Fã que sou de Tim Burton, não pude deixar de pegar emprestado o exemplar de Peixe Grande, de Daniel Wallace, que vi na biblioteca em que passava. O filme era tão Burton-em-sua-melhor-forma (ao menos o considerei assim) que não tinha erro em levar para casa a portátil brochura, quase um pocket, que me fez sentir como se tivesse em mãos um volume de dimensões convencionais, caso eu fosse do tamanho dum gigante que é personagem da obra.

Aos que gostam de narrativas de cunho fantasioso e mágico que apresentem certo caráter episódico, uma dica: quase seguramente a adaptação cinematográfica terá diferenças substanciais em comparação à obra escrita. Frequentemente, o que se alega é que determinadas passagens não funcionariam na telona e que as novas e inventadas para esta (ou seja, não inspiradas diretamente em nada do livro) buscaram ser fiéis ao imaginário construído literariamente. Ok, nem sempre isso é verdade – em especial a última parte. Mas, muitas vezes, é. O que não adianta muita coisa: fãs irão espernear, discutir entre si e gritar “Cadê a dama do lago! Aquela era a minha personagem coadjuvante favorita”, para citar um exemplo.

No entanto, isso não é uma exclusividade daqueles que já eram fãs da história “muito antes dela virar pop e de todo mundo a conhecer”. Há os que viram o filme e gostaram tanto que correram atrás do livro e não conseguem encontrar suas cenas favoritas – em especial, repito, nessas narrativas de cunho fantasioso e mágico que apresentam certo caráter episódico. E estes, tem como reclamar com alguém? No máximo poderiam ter uma baita decepção com a literatura e NUNCA MAIS lerem um livro NA VIDA (sim, porque vivemos tempos exclamativos e enfáticos, em que tudo é motivo para se gastar o “nunca mais” e em que as opiniões são definitivas e resumíveis em 140 caracteres).

Creio, porém, que neste segundo grupo haja um número de pessoas que tenham um maior desapego em suas opiniões e, consequentemente, consigam apreciar melhor as semelhanças e diferenças entre as duas mídias. Você já viu, com a maior riqueza de detalhes, algumas daquelas partes; mas outros momentos são como que criados exclusivamente para sua imaginação desenvolvê-los, ainda que com os atores pré-determinados pela produção do filme. E, talvez, algumas cenas fiquem menos vívidas por não serem narradas no livro, especialmente se o filme tiver sido visto há muito tempo.

Posso dar um exemplo pessoal: por mais que uma de minhas cenas favoritas fosse aquela em que o tempo para quando Edward Bloom (Ewan McGregor) conhece a mulher que será sua esposa (Allison Lohman) – ele caminha por um circo inteiro, derruba pipocas paradas no ar, atravessa um aro que que está nas mãos de uma acrobata –, o episódio em que os dois se conhecem, construído por Wallace no romance, é igualmente satisfatório (ainda que, nem de longe, tão mágico).

*  *  *

A coleção de momentos intrigantes só aumenta quando se tem contato com a história em ambas as mídias, bem como continua servindo ao mote principal do livro: mostrar o contraste entre a vida legendária e cheia de piadas de um pai e os seus momentos finais, quando seu filho exige um, ainda que mínimo, traço de realidade, de verdade não-inventada.

Os capítulos de Peixe Grande (um livro de diversos subtítulos: “E suas histórias maravilhosas”, na versão cinematográfica; “Uma fábula de amor entre pai e filho”, na edição lançada pela Rocco; e “Um romance de proporções míticas”, na versão original do livro) parecem contos feitos com o intuito de deixar as crianças com um sorrisão na cara; clima que, no entanto, não combina com os trechos dedicados aos últimos momentos que um filho tem para se conectar com o pai antes que este morra – quatro capítulos intitulados “A morte de meu pai: Tomada 1”, alterando apenas a numeração.

O filho requer insistentemente um momento de seriedade e franqueza, mas o pai parece não saber o que é isso. Ele é um desses viciados em alegria. Até o seu nascimento, após uma longa seca, é prova disto:

“No dia em que ele nasceu, as coisas mudaram.

Marido se tornou Pai, Mulher se tornou Mãe.

No dia em Edward Bloom nasceu, choveu.”

Na época do lançamento do filme, vi alguns críticos reclamarem a respeito do despropositado e irritante filho materialista/realista/pragmático que, aparentemente “do nada”, se deixa levar, no finalzinho mesmo, pelo espírito fantasioso do pai; acho que o acusavam de “pouco plausível”. Não concordo, contudo: alguma hora, perdemos a disposição de acreditar facilmente, de rir de algumas piadas; em algum momento, nos tornamos sérios. Isso eu aceito. Mas, se temos um pai que torna um Peixe Grande, não custa nada retornar à infância, nesse sentido.

“Eu o vi nadar de um lado para o outro, um ser vivo prateado, cintilante, e desaparecer nas profundezas escuras para onde vão os peixes grandes, e desde então nunca mais o vi – embora outras pessoas o tenham visto. Já escutei muitas histórias, de vidas que foram salvas e desejos realizados, de crianças que atravessaram quilômetros em suas costas, de pescadores derrubados de seus barcos e espalhados por diversos oceanos e rios de Beaufort a Hyannis pelo maior peixe que tinham visto na vida, e eles contam suas histórias para quem quiser ouvir.

Mas ninguém acredita neles. Ninguém acredita numa só palavra.”