Poemas de Tomas Tranströmer

em 7 de outubro de 2011

Ontem foi anunciado o vencedor  prêmio Nobel de literatura desse ano, que foi o poeta sueco Tomas Tranströmer. Praticamente desconhecido no Brasil, ele é um dos maiores nomes da literatura sueca contemporânea, tendo sido extensamente traduzido para boa parte dos idiomas europeus. Como de praxe, as traduções para a língua portuguesa praticamente inexistem (só sei de alguns poucos poemas traduzidos em Portugal, e nada mais).

Eu e o Tiago já discutimos um pouco a respeito da escolha da Academia Sueca em outro tópico, e, conforme prometido, traduzimos alguns poemas de Tranströmer.

A insegurança nacional

(tradução de Luciano Ramos Mendes)

 

A sub-secretária se inclina para a frente e desenha um X

e seus brincos balançam como espadas de Damócles

Tal qual uma borboleta manchada é invisível no chão

também o demônio se mescla ao jornal aberto.

Um elmo vestido por ninguém tomou o poder.

A mãe tartaruga foge voando sob a água.

 

Depois da RDA (visita de cinco dias em 1990)

(tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)

 

O olho todo-poderoso do ciclope foi partido em meio às nuvens

e à grama bufando dentro da poeira de carvão.

 

Magoados pelos sonhos da noite

nós subimos à bordo de um trem

que se detém em todas as estações

para botar lá uns ovos.

Tudo parece tranqüilo…

Badalando os baldes dos sinos das igrejas

Que buscam por água

E a tosse implacável de alguém

Que engasga tudo e todo mundo.

 

Um ídolo de pedra que comove-se aos prantos:

eis a cidade.

Onde os mau-entendidos dominam

entre os vendedores dos quiosques os açougueiros os carpinteiros os oficiais da marinha

os mau-entendidos de bronze, os universitários,

 

Que aos meus olhos fazem mal!

Eles viram

Eles leram ao surdo lampejo das lanternas dos pirilampos

 

Contudo, nós entendemos o badalar

Dos baldes dos sinos das igrejas, que buscam por água

Todas as quartas-feiras

– mas já estamos na quarta?-

Vejam só o que nos dão no lugar do Dia da Domingo!

 

Allegro

(tradução de Luciano Ramos Mendes)

 

Eu toco Haydn depois de um dia escuro

e sinto um calorzinho nas mãos.

 

As teclas desejosas. Os martelos gentis.

O som é jovem, vigoroso e silencioso.

 

O som diz que existe a liberdade

e que não se devem impostos ao imperador.

 

Eu enfio minhas mãos nos meus haydn-bolsos

e imito um homem tranqüilo sobre o mundo.

 

Eu ergo minha haydn-bandeira. O sinal é:

“Jamais nos renderemos, mas queremos paz.”

 

A música é uma casa de vidro na encosta

onde voam pedras, rolam rochas.

 

As rochas rolam e a atravessam

mas as vidraças continuam intactas.

 

Depois de uma morte

(tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)

 

Houve então uma colisão

que deixou para trás uma longa, bruxelante cauda de cometa.

Fechou-nos em seu interior. Fez com que nevassem as imagens da TV.

Formou estalactites frias nos fios dos telefones.

 

Ainda é possível esquiar lentamente sob o sol invernal

Em meio a alamedas onde umas poucas folhas perduram.

Parecem páginas rasgadas de antigas listas telefônicas

Nomes engolidos pelo frio.

 

É bonito ouvir o coração bater

Mas é comum que a sombra pareça mais verdadeira que o corpo.

O samurai fica insignificante

Ao lado de sua armadura de escamas de dragão negro.

 

Madrigal

(tradução de Luciano Ramos Mendes)

 

Herdei um bosque sombrio onde raramente vou. Mas chegará um dia em que os mortos e os vivos trocarão de lugar. Então, o bosque se colocará em movimento. Não estamos sem esperanças. Os crimes mais difícies continuam sem solução, apesar dos esforços de muitos policiais. Do mesmo modo, há em nossa vida um grande amor por solucionar. Herdei um bosque sombrio, mas caminho em um outro bosque, o luminoso. Todas as criaturas que cantam, serpenteiam, mexem a cauda e se arrastam! É primavera e o ar é muito forte. Tenho um diploma da universidade do esquecimento e estou tão vazio quanto a camisa que seca no varal.

 

Haikais

(tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)

 

Forte e lenta brisa

Da livraria marinha

– Descasarei em paz aqui

 

A grama crescente…

Sua face uma runa, pedra

ascendente na memória

 

Na biblioteca das meias-espertezas

Um livro-sermão na estante

Intocado

 

Desgrenhados pinos

Num pântano trágico

– para sempre, eternamente

 

O Cavalo da Morte salta sobre mim

Eu sou um problema de xadrez

E ela, a solução.

 

Ele escreve e escreve…

Cola fluindo pelos canais;

Uma gôndola atravessando o Styx.

2 comentários para “Poemas de Tomas Tranströmer

  1. Pingback: Retrospectiva Meia Palavra – 2011

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