Czesław Miłosz é um dos mais importantes nomes da literatura polonesa do século XX. Um exilado voluntário, foi apenas a partir de 1980- quando recebeu o Nobel- que seus trabalhos começaram a ser lidos na Polônia. Antes disso, porém, tornara-se conhecido no ocidente como um dos maiores poetas contemporâneos. Viveu na França e, mais tarde, nos Estados Unidos.

O que é pouco lembrado, porém, é o fato de que apesar de ser considerado como polonês,  Miłosz não nasceu na Polônia, e sim na Lituânia.

É certo que, quando nasceu, em 1911, nenhum dos dois países existia (pertenciam ao Império Russo) e antes disso eram um só. Além disso, se hoje as relações entre os grupos étnicos e a geografia da Europa Centro-Oriental ainda são um pouco confusas, antes da Segunda Guerra Mundial elas eram bem piores.

Polonês por língua (apesar de saber lituano, foi o polonês seu primeiro idioma) e cidadania, nunca esqueceu a infância na região rural da Lituânia, que homenageou em duas obras: Rodzinna Europa, um volume de memórias inédito em português, e Dolina Issy, novela publicada aqui- em edição esgotada- como O Vale dos Demônios.

Em O Vale dos Demônios Miłosz nos conta a história de Tomás, um jovem polonês que vivia na Lituânia, no vale do rio Issa, com seus avós maternos. Ele é um garoto bondoso e bastante pacato- o que o torna um pouco ingênuo demais. Porém, sendo polonês e de ascendência nobre, não é muito bem quisto pelos camponeses lituanos que habitam a região, e que carregam em si uma desconfiança histórica contra os pares do menino.

O próprio vale, porem, é a força mais poderosa da obra. Habitado, teoricamente, por uma infinidade de demonios e espíritos, o local é propenso a acontecimentos sobrenaturais. Além disso, seu afastamento de qualquer grande centro e relativa insignificância econômica, o tornam imune aos grandes movimentos históricos que acontecem ao seu redor, o que faz com que os tediosos e insignificantes acontecimentos da região são praticamente tudo com o que se importar.

Um dos fenômenos mais interessantes retratados por Miłosz é a convivência, mais confusa do que conflituosa, entre paganismo, catolicismo, protestantismo e socialismo. Ora é um padre que aceita um rito pagão para expulsar um fantasma de sua paróquia, ora são heresiarcas que discutem acerca da natureza divina de Cristo e da possibilidade de um homem ter servos, ora são comunistas com medo de duendes.

O Vale dos Demônios fala disso tudo com um misto de ironia e de saudade. Era, afinal, um mundo assincrônico e prestes a ruir, mas era o mesmo mundo no qual Miłosz se criou.

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