Concerto barroco (Alejo Carpentier)

em 11 de julho de 2011

Informações

  • Autor: Alejo Carpentier
  • Tradutor: Josely Vianna Baptista
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 96
  • Ano de Lançamento: 2008
  • Preço Sugerido: R$ 29,50

A literatura latino-americana continua sendo uma das minhas prediletas e Concerto barroco é uma daquelas obras que fazem a frase acima ser cada vez mais verdadeira. Alejo Carpentier, dentro da multiplicidade de linguagens artísticas com as quais flerta, nos brinda nesse livro com um diálogo muito intenso com a música.

O autor, conhecido por ter uma trajetória marcante no pós-Revolução Cubana, atuando tanto dentro de Cuba como na embaixada cubana na França, na qual comandava as relações diplomáticas; consegue estabelecer um diálogo digno de mestre em Concerto barroco, orquestrando a linguagem como quem traduz semântica em partitura, palavras em notas musicais e faz com que a obra seja uma profunda reverência pela cultura latino-americana em uma subversiva visita às instituições seculares da tradicional cultura européia. E vice-versa.

Tive a oportunidade de ler El reino de este mundo em espanhol, saboreando os volteios na língua-mãe do autor, e posso dizer que ter lido Concerto Barroco em português, apesar da volúpia literária, deixa a sensação de que em espanhol a plasticidade seria ainda mais fragorosa.

Através de uma linguagem evanescente, que consegue causar sensações voluptuosas a cada descrição, abundando nos adjetivos e esbanjando nas terminologias musicófilas, Carpentier nos conduz por uma história cujo enredo se encontra quase diluído em meio a tantas exaltações sensitivas: o leitor mergulha no mar sinestésico que a literatura lhe proporciona, quase esquecendo de que há algo sendo contado e que é preciso atentar para o que acontece e não somente para o que se experimenta.

Um nativo latino-americano com admiração pela cultura do velho mundo, que se veste e age como um pastiche da fidalguia européia, planeja empreender uma jornada a Europa, para experimentar a vida do outro continente, já que ele repudia o “novo mundo” que se estende sobre seus pés, vendo-o com os afetados olhos de um algum elitista pernóstico que só reconhece validade na cultura tradicional européia.

A viagem é feita e acaba que Amo, o tal latino-americano, se torna Montezuma no Carnaval de Veneza. Após flanar pelos rocambolescos bailes, máscaras, festejos, músicas e folias, Amo-Montezuma aceita assistir um concerto de Antonio Vivaldi, sobre a história da conquista do México (que, aliás, existiu de fato).

O concerto deturpa completamente a história do processo de conquista da América pelos espanhóis, mostrando-o, como era de se esperar, um ato heróico de Fernão Cortez e uma aceitação passiva e submissa dos índios perante seu “destino” fatalista. O que acontece, porém, é que de denegridor da cultura latino-americana, Amo-Montezuma se sente vilipendiado pela composição e exige retratação, aludindo à História para comprovar que o espetáculo era inverossímil do início ao fim.

Antonio Vivaldi retruca Amo-Montezuma, dizendo que não se deve colocar História na arte, pois o espetáculo é o que restou à América, a fábula, mais do que a veracidade histórica, exotizada e espetacularizada para europeu ver. O engraçado é que ao considerarmos o realismo mágico (do qual Carpentier usa e abusa), ele opera dentro dessa lógica pernóstica de Vivaldi, mas com um sentido completamente diferente.

Opera-se uma completa inversão nos paradigmas de Amo-Montezuma, que ao final já é emblematicamente chamado de índio: de entusiasta da cultura européia na América, ele passa a ser um entusiasta da cultura americana na Europa. E Carpentier não poupa erudição e uma visão bastante ufana da América Latina frente aos monumentos culturais e intelectuais europeus, que comenta indiretamente com bastante sardonismo.

O barroco do título, a ostentação da linguagem, os adornos que pesam tanto que ameaçam fazer ruir ou truncar a narratividade, são os elementos que se contrapõem à autenticidade latino-americana frente a uma demasiada soberba velho-mundista.

Para corroborar a popular máxima de que “tamanho não é documento” (sem trocadilhos infames), Concerto barroco tem menos de cem páginas mas encerra uma imensidão tão reverberante quanto a música profundamente emblemática que lhe serve de título.

 

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