Julian Barnes, com seu The sense of an ending, foi o vencedor do Man Booker Prize em 2011. Por mais que os prêmios literários venham ultimamente sendo alvo de questionamentos vários a respeito de sua validade e credibilidade, não se pode deixar de reconhecer que o romance de Barnes preencha vários dos requisitos que costumeiramente servem de base para a atribuição de uma láurea, mesmo uma da envergadura do Booker Prize.

É difícil definir o enredo do romance, mas tentando simplificar, podemos dizer que conta a história de um relacionamento que o narrador da história, Anthony Webster, teve em sua juventude com Veronica. Após o término do affair, a moça se envolveu com um dos colegas de Anthony, Adrian, conhecido pelo brilhantismo acadêmico. Não posso revelar mais detalhes para não estragar a surpresa, mas a relação entre os dois não teve um desfecho de contos de fadas.

O detalhe é que Anthony nos narra o que seria o futuro daquele tempo: o presente, quando já se encontra com a idade bem avançada. Esse fato tolda toda a história, pois ela está diretamente amarrada na capacidade de Tony de se lembrar do que ocorreu. Isso fica bastante claro tanto no início do livro, quando ele lista detalhes pontuais dos quais se lembra; quanto no final dele, em sua inconclusão.

Ao colocar a função narrativa na mão de Anthony, Barnes nos toma como reféns dele e de sua memória. Não à toa que, para mostrar o brilhantismo de Adrian, ele nos demonstre através de aulas de História: passeando entre relativismos e subjetividades, o autor explora a ligação intrínseca entre História e Memória, ou seja, a dimensão mais humana da História enquanto ligação entre passado e presente.

Quando do momento em que narra a história de sua relação com Veronica e Adrian (e sobre o fim do relacionamento), Anthony o faz dialogando tanto com o passado quanto com o presente, por isso é que ficamos conhecendo detalhes de vários anos atrás, como de experiências posteriores, mais atuais, as quais moldam a própria forma com a qual ele procura construir suas memórias. A genialidade do livro, a meu ver, repousa sobre esse jogo constante e eternamente incompleto feito com a memória, como ela ora encontra-se nítida, ora fugidia, moldando nossa percepção de passado e presente, e (talvez principalmente) da passagem do tempo e o peso que ela nos imputa.

Quando Einstein inseriu uma nova coordenada no continuum, para dela extrair um dos corolários essenciais da Teoria da Relatividade, ele colocou o tempo como uma das unidades de orientação fundamentais da existência física, material. Mas ele, o tempo, representa mais do que isso ao falarmos sobre seres humanos, criaturas sociais por “natureza”, porque o tempo e sua percepção estão mais entranhados em nossa existência e relação com a realidade do que podemos imaginar. Paul Ricouer explora o peso ontológico do tempo para mostrar que tanto quanto seres de carne e osso, somos seres históricos por excelência, condicionados pelos reveses do tempo.

O tempo aparece em The sense of an ending sob várias formas, mas a mais contundente é certamente a memória, personificada em Anthony, cujas reminiscências mnemônicas representam nosso acesso ao mistério do passado. Barnes não ficou preso a uma concepção “subjetivista” ou “objetivista” ao extremo, reconhece a fragilidade dos sustentáculos da memória, mas nem por isso elimina seu potencial epistemológico: não há relativização que possa ignorar o peso da lembrança, por mais individual, intimista, fragmentária ou condicionada que ela possa ser.

Até aqui já sobram razões para eleger Barnes para um prêmio literário, por isso é que me sinto na obrigação de relatar um detalhe que me deixou desgostoso em relação ao final do livro: embora seja justamente esse um dos pontos mais expressivos da obra, inclusive por se tratar da intenção consciente do autor, a inconclusão dela me fez sentir traído. Assim como a memória de Anthony sofreu o butim do tempo, também eu me senti espoliado de uma conclusão mais completa. Eis revelado uma das peculiaridades mais desconcertantes da memória: sua incapacidade de absorver a totalidade. Ao fechar o livro, ficamos como Anthony, sedentos de compreensão e logicidade, mas incapazes de avançar sobre o terreno cediço da memória. Pelo menos não de forma fácil ou imediata.