Arte do Glasnost- Parte 1

em 10 de agosto de 2010

Conversando com a Kika algum tempo atrás, falávamos sobre nossas respectivas ‘obsessões históricas’: ela com sua paixão pela Revolução Francesa, eu com minha fixação pela URSS e- especialmente- seu fim. Foi então que tive a idéia para este post- ou melhor, essa série de posts- sobre o que se produziu, não apenas literária, mas artísticamente, na Rússia e nos antigos países que estavam por trás da ‘Cortina de Ferro’ desde que ela começou a se abrir.

Na década de 80 a antiga União Soviética começou a passar por um processo de abertura da economia e de democratização. Isso obviamente teve um impacto enorme sobre todo o modo de vida do povo soviético: os valores se alteraram, muito cultura- de qualidade variável- da Europa e dos EUA passou a entrar no gigante do leste, e todos tiveram de se adaptar a um novo modus vivendi.

E isso, obviamente, refletiu sobre as artes- que não apenas receberam novas influências como também tiveram o controle estatal afrouxado. Começava-se a pensar em criticar o regime. Começava-se a poder mostrar que existia tristeza, loucura, crime, drogas e morte. Pois antes disso toda arte servia para exibir o quanto o regime era bom, o quanto os soviéticos eram felizes.

Nesse contexto muitas novas formas de manifestação surgiram. Uma das que mais me interessa é o Necrorrealismo.

Fundado pelo poeta, pintor e músico petersburguense Oleg Kotelnikov, era inicialmente mais voltado para a performance e o happening: artes mais viscerais, mais instantâneas. Na seqüências acabou por alcançar  a literatura, a música e, com grande força, o cinema.

Um de seus principais expoentes foi o cineasta Yeuvgeni Yufit. Ele iniciou sua carreira com curta metragens e depois passou para longas, sendo que seu primeiro nesse formato, ‘Papai, Papai Noel está morto’ é um de seus filmes mais conhecidos.

Recuperava a estética do Realismo Soviético e do Neorrealismo, alimentando-as com uma violência física e psíquica desmedida, e elementos de horror e ficção científica. Um dos objetivos de Yufit era o de criar uma anti-pornografia: muitos dos necrorrealistas, influenciados pela filosofia de Derrida e de outros filósofos ocidentais que apenas então puderam conhecer a fundo- sem ser por edições censuradas pelo Estado-, concluiram que o sexo e a morte causam efeitos iguais mas opostos no ser humano, e buscavam fazer com a morte o que a pornografia fazia com o sexo.

Mas não se tratava apenas disso. Os necrorrealistas buscavam estabelecer uma pop-culture underground na Rússia, baseada na desesperança, na dubiedade moral, na falta de compreensão e de afeto, na agressividade. Eram esses os valores da geração que surgia, eram esses os únicos valores que lhes restavam, viviam num mundo que se desmanchava.

O auge do Necrorrealismo já passou, até por ser muito dependente do contexto, mas ele lançou as sementes da arte Russa de hoje. Não fossem os Necrorrealistas, quiçá autores como Pelevin, Trifonov e Viripaiev não tivessem uma voz.

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3 comentários para “Arte do Glasnost- Parte 1

  1. Aguardando ansiosamente o próximo post. Quero mais indicações de literatura dessa época e desse contexto, me pareceu muito interessante.

  2. Carambolas!!! Me senti tão pequena, não sabia nada sobre este movimento cultural que decorreu da abertura política URSS. Ó Luciano obrigada, alargou me entendimento do mundo. 😀
    Faço coro com o Lucas: aguardando ansiosamente o próximo post.

    estrelinhas coloridas…

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