Ho-ba-la-lá (Marc Fischer)

em 11 de janeiro de 2012

 

“É amor, o ho-ba-la-lá, ho-ba-la-lá uma canção,
Quem ouvir o ho-ba-la-lá, terá feliz o coração”

(João Gilberto)

 

Ho-ba-la-lá, livro do alemão Marc Fischer, tinha tudo para ser uma obra de ficção detetivesca à lá Sherlock Holmes ou Comissário Maigret, mas é um relato real. Seguindo pistas, intuição e conversando com muita gente, Marc sai de Berlim e se aventura pelo Rio de Janeiro com uma grande missão em sua mente: encontrar-se com João Gilberto e fazê-lo tocar Ho-ba-la-lá em seu violão centenário.

Nesse enredo, a comparação com Sherlock Holmes vai além de ambos compartilharem da posição de detetive, já que o personagem acaba por virar uma inspiração para o autor, que, em vários momentos, o interpreta de maneira bem humorada, chegando a chamar a sua assistente de Watson. Em um outro momento do livro, ele se questiona sobre o que Maigret faria em seu lugar. Como se isso não bastasse para dar o ar de ficção ao livro, o próprio João Gilberto parece ser um personagem inventado. Ter qualquer tipo de contato com o músico é algo complicado e, a cada conversa do autor com conhecidos de João, descobrimos fatos, no mínimo, fora do comum.

Uma das primeiras coisas que surpreende nessa aventura são os motivos que a levam a ser iniciada. Marc é um jornalista e a imediata impressão que tive ao começar a ler a sinopse do livro, é a de que ele teria embarcado nessa peregrinação pelo trabalho, seja recebendo alguma demanda ou a fim de produzir um livro-reportagem. Contudo, o que o conduz  a seguir essa jornada é sua paixão pela música de João Gilberto que, como ele diz, “o contaminou”. Difícil dizer se ele pensava em publicar o livro antes de iniciar suas buscas, a sensação que fica é a de que a obra é uma extensão natural da jornada. Marc não se apresenta como jornalista, e sim como autor (quase um antropólogo, na verdade), se esbanjando por vezes em sentimentalismo, além de focar a história em sua própria pessoa em diversos momentos.

Fato é que a Bossa Nova, felizmente, não ficou presa às fronteiras brasileiras e muitos estrangeiros conhecem sucessos como Garota de Ipanema graças também a versões gravadas no exterior como, por exemplo, a parceria de Frank Sinatra e Tom Jobim, porém a paixão de Marc vai além. O autor, que conheceu João Gilberto ouvindo um LP no apartamento de um amigo no Japão, se apaixonou pela batida do violão e tom de voz de João Gilberto antes mesmo de saber o que as letras significavam. A partir do momento que foi contaminado, passou a se debruçar sobre tudo aquilo que conseguia descobrir sobre o gênero. Nesse sentido percebe-se que Chega de Saudade, de Ruy Castro, foi uma importante fonte de referência para o autor, que cita a obra por diversas vezes ao longo de sua narrativa.

Outra surpresa é a forma com que o autor trata o Brasil e a abordagem para entender João Gilberto. Como disse anteriormente, o livro mais parece um relato antropológico. Marc, além de conversar com importantes nomes da Bossa Nova como João Donato, Marcos Valle e Menescal, procura entender o trajeto de João Gilberto até o estado de reclusão quase absoluta e “loucura” que se encontra nos dias atuais. Para isso, ele viaja até Diamantina para tocar violão no mesmo banheiro em que o músico se trancava 10 horas por dia. Além disso, experimenta o prato favorito do músico: um steak de carne com farofa. Sobre o Brasil, o autor chega a citar a época da ditadura e situa o leitor a respeito da atualidade, falando com propriedade e se afastando de grandes polêmicas, embora seja irônico em algumas passagens.

Sobre João Gilberto, é preciso dizer que ele não é um, mas muitos nesse livro, se tornando praticamente uma lenda folclórica. Cada amigo entrevistado conta sobre uma época e experiências diversas que viveram com o músico. Para alguns, ele é como um vampiro sugador que só destrói as pessoas com quem tem muito contado, para outros, ele é extremamente sensível e companheiro. Como entender a alma de uma pessoa que só sai para passear à noite e não conversa com ninguém praticamente? O que o levou a este estado de reclusão? À medida que Marc vai trilhando o caminho para chegar até João Gilberto, ele tenta desvendar esses mistérios ao redor da persona de seu ídolo.

A única coisa que senti falta no livro foi a ausência de uma conversa com Bebel Gilberto, filha do músico, que não respondeu ao e-mail de Marc. Além dela, Astrud e João Marcelo também se ausentaram. Restou-nos os depoimentos de Miúcha (que viveu com João entre 1964 e 1969) e Otávio Terceiro, o mais próximo amigo do músico. Mas, mesmo sem esses depoimentos, Ho-ba-la-lá é uma obra que se destaca. O livro vai além daquilo que podemos ver e esbarra em crenças e mistérios como a relação de João com a Yogananda (técnica de ioga) e com João Donato, a qual eu considero, salvo o desfecho, o melhor capítulo do livro, que consiste no encontro de duas pessoas que se entendem completamente por um tempo.

No fim, assim como os casos de Sherlock Holmes, eu não poderia dizer se Marc consegue ou não realizar sua missão. Esse é um convite que faço a todos os leitores que se interessam não só por João Gilberto, mas pela Bossa Nova e por boas histórias. João não ficou conhecido apenas pela música, mas também por uma personalidade muito diferente do padrão. E se isso não for motivo suficiente, encerro com uma bizarra especulação: “João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato”. Esse trecho é dito por Menescal, alertando sobre como João pode ser perturbador. Pois bem: Alguns dias antes da publicação de Ho-ba-la-lá, Marc Ficher se suicidou, talvez sendo este o verdadeiro fim, não do livro, mas sim da aventura do autor.

(Só não vale ficar obcecado com isso e resolver ouvir Ho-ba-la-lá de trás pra frente, ou falar “Ho-ba-la-lá” 3 vezes na frente de um espelho pra ver o que acontece, ok? Melhor terminar a resenha logo, que eu também já estou com medo de falar demais no assunto.)

Autor: Marc Fischer
Tradução: Sergio Tellaroli
Preço: R$ 34
Páginas: 184

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Um comentário para “Ho-ba-la-lá (Marc Fischer)

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