Unai Elorriaga escreve em língua basca, o que por si só já torna o livro singular. Não que não existam escritores bascos, mas sendo uma língua minoritária sua literatura automaticamente se torna menos conhecida do que deveria.

Mas não é apenas o idioma que torna a obra de Elorriaga especial. A trama delicada, em que quatro histórias desconexas dialogam entre si, também é digna de nota. E a narração a partir do ponto de vista de um garoto de não mais de oito anos, o pequeno e ingênuo Tomas, faz o interesse crescer.

Tomas certamente não entende muitas coisas sobre a vida e isso é demonstrado pelo como que ele analisa as situações que surgem no livro. Ele analisa tudo de modo bastante racional, é verdade, mas a racionalidade de uma criança por vezes é fantástica e deixa que alguns detalhes se percam, coisas que o leitor pode adivinhar sem a necessidade de que sejam mencionadas abertamente.

Iñés é a prima do narrador, aparentemente uma estudante de biologia que precisa organizar uma coleção de insetos. O prêmio máximo é uma rara libélula azul, a Orthetrum coerulecens. Tomas, seu ajudante, toma para si o dever da captura desse animal- do qual não devem existir mais do que vinte no mundo, e não mais do que três em sua cidade- pois ela faz de seu captor a pessoa mais inteligente do mundo.

Concomitantemente temos as histórias de Piedad, Mateo e Simon. Essas três personagens são mais velhas e, teoricamente, menos ingênuas que Tomas, mas quando confrontados com suas obsessões eles são tão impressionáveis quanto ele. Mateo é um primo de Tomas, que rouba livros de fotografia da biblioteca da cidade e deixa cartões com o número do registro e o nome do livro avisando que os roubou, quer descobrir a história de seu avô, Julian Maldas, possivelmente o maior carpinteiro do mundo- ou pelo menos da Europa; Simon, é um tio irresponsável que deseja construir um campo de rugby- esporte pouco popular na Espanha e no país Basco- na cidade, e para isso escolheu um trecho de um campo de golfe; e Piedad, freqüentadora da sala de costura da casa de uma das tias de Tomas, busca menções a si nas cartas de Samuel Mud, um grande arquiteto com quem ela poderia ter casado, mas com o qual não casou devido a dois motivos, um maior e outro menor, e com quem viu Klimt 31 anos depois da morte do pintor .

As histórias nunca chegam a se misturar realmente, mas se tangenciam de forma excepcionalmente intrigante, e todas elas chegam a conclusões bastante curiosas- mesmo que previsíveis em alguns momentos.

Essa é, aliás, a grande força da prosa de Elorriaga: ele tem a capacidade de surpreender mesmo fazendo com que aconteça exatamente aquilo que o leitor espera que aconteça. Não é exatamente o desfecho que importa, mas a execução.

O título, infelizmente, não está disponível em português e, provavelmente, vai demorar para ser traduzido. Exceto por uma coletânea de poesia publicada pela editora Hedra, nunca vi mais nada de literatura basca publicado por aqui. Mas para quem lê inglês ou espanhol (possivelmente exista uma edição francesa também) vale bastante a pena.

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