Visigodos, bárbaros e ostrogodos

(Foto: Eli Simioni)

por Vanessa Barbara

Nota preliminar: esta resenhista resolveu ater-se exclusivamente ao conteúdo do livro, abstendo-se de opinar sobre o assunto por questões óbvias, ainda que tétricas: na situação atual, não podemos contar com a garantia de direitos constitucionais básicos como liberdade de expressão e reunião – a julgar pelas prisões arbitrárias e pela prática de um certo “direito penal de autor”, que ocorre quando se investiga uma pessoa em busca de materialidade e autoria de condutas delituosas. Portanto, a resenha se limitará às ideias apresentadas pelo cientista político canadense Francis Dupuis-Déri, que não é brasileiro e não poderá ser alvo de investigação por formação de quadrilha armada, corrupção de menores e incitação à violência. (Pelo menos a princípio. Lembrem-se de Bakunin.)

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Escrito por Francis Dupuis-Déri, Black blocs [Les black blocs: la liberté et l’égalité se manifestent] foi publicado originalmente em 2003, e atualizado de forma sistemática até a edição atual, de 2014. O próprio autor revela, nas últimas páginas do livro, que de início julgava que a tática black bloc estava diminuindo em tamanho e importância, mas se mostrou equivocado na previsão: cada vez mais parece ser uma “imagem do futuro” que vem ganhando força e, portanto, merece análises mais detidas e responsáveis.

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Kundera strikes again!

É realmente muito bom ver que Milan Kundera, depois de dez anos sem publicar livros de ficção, still got it. O espaço de tempo decorrido desde sua última publicação, como é de praxe, foi sendo preenchido por um conjunto de expectativas que crescia a cada ano, e por albergar sentimentos tão dúbios como esse, qualquer nova publicação já nascia sob o estigma de um potencial desapontamento. Se é verdade que todo livro vem ao mundo em condições parecidas, no caso de Kundera é forçoso reconhecer que uma década é um tempo bastante longo, e que a reputação do escritor contribuiu para engrandecer as especulações sobre o próximo livro e se ele estaria à altura de suas obras anteriores.

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Schwarz e suas ideias no devido lugar

Como campos do saber que foram criados baseados em pressupostos e objetivos diferentes, e que tiveram todo um desenvolvimento distinto entre si, a história e as letras serão sempre interlocutores que, embora possam se aproximar e interseccionar, travarão debates acalorados. Isso não se constitui num problema, já que é precisamente na alteridade epistemológica existente entre ambos que surge o espaço para o crescimento e a exploração nos dois sentidos. E é nesse espaço que Roberto Schwarz soube se inserir com perspicácia.

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Os ásperos e sensíveis sonhos de trem

A literatura encerra muitas propriedades, artifícios e situações curiosos. Ainda há pouco escrevi aqui no Posfácio a respeito da literatura de Louis-Ferdinand Céline, escritor francês que realizou a curiosa e triste proeza de, após ter criado uma espetacular obra como Viagem ao fim da noite, ter dedicado seu talento literário ao sinistro ofício de redigir panfletos antissemitas às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um fato curioso, deveras, ainda que num sentido um tanto desconcertante.

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A fuga de Céline

Quando Viagem ao fim da noite foi publicado, em 1932, parecia que a polêmica e o estrondo que seu autor, Louis-Ferdinand Céline, causara não seriam superados tão cedo. O livro angariou tantos admiradores, tanto entusiasmo nas críticas e tanta empolgação (da direita e da esquerda) que parecia difícil que Céline fosse estar debaixo dos holofotes por outra razão que não a linguagem e o espírito transgressor de seu livro.

Se Heródoto estivesse vivo à época, talvez dissesse: “Ledo engano”. Céline voltou para a cena central e os olhares se voltaram para ele novamente, mas não por conta de sua literatura, e sim por conta de seus panfletos antissemitas.

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Poesia e sociabilidades

Muito tem sido dito e escrito nos últimos tempos, especialmente nas pesquisas acadêmicas da área das Ciências Humanas, sobre sociabilidades que se desenvolvem nas frinchas da correlação de forças dominante. Sendo impossível ignorar o caráter capitalista que impera em muitas relações sociais (inclusas aqui as “relações de mercado”, “líquidas”, “de consumo” e afins), não se pode incorrer no erro inverso de pressupor, por essa predominância, que esse caráter impera solitariamente esmagando todas as demais possibilidades de sociabilidade que se coloquem alternativamente a ele. Considerar que existem sistemas de valores e alteridades que não são explicadas por esse caráter e que não são regidas pelas suas “regras” é constatar que, felizmente, o ser humano continua “funcionando” em outras frequências que não somente essa.

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Vitor Ramil e a literatura gramatical

Espero que encontre eco nos leitores deste texto a minha confissão: apesar de adorar ler desde que me lembro, eu não gostava de gramática. Sinto a necessidade de precisar: em meus tempos de colégio, não conseguia gostar de gramática. Embora eu continue um outsider leigo do universo das estruturas e mecânicas linguísticas, aprendi com o tempo (e a duras penas) a apreciar o estudo de seu funcionamento e a curiosa lógica que as rege.

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Frutos estranhos

Desde que as vanguardas modernistas entraram em cena causando estardalhaço no início do século XX, as discussões concernentes à arte se tornaram um assunto absolutamente mais complexo e delicado. Novos problemas passaram a ser de consideração obrigatória, muitos artistas passaram a criticar o estatuto da arte existente até então, e as obras artísticas ganharam feições muito distintas.

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Memórias beatniks

Creio já ser do conhecimento de um número bastante expressivo de leitores aquela discussão sobre as várias camadas que formam a obra literária e como o mesmo livro, lido por pessoas diferentes, pode “funcionar” de formas distintas  alguns, inclusive, chamam isso de “leitura criativa”. Sem querer me embrenhar numa senda relativista cuja “liberdade” não costumo apreciar, gostaria de tecer algumas considerações sobre o livro Memórias de uma beatnik, da poetisa Diane Di Prima, sublinhando como diferentes dimensões de leitura, ou formas de encarar a obra literária, modulam a forma como se pode fruí-la.

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Knåusgard, por ele mesmo

A expectativa é, muitas vezes, mais um combustível para a decepção do que um antegozo – daí, inclusive, que derivam boa parte dos conselhos sobre aproveitar o caminho tanto quanto (ou mais) do que o destino. Minha leitura de Um outro amor, segundo volume da tijolesca autobiografia de Karl Ove Knåusgard, mostrou que se há a possibilidade de frustração quanto às expectativas, ela não é uma regra.

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As máximas de La Rochefoucauld

A leitura de Reflexões ou Sentenças e máximas morais, de François VI, duque de La Rochefoucauld (1613-1680), chama a atenção por vários motivos, dentre os quais gostaria de destacar um como o eixo de questionamento da presente resenha: que tipo de experiências vivenciou esse sujeito para que viesse a construir uma imagem tão pessimista de homem? Como foi a sua vida, e em que tipo de realidade social ele encontrou o solo histórico que forneceu as condições para o desenvolvimento de uma tal visão a respeito do homem e das coisas?

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Além do bóson de Higgs

Em 2011, quando Batendo à porta do céu foi lançado nos EUA, caso dois físicos se encontrassem por acaso no elevador de um instituto qualquer, sem nada pessoal para compartilhar, haveria uma chance significativa de que o constrangimento fosse quebrado com a pergunta: “E o LHC, hein?”. Em toda a comunidade científica a expectativa era palpável em torno dos resultados do gigantesco acelerador de partículas europeu, que havia passado a operar recentemente dentro de uma nova faixa de energia. Carreiras inteiras – e até algumas teorias – estavam em jogo. O livro de Lisa Randall, renomada física teórica norte-americana, revela esse momento marcante, com clima de Nobel no ar.

O protagonista dessa história, o LHC (Large Hadron Collider) 1, é a maior máquina já construída pelo homem. São 27 quilômetros de circunferência no anel principal, enterrado a mais de 50 metros de profundidade, em que feixes de prótons são acelerados a 99,9999991% da velocidade da luz. São necessários 1232 ímãs cilíndricos com quinze metros de comprimento e trinta toneladas cada para manter a circulação das partículas, que giram 11 mil vezes por segundo. Cada um deles produz um campo magnético mil vezes mais forte que nossos ímãs comuns de geladeira, e deve ser mantido a uma temperatura dois graus Celsius acima do zero absoluto para manter a supercondutividade. São produzidas 1 bilhão de colisões por segundo, processadas automaticamente para isolar aquelas com resultados mais interessantes. Um trabalho brilhante de engenharia e física de ponta que custou módicos 9 bilhões de dólares – ou como Randall destaca: o preço de uma lata de cerveja por europeu por ano durante o período de construção do acelerador.

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  1. Grande Colisor de Hádrons.