“Não foi a raça que construiu o racismo, foi o racismo que construiu a raça” – entrevista com Mia Couto

em 23 de agosto de 2013

Não é exagero dizer que Mia Couto é o escritor mais importante de Moçambique na atualidade. Além de ser o mais traduzido do país africano, e também um de seus cidadãos mais conhecidos internacionalmente, Mia contribuiu até mesmo para escrever a letra do hino adotado pelo país no período posterior à Guerra de Independência – trágico período de combate civil que se estendeu por 16 anos até acabar com um acordo de paz, assinado em 1992.

Por coincidência, também em 1992 foi publicado o primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula, que só não é um clássico contemporâneo da literatura africana porque o paradoxo da frase não permite. A narrativa combina um universo onírico riquíssimo, recheado de elementos provenientes da tradição oral africana, e um relato da guerra que então o país enfrentava.

Estes dois elementos – as marcas da guerra e a tradição fabulária africana – também caracterizaram toda a obra posterior de Mia Couto. Tanto é que ambos estão presentes na estrutura de seu romance mais recente, A Confissão da Leoa, lançado no ano passado.

É sobre os dois livros citados acima – e também sobre fuzis, raças, língua, identidade e Guimarães Rosa – que Mia Couto falou na entrevista exclusiva concedida para o Posfácio, realizada durante sua mais recente vinda ao Brasil. O escritor moçambicano está em São Paulo para o lançamento de Cada Homem é Uma Raça e participará de uma Sabatina da Folha de São Paulo no próximo sábado (24).

 

 

A ideia para A Confissão da Leoa surgiu de uma viagem que você fez a trabalho ao interior do Moçambique, onde haviam sido registrados ataques de leões. E, como ocorre em outros de seus livros, nele é criado uma leitura do presente a partir de fábulas e mitos do país. Isso é um processo consciente?

Sim, e de fato acho que sempre foi uma mistura. É uma coisa que é pouco clara para mim, porque a gente nunca sabe onde começa uma coisa e acaba a outra – onde começa aquilo que chamamos de realidade e onde começa aquilo que é a nossa leitura, a nossa vivência da realidade. Sobretudo quando se trata daquele modo africano, onde as coisas são sempre possíveis. A pergunta nunca é se é verdade, mas se pode ser verdade. Mas eu de fato vivi isso como uma experiência própria, não me foi contado por ninguém. E essa experiência foi tão intensa, tão fora daquilo que eu estava preparado para viver, que eu só tinha uma maneira de responder isso dentro de mim, que era transformar isso em ficção. E foi o que eu fiz.

 

Isso é algo comum na sua obra – a fabulação muitas vezes é explorada não em oposição à ciência, mas como uma alternativa a ela, como uma outra maneira de explicar o mundo.

O que me agrada na ciência não é ver nela uma explicação total, absoluta do mundo, mas é colocar essa narrativa em diálogo com outros saberes, com outras sensibilidades. Quanto às fábulas, eu utilizo elementos da tradição oral não apenas para registrá-la, mas também para colocá-la em calda. Muitas vezes, parto de uma lenda da tradição oral para desconstrui-la, para dizer exatamente o oposto. Não é uma reconstrução da tradição oral como se ela fosse uma proposta do que deveria ser o texto, de uma essência alternativa. Não, ela entra como um elemento mais fugidio. Do ponto de vista da escrita, eu sugiro que ela é uma coisa efêmera que está sujeita a ser reescrita, retrabalhada.

 

Neste mesmo livro, há um momento em que o personagem Marcelo comenta:

 

Houve um tempo em que sonhava usar uma arma, queria ser guerrilheiro. Dizíamos, nesse tempo, que a liberdade iria nascer do cano de um fuzil.

 

De onde surge essa relação?

Na África, diversos países conseguiram derrubar a ditadura, ou atingir a independência, pela via da luta armada. Foi o caso de Moçambique. Então, em nossa história mais recente, a arma foi esse símbolo, esse instrumento de emancipação. E, por isso, ela está inscrita hoje em nossa cultura com a mesma força que pode ter um livro – tanto é que aparece em nossa bandeira. Mas essa expressão, “conseguir a liberdade com um cano de fuzil”, não é especificamente moçambicana – acho que foi retirada de outro lugar. Teria que conferir, não sei se não tomei emprestada.

 

Em Moçambique, a liberdade surgiu do fuzil?

A Guerra de Libertação Nacional aconteceu porque todo o diálogo, todas as outras tentativas de negociar a independência de Moçambique não obtiveram êxito, foram um insucesso. Então, digamos que foi um último recurso. É evidente que a liberdade de um país se consegue por muitos outros caminhos, e esse foi um caminho. A via militar, a opção de enfrentar toda a oposição ao regime em que Moçambique vivia, foi uma opção de certo momento, uma certa dimensão. Assim como havia várias outras dimensões.

 

Já que estamos falando da guerra, gostaria de conversar sobre o seu primeiro romance, Terra Sonâmbula, que trata diretamente disso.

Este foi um romance escrito durante a guerra, contra a minha própria previsão – porque eu não achava que seria capaz de escrever sobre ela antes de seu término. Mas de fato eu escrevi e terminei esse romance em 1992. Quando terminei, poucos meses depois, aconteceu [como no livro] o fim da guerra e foi assinado o acordo de paz. Provavelmente isso foi apenas uma coincidência, não foi uma coisa que eu tive uma capacidade especial que me permitisse ler antes dos outros. Mas tinha sinais no ar de que esta guerra chegava a uma exaustão total.

 

Há uma passagem em Terra Sonâmbula em que Kindzu pergunta ao indiano Surendra: você gosta apenas de homens sem raça? E o indiano responde:

 

Eu gosto de homens que não têm raça.

 

Como é o homem sem raça?

Isso é algo que pode ser visto de diversas maneiras, mesmo em uma interpretação mais literal. Mas o que eu penso é que as pessoas não se podem definir por via de sua raça, como se isso fosse uma essência, como se isso marcasse por si só a identidade que nós temos. Essa identidade é definida pela história particular que cada um de nós tem, independentemente da raça. A raça é um acidente, assim como é o fato de sermos gordos ou magros, de sermos altos ou baixos. Só que esse acidente, por causa das sociedades em que nós vivemos, ficou conhecido como um modo de organizar e hierarquizar as pessoas.

 

Não foi a raça que construiu o racismo, foi o racismo que construiu a raça. E a construiu como um elemento de identidade.

 

Há outro livro africano escrito após uma guerra de independência, Mayombe (do angolano Pepetela), em que também se discute a raça por esse viés – como um conceito a ser superado, ou mesmo substituído pela ideia de nação.

Sim, sim, é verdade! Tivemos processos muito semelhantes em Moçambique e em Angola. São dois países em que há uma imensa diversidade rácica, étnica, cultural e etc., e que tiveram que construir a partir daí uma nação. Uma nação que nasce exatamente desse conjunto de diferenças. E, de certa forma, é algo que abordo também neste livro que lanço agora no Brasil, Cada Homem é uma Raça. Há algo que persegue a mim, e também a outros escritores africanos, que é o combate pela afirmação das pessoas por aquilo que é a sua construção de percurso, de história – de histórias, no plural – que elas têm dentro de si contra essa outra categorização das pessoas por via da sua raça.

 

Como está a questão racial em Moçambique nos dias de hoje?

Acho que em Moçambique essa emergência dos fenômenos raciais ocorre apenas em determinados momentos, não é uma coisa permanente. O país não foi capaz de resolver isso completamente, pois considero que nenhuma nação no mundo conseguiu fazê-lo ainda, mas encaro isso como uma questão marginal. As questões de tensão em Moçambique são mais de caráter regional, entre o Sul e o Norte, ou de caráter étnico do que de caráter racial.

 

Essas etnias que você citou falam línguas diferentes.

Sim, elas têm línguas diferentes, culturas diferentes, histórias diferentes. E lá nós temos a construção de uma nação quase que no sentido inverso daquilo que aconteceu nos outros países, em que foi a nação que construiu um Estado. Bom, nós somos um Estado tentando construir uma nação.

 

Neste contexto, qual a importância da língua portuguesa? De certa forma, ela se torna uma ferramenta de união identitária.

Ela é essencial. Eu acredito que ela está cumprindo esse papel, pois há mais de 25 línguas diferentes em Moçambique. Não é só um recurso, um idioma cuja utilização como língua franca é inevitável. Não, também se está construindo nessa língua uma cultura própria, que é capaz de remoldar o português à sua maneira. Acho que não é uma simples ferramenta, mas uma ferramenta que, enquanto tal, reconstrói-se a si mesma.

 

Você explora bastante essa reconstrução em seus livros.

Trata-se de algo que foi sugerido pelo próprio processo social em Moçambique. As pessoas lá fazem isso, porque estão convivendo com uma que não é a sua língua materna e que estão visitando como se fosse pela primeira vez. Assim, eles estão recriando a língua sem grandes preocupações em respeitar a norma, que é o que já existe. Isso não é um artifício literário – este processo de recriação da língua é algo que está acontecendo em Moçambique. Pois eu encontrei em Luandino Vieira, um autor angolano, uma espécie de autorização literária para que eu fizesse isso no meu trabalho. Depois, mais tarde, vim buscar referências no Brasil, e foi particularmente em Guimarães Rosa e em Manuel de Barros que eu encontrei uma nova autorização para que continuasse a fazê-lo.

 

Em Terra Sonâmbula, me marcou bastante o fato de que o personagem Muidinga é incapaz de recordar o seu passado, mas ainda assim percebe quando alguém não age de acordo com a tradição (tradição, aqui, tem um sentido mais amplo, para além da tradição oral de que falamos antes). Pode-se dizer que Moçambique passa por um período de transição?

No caso da Terra Sonâmbula eu coloquei dois personagens: um velho, que representa isso que podemos chamar de tradição, em convívio com um mais novo, que tem acesso à escrita [o velho é analfabeto], e que por essa via representa uma espécie de modernidade, de porta para a modernidade. Em outros livros também está presente essa linha de transição entre a modernidade e a tradição, como alguma coisa que pode ser costurada e retrabalhada. A tradição tem uma dinâmica própria, e isso é algo que tento explorar em todos os livros que eu faço.

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