Herberto Helder se foi, mas fica

“Se um dia destes parar não sei se não morro logo” é o começo de um dos poemas do último livro de Herberto Helder, falecido nesta segunda-feira, em Cascais, Portugal. Com certeza, foi dos escritores mais prolíficos e valiosos da língua portuguesa, não só da sua terra natal. É daqueles que não ficou só em seu mundo próprio, entre os seus, na comodidade. Viveu por aí, por bastante tempo.

Não ficou onde nasceu, em Funchal, na ilha da Madeira. Foi às guerras coloniais, onde se acidentou e combateu a violência, foi a Lisboa para estudar, onde começou dois cursos e nenhum terminou, foi à literatura toda, onde ficou. Quando resolver parar de vez com toda essa movimentação, foi-se, como no poema de A morte sem mestre, livro lançado no ano passado, infelizmente ainda indisponível em terras brasileiras, como quase toda a obra poética do autor, com a exceção de O corpo, o luxo, a obra Ou o poema contínuo. Leia mais

Impressões sobre a poesia de W. H. Auden

O britânico W. H. Auden é sempre referido como um dos grandes nomes da poesia do século XX, porém acredito ser desconhecido ainda em terras brasileiras. O motivo é o mesmo pelo qual a maioria dos autores não é lido por aqui: falta de tradução ou de edição. Auden, no caso, é mais facilmente acesso pelo volume bilíngue de poemas editado pela Companhia das Letras, de tradução conjunta de José Paulo Paes e João Moura Jr. Trata-se de uma recolha interessante para conhecer um poeta em suas diversas facetas, poeta que oscilou tantas vezes de interesses quanto de maneiras de se comportar diante dos fatos da vida.

Em termos históricos, Auden viveu em uma época particularmente interessante, de muitas atribulações para a Europa. Além disso, nunca se portou como um cidadão estritamente europeu, já que viveu e passou por diversos países, sempre atuando de forma enfática no contexto local. Nascido em 1907, Auden se mudou para Berlim em plena República de Weimar, a fim de fugir da Inglaterra conservadora. Também atuou no lado republicano da Guerra Civil Espanhola e viajou pelo Extremo Oriente antes de se exilar nos Estados Unidos em fuga da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso sempre acompanhado do também escritor Christopher Isherwood, seu amigo e eventual amante. Toda essa experiência de vida, é claro, é fundamental para entender as variações na matéria de sua poesia. Leia mais

Uma antologia de Murilo Mendes só não basta

Gosto muito de Murilo Mendes. Talvez seja, na minha opinião, um dos poetas do país menos elogiados do que deveria ser. É claro que, em parte, digo isso porque gosto desse poeta mineiro, de Juiz de Fora, até mais do que outro famoso mineiro, Carlos Drummond de Andrade. A partir dessa afirmação, acredito que fica difícil sustentar minha predileção pelo escritor, mas tenho meus motivos, acreditem. E acredito que a reedição da obra do autor, iniciada neste ano pela Cosac Naify, pode ajudar todos a ressituar Murilo dentro do panorama literário do país.

Um dos primeiros volumes lançados não é exatamente uma reedição: trata-se da Antologia poética organizada por Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura, ambos estudiosos do autor. A antologia tem duas versões, uma comum e outra especial; nas duas, há a coletânea de poemas de todos os livros de Murilo, inclusive aqueles em língua estrangeira, bem como um anexo crítico, uma galeria de imagens e posfácios dos organizadores. A edição especial se diferencia por ressaltar o viés esteta do poeta, que colecionava obras de arte. De qualquer modo, a Antologia serve muito bem para apresentar o poeta para aqueles que mal conhecem. Leia mais

Szymborska e a poesia simples

Desde a premiação do Nobel de 1996, a poeta polonesa Wisława Szymborska (1923-2012) passou a figurar entre as prateleiras das livrarias mundo afora, porém é fato que ela já era reconhecida e muito em seu país há décadas. Por todas essas décadas, desde 1952, a poeta publica livros de poesia e ocasionais ensaios críticos em número muito menor. Observe-se a data: o primeiro livro sai em 1952, apenas sete anos após o final da Segunda Guerra Mundial. Além disso, Szymborska tinha somente 29 anos à época, ou seja, sua juventude foi marcada pelo conflito europeu, que, como se sabe, afetou a Polônia de modo brutal. Não se trata de biografismo: tudo isso aparece claramente em sua poesia, motivo talvez pelo qual ela tenha sido tão lida.

Para além do fator histórico, a leitura dos poemas da poeta polonesa também atrai a muitos por sua “simplicidade” sempre enfatizada pela crítica, inclusive a estrangeira, afinal Szymborska é traduzida para o inglês desde 1981. Mas o que seria uma “poesia simples”? Como a criação poética de uma mulher que desde jovem passou por tantas reviravoltas em sua vida pode ser “simples”?

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Poesia e sociabilidades

Muito tem sido dito e escrito nos últimos tempos, especialmente nas pesquisas acadêmicas da área das Ciências Humanas, sobre sociabilidades que se desenvolvem nas frinchas da correlação de forças dominante. Sendo impossível ignorar o caráter capitalista que impera em muitas relações sociais (inclusas aqui as “relações de mercado”, “líquidas”, “de consumo” e afins), não se pode incorrer no erro inverso de pressupor, por essa predominância, que esse caráter impera solitariamente esmagando todas as demais possibilidades de sociabilidade que se coloquem alternativamente a ele. Considerar que existem sistemas de valores e alteridades que não são explicadas por esse caráter e que não são regidas pelas suas “regras” é constatar que, felizmente, o ser humano continua “funcionando” em outras frequências que não somente essa.

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Deus amado, de novo o mal!

Eu gosto de literatura russa. Já houve um tempo em que eu diria “minha literatura favorita é a literatura russa” – como se fosse possível existir uma preferência assim, delimitada. O fato é que o primeiro escritor mais complexo e interessante que fui ler – e ficar completamente embasbacado – foi um russo: Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. “Os Irmãos Karamazóv” é um livro e tanto.

O tempo passou, meus interesses se expandiram e mudaram. Ainda leio muita literatura russa, especialmente poesia. Mas também de muitas outras “origens”, boa parte “daqueles lados”: a assim chamada Europa Oriental. Poloneses, ucranianos, tchecos, eslovacos, romenos, húngaros, búlgaros, iugoslavos (sim, eu sei da divisão, mas isso é assunto longo, complexo e pra outra hora; aceitemos o anacronismo), etc, etc e tal, povoam minha lista de leituras. Aqueles nomes impronunciáveis com cedilhas em letras indevidas, com acentos circunflexos invertidos sobre consoantes, com alfabetos aparentemente alienígenas; isso me atrai sobremaneira. Leia mais

Me segura qu’eu vou te falar do Waly

É estranho alguém dizer que apenas leu Waly Salomão, não é? A impressão é que o poeta baiano parece ser poeta até mesmo fora dos livros. Pessoalmente, conheci Waly primeiro pelo nome, sempre citado como exemplo desse termo guarda-chuva que é a poesia marginal. Depois veio sua presença, agudamente capilar, em vídeos vários, como o documentário Assaltaram a gramática e outros registros disponíveis internet afora, além de seus vários poemas musicados por Jards Macalé, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e outros.

Antes de Poesia total, compilação da obra poética completa lançada neste ano pela Companhia das Letras, havia sentido a poesia de Waly, mas, na verdade, nunca lido. Percebi isso sem querer, justamente quando peguei o livro, abri-o e comecei a leitura de fato. Minha primeira reação foi um choque: parte da presença do poeta parece incrivelmente se manter na página, na folha de papel, mesmo em poemas seus de que nunca havia ouvido falar. Ainda assim, apenas parte da presença do poeta resta. Continuei a leitura com isso em mente.

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Em busca da poesia da estabilidade

É engraçado imaginar o que vamos pensar quando ficarmos mais velhos, tanto para jovens quanto para idosos. Acredito que grandes mudanças não acontecem só entre os 20 e os 50 anos, mas também entre os 60 e os 80, por exemplo. Tendemos a pensar que, assim que envelhecemos um pouco, chegamos a uma estabilidade quase mórbida, que nos faz permanecer os mesmos até nossos últimos dias. Um pensamento, eu diria, bem consoante com nossa sociedade de consumo. “Não tem mais como seguir as tendências da moda? Fim, acabou sua vida pra gente.” Felizmente, pela poesia, às vezes, conseguimos ver que essa estabilidade sequer exista para além de um ideal.

Digo isso tudo repensando minha leitura de Sete suítes (2010), de Antonio Fernando de Franceschi. Autor premiado, aclamado por figuras críticas importantes, como Antonio Candido, o poeta me surpreendeu muito com seu livro, para bem e para mal. Sim, explico: o Franceschi que já “conhecia”, que, ao menos, já tinha lido um pouco e de que tinha ouvido falar mais um pouco, está bem longe desse Franceschi mais recente. Só conhecia o autor por seu envolvimento com a “novíssima poesia” dos anos 60, com a boemia poética paulistana da época, da qual faziam parte também figuras como Claudio Willer e Roberto Piva. Não saberia dizer a razão do afastamento estético tão marcado do autor em relação à sua juventude, porém ela é um fato inegável e perceptível a qualquer um que compare sua produção compilada em Os dentes da memória (Azougue, 2011) e este pequeno livro da coleção de poesia contemporânea da Companhia das Letras.

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Qual a linha comum entre os poetas Rainer Maria Rilke e Manoel de Barros?

por Larissa Paes

Experimentar-se pelos arcanos das palavras é ser constantemente atingido por sua pujança, é ser inundado de fracassos, pois se entra constantemente no simulacro do controle; já que não se consegue agarrar a rebeldia das palavras, como se fosse possível segurar a primavera. Os escritores apresentam a incrível capacidade da convivência com tais seres, convivência tumultuada e, por vezes, torturante. Uma benção ou uma maldição?

A arte pela sinuosidade das palavras desnuda com agressividade o que se deixa envolver, sendo possível perceber tal ato. Mas e quando a arte se adentra no abismo da imagem?

O poeta Rilke (grande poeta do século XX de língua alemã) se alimentou das imagens, do inefável para se construir. Utilizou-se do seu espírito antropofágico para devorar Rodin, Van Gogh, Cézanne… Capturar imagens de maneira tão intensa que seja possível metamorfoseá-las, mesmo com fissuras, em palavras, talvez seja papel do poeta; comprovando-se isso no livro Cartas sobre Cézanne. No conjunto epistolar direcionado à esposa Clara, Rilke (quando estava em Paris – 1907) apresenta a percepção de um artista que absorve poeticamente a pulsão irrefreável da dimensão artística de Paul Cézanne; jorradas nas cartas de amor à arte. Antes disso, Rilke já havia feitos ensaios sobre Rodin, com caráter mais acadêmico e menos difuso (O poeta conviveu certa época com o escultor francês, sendo secretário). Percebe-se a ressonância sutil de tais apreensões imagéticas na sua poética, como no seu único romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge (Rilke passou uns seis anos para concluir a obra, de 1904 a 1910). Leia mais

A abertura da vida pelos anjos da morte de Rilke

É incrível perceber como o poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke (1875-1926), apesar de ter nascido em Praga e ser falante de língua alemã assim como Franz Kafka, demonstra a variedade cultural na qual estava inserido por ser tão distinto literariamente de seu conterrâneo. Em relação aos temas presentes em sua literatura, talvez não tanto. O autor das Cartas a um jovem poeta é conhecido pela transcendentalidade do mundo em seus poemas e por sua compreensão religiosa da morte.

De início ligado ao lirismo do século XIX, bem como ao simbolismo francês, mais tardiamente, em sua maturidade artística, parece se aproximar de uma estética expressionista. Elegias de Duíno (1923), obra que iniciou no Castelo de Duíno, em Trieste, e levou mais de 10 anos para terminar devido a uma depressão, é uma boa expressão da evolução poética do poeta.

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O panfletário do caos da invenção da poesia

Em um dos vários textos escritos a respeito de Invenção de Orfeu (1952), Murilo Mendes nos conta sua relação pessoal com a obra do alagoano Jorge de Lima, aproximação de amigo e admiração de poeta. Relatos da discussão sobre o título da obra, do fascínio em ver no longo poema toda uma reflexão sobre a literatura e sobre a posição do homem no mundo. Murilo, assim como Jorge, era um católico que buscava na investigação teológica uma compreensão metafísica do homem. Em Invenção de Orfeu, recentemente reeditado pela Cosac Naify em parceria com a Editora Jatobá, vemos não apenas a criação da poesia sob a forma do mito grego de Orfeu, mas também as agruras do ser humano diante do que é terreno, na ilha do poema. É, de fato, um livro difícil, que ainda não sei se conseguir entender bem.

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Não fosse isso e era todo um Leminski

Difícil falar de Leminski sem falar de sua persona. O mesmo drama aqui relatado sobre Ana Cristina Cesar, mas pior. É fato que Paulo Leminski (1944-1989) é conhecido por sua marginalidade, por sua boemia, por sua poesia que cativa até mesmo aqueles que sempre dizem não gostar de poesia. Também sempre se lembra de sua naturalidade, curitibana como a deste que vos escreve, o que também faz com que seus leitores não paranaenses atribuam-lhe todos os estereótipos ligados à cidade. Talvez ele até mesmo contribua para que isso esteja atrelado a sua arte. Talvez não. O que é preciso é entender como sua poesia parece se manter tão bem sistematizada mesmo sob julgamento daqueles que não a apreciam. Ou melhor: por que todos leem Leminski e conseguem defini-lo?

Para chegar a resposta, esqueçam, é claro, daquele Leminski à Bukowski. Falamos de um poeta que ainda é, arrisco eu, pouco lido realmente, por inteiro. Por aí, pelas redes sociais, pelos livros didáticos, citam-se somente os mesmos versos, geralmente seus autointitulados relaxos ou um ou outro poema de livros posteriores, principalmente aqueles ainda publicados em vida. Não se cita, por exemplo, nada do Catatau (1975), sua obra prosaica-poética, multifacetada e experimental, ainda a ser descoberta até pela maior parte da crítica literária nacional. De seus ensaios nem se fala, mesmo sendo reeditados recentemente pela editora da Unicamp (Ensaios e anseios crípticos). Que Leminski podemos encontrar, por exemplo, em Toda poesia (2013), reunião de sua poesia pela Companhia das Letras? Haveria todo um Leminski ainda a se ler? Leia mais