Apesar de Orhan Pamuk ser turco e os personagens de ‘O Castelo Branco‘ serem turcos ou então venezianos a impressão mais forte que eu tive com esse livro a de que se tratava de uma versão do mito germânico do Doppelgänger,que trata de uma criatura que mimetiza uma pessoa em sua perfeição, sendo seu duplo em tudo, até mesmo em seus ecos mais profundos e secretos.

Pamuk nos apresenta a um jovem veneziano que acaba sendo feito prisioneiro dos turcos e transforma-se em escravo. Seus conhecimentos científicos e sua lábia, porém, impressionam seus captores e ele acaba sendo privilegiado. Recebe a chance de converter-se ao islã e ser liberto, ou permanecer cristão e morrer.

Com um fervor até então desconhecido pelo próprio protagonista, ele recusa-se, e prepara-se para a morte. Porém ele é salvo por Hoja: um turco interessado pelas ciências com quem colaborara e que decide torná-lo seu escravo e amigo.

Hoja e o jovem veneziano, porém, são extremamente parecidos fisicamente: o europeu assusta-se com o fato de estar frente a alguém que poderia ser ele mesmo, tão fiel a semelhança.

Hoja, por sua vez, parece não perceber isso. Só demonstra conhecimento do curioso fato quando, depois de alguns anos de convivência, eles tornam-se, por fim, iguais em quase todo o resto: apesar das vidas totalmente distintas e mesmo das crenças antagônicas, muçulmano e cristão passam a pensar praticamente como um único homem.

Obcecados com a busca pela identidade e com os limites do eu e do outro, os dois homens e as duas histórias confundem-se. Torna-se, em dado momento, impossível definir o que é verdade e o que é mentira, definir quem é Hoja e quem é o veneziano.

O Castelo Branco foi o terceiro livro de Pamuk, lançado originalmente em 1979 (e em 2007 no Brasil, pela Companhia das Letras). Continua, porém, extremamente atual, e talvez ainda mais relevante do que nunca: não apenas explora o conceito subjetivo e delicado do ‘eu’, mas demonstra, de forma bastante curiosa, a dualidade entre a Turquia e a Europa.

O Castelo Branco

Orhan Pamuk

Tradução: Sergio Flaksman

200 Páginas

Preço sugerido: R$ 41,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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