. Leia mais

Se você ama, abandona

Às vezes, a gente não se dá conta de que uma expressão que usamos costumeiramente não faz parte do dicionário urbano nem é um bordão popularizado pela novela: é, apenas, uma espécie de piada interna entre você e… bem, você mesmo. É preciso prestar atenção ao momento em que a pessoa com quem se conversa faz cara de interrogação – afinal, ninguém é obrigado a entender tudo o que se passa na sua cabeça. Leia mais

Mandando a real

Procrastinação. Pro-cras-ti-na-ção. Proooocrastinação.

Você sabe o que é. Talvez já tenha assistido a um vídeo sobre isso. Procrastinação é, aliás, ver um vídeo (de gatinhos, que seja) em vez de fazer o que tem que fazer.

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Mais poesia na sua vida – Formas inusitadas

Há poucos meses, perguntei: você gosta de poesia?

Na coluna em questão, escrevi sobre como “2013 foi um ano atípico na poesia” e listei todas as obras do gênero que li no período: dez. Acho que nunca tinha lido tantos em um mesmo ano; até em 2005, quando devorei quase todos os livros do Arnaldo Antunes disponíveis na biblioteca pública, não devo ter chegado a sete livros. O resumo da ópera: foi uma boa experiência de quebra de preconceitos. Leia mais

Conhecimento de causa

Cenário: essa imensa mesa de bar mais conhecida como “inbox do Facebook”. Bebia uma caneca de café, enquanto meu interlocutor (chamemo-lo Y.) tomava chá gelado de pêssego em um copo alto de vidro com pedras de gelo sem bolhas, com um ramo de hortelã na borda – porque ele é fino. Leia mais

Manual de observação de balões

Durante minha breve trajetória como tradutor de patentes, me deparei com algumas invenções interessantes: controles de radiação, moldes de almôndegas que asseguram a forma final do produto, um sistema de controle remoto de máquina de lavar roupa. Nada, no entanto, como o par de óculos que vi no meio da rua. Ninguém daria nada por eles: parecem iguais a tantos outros, figurinhas fáceis em bailes de formatura ou de debutantes. São azuis e suas lentes – se ainda estivessem presas à armação – teriam forma de estrela. 1 Leia mais

  1. L. gosta de ler poesia. E só. Não liga se 2666, Liberdade ou A visita cruel do tempo foram chamados de “o livro do ano” por algum jornal. Não se interessa pela leitura de A culpa é das estrelas, Divergente ou Academia de Vampiros: o Beijo das Sombras, nem depois de anunciarem as adaptações para o cinema. Prefere reler Um útero é do tamanho de um punho e esperar ansiosamente pelo lançamento da Poesia Total, de Waly Salomão. A poesia é o seu balão. É difícil aturar todos esses leitores de prosa, que não perdem uma oportunidade de imitarem aqueles poetas de rua: “Você gosta de poesia?”. Um dia, B. terá tantos poemas na boca do povo que a resposta de qualquer pessoa para essa pergunta será “Sim, o que você tem para me mostrar?”.

Por falar na copa

Na última copa do mundo 1 foi a mesma coisa de todas as outras que eu lembro. Leia mais

  1. Detalhe: esta crônica foi mesmo escrita na última copa do mundo. Sei lá o que deu – acho que o povo não se interessou pelo álbum – e ele começou a ser distribuído gratuitamente. Comprou uma melancia? Pega aqui um álbum também. Pediu um maço de cigarros? Leva junto um álbum. Não sei se continua assim este ano. Talvez o maior interesse nesse texto seja: os meus cabelos continuam os mesmos, mas, o meu jeito de escrever, quanta diferença. Juro: não ajeitei nada, tá do mesmo jeitinho que foi escrito para uma oficina de crônicas em 2010. Não faço ideia de quem seja o narrador disso aqui.

O riso dos outros

Pessoas são esquisitas. Quanto mais cedo nos habituarmos a isso, melhor. Peculiaridades, idiossincrasias, trejeitos, tiques e o ditado está certo: de perto, ninguém é normal. Uma de tantas características individuais que podemos observar é o tipo de humor a que essas pessoas respondem. Leia mais

Play it again, Sam. Play it three more times.

Se você reparar bem naquela moça, verá que é Isabel. Tudo bem, você não a reconhece, nunca a viu antes. Sendo assim, confie em mim: é Isabel. Cabelo azul, um livro em cima da caixa de compras que carrega (droga, não consegui ler a lombada!), a tatuagem do verso de Sylvia Plath num dos braços – Love, love, my season –, os tênis de corrida inseparáveis. Não há dúvidas: Bel. Leia mais

Música para ouvir música para ouvir música para ler

Tem quem leia. Tem quem leia andando. Tem quem leia andando e ouvindo música ao mesmo tempo. Não recomendo esta última situação: o risco de ser atropelado é imenso. Só faça isso em calçadas longas, sem rua alguma que as divida. Tem quem ache que ler com um disco tocando já é viver perigosamente o suficiente.

Não é todo mundo que consegue ler e ouvir música ao mesmo tempo. Tem quem se distraia. Tem quem prefira dançar e jogue o livro de lado assim que a música começa. Tem quem ache uma falta de respeito com o livro (e o narrador (e o autor)) que o cérebro não esteja 100% voltado ao livro. Tem quem não goste sequer de que o livro cite constantemente canções que ele(a) desconhece – “se para o livro ser entendido, eu preciso conhecer tais discos, esse não é um bom livro”.

O bom da internet é que nela você encontra de tudo. Há, por exemplo, um projeto de uma editora chamada Mojo Books. Conheci-a na época em que ela era ainda apenas digital: contos inspirados por músicas, livros baseados em discos. Inclusive há (havia?) um conto meu por lá. De uns tempos para cá, ela se renovou e passou a oferecer, além dos ebooks, a opção de comprar livros físicos – como é impressão sob demanda, creio que seja difícil encontrar exemplares numa livraria comum.

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Metáfora

Se o olho mágico já revela a visita indesejada, é só ao abrir a porta que percebo que o infeliz porta, de fato, galochas. Não fossem estas sinal suficiente de sua decrepitude, vale descrever a camisa rasgada, os óculos sem uma das lentes, a testa que sangra, a alça desprovida de mochila no ombro, algo que parece a torta estrutura duma antena parabólica numa mão e, infelizmente, três folhas de papel reciclado na outra. Leia mais