É uma coisa um pouco sem sentido, mas eu acho cinema algo cansativo. Situar-me como espectador é uma atividade por demais passiva, e isso me dá preguiça. Por isso talvez soe um pouco paradoxal falar que um de meus diretores favoritos é o sueco Ingmar Bergman.

Afinal, os filmes dele são um tanto arrastados. Mas de certa forma, é justamente isso que me atrai: essa lentidão, os diálogos densos, isso me tira da letargia em que, de outra maneira, eu seria colocado pelo filme. Eu preciso me manter alerta o tempo todo, ativando uma quantidade enorme de referências – algumas, inclusive, difíceis de identificar imediatamente; isso fora as que eu talvez nunca me dê conta.

Mas o que eu mais gosto de Bergman não são exatamente seus filmes, mas os roteiros. Muitos deles foram publicados, inclusive em português. Todos os que eu tive oportunidade de ler parecem, na verdade, peças teatrais.

É verdade que o cinema e o teatro possuem muito em comum. Mas a convergência, no caso de Bergman, parece superar essa linguagem comum. É a tradição a que ele recorre: obviamente não sou especialista em cinema, mas parece-me que ele recorre mais vezes a Shakespeare, Ibsen ou do que a qualquer coisa diretamente relacionada à sétima arte.

Talvez eu esteja sendo óbvio. Afinal, Bergman começou sua carreira pelo teatro. Mas muitos cineastas fizeram isso. A maior parte deles, porém, perde o elo essencial que tinham com os palcos. Alguns até continuam a trabalhar na ribalta, mas deixam suas peças serem contaminadas por seus filmes – o que nem sempre acaba sendo uma boa ideia. Em Bergman, porém, o que acontece é o oposto: são os filmes que absorvem certa teatralidade. Assim eles podem, com maior propriedade, despertar um “sentimento metafísico”, cada vez mais ausente do cinema.

É por isso que, apesar de tudo, não tenho preguiça de Bergman. Quando vejo um de seus filmes sinto-me quase como se estivesse no teatro, ou lendo um bom livro. Seus roteiros, além disso, são uma das minhas referências quando escrevo teatro.