A cidade de Arras, no interior da França, sofreu com uma epidemia de peste no ano de 1458. Por ordens superiores, a cidade foi fechada. Isso, aliado à ação de bandidos, culminou com um período de fome intensa. Governadas por seus estômagos, as pessoas abandonaram todo e quaisquer padrões morais, praticando atrocidades que as envergonhariam pelo resto de seus dias. Um quinto dos habitantes da cidade morreu.

Três anos depois Arras foi tomada por uma fúria inexplicável, que quase teria culminado em um pogrom, mas que acabou expandindo-se em uma caça às bruxas generalizada. Judeus, plebeus e até nobres acabaram sendo condenados – de maneira oficial ou por uma justiça popular. Isso durou três semanas, até a chegada de David, bispo de Utrecht e filho bastardo do príncipe Felipe, o Bom, da Burgúndia, que anulou todos os julgamentos e perdoou todos os pecados lá cometidos.

Essa história é a base para A mass for Arras, do polonês Andrzej Szczypiorski. O livro é a versão de Jan, um jovem culto de origem nobre que vai para a cidade para estudar sob a tutela do Padre Albert. Um ano depois dos acontecimentos ele os recorda, agora vivendo num exílio auto-imposto na cidade de Bruges.

Na versão literária que Szczypiorski criou para esses fatos históricos não explicados, a violência e loucura de 1461 começaram quando um judeu foi acusado de ser o responsável por ter lançado uma maldição sobre a casa de um cordoeiro, matando um cavalo sadio.  Com um julgamento não muito justo e preso enquanto aguardava a investigação e a sentença, Tselus, o judeu acusado, enforca-se durante a noite.

Temendo que a brutalidade de três anos antes reiniciasse, as pessoas da cidade vão até Jan, pedindo-lhe que vá até Utrech e peça a intervenção de David. Dissuadido da ideia por Padre Albert, Jan acaba encorajando que plebeus sejam admitidos no conselho da cidade. O que parece um avanço democrático que aumentaria a igualde e seria bom para a qualidade de vida da cidade, sob a manipulação ideológica de Albert, acaba gerando hostilidades contra os judeus e, depois, em uma determinada caça às bruxas: começando com base em acusações de bruxaria, heresia ou pecados,  as condenações tornam-se cada vez mais arbitrárias – a ponto de ninguém estar a salvo.

A semelhança dessa história medieval com a história dos expurgos e condenações do leste europeu ao longo do século XX é óbvia. Mas mais assustadora é a dualidade com que o livro pode ser lido. Se por um lado pode-se ver uma clara condenação ao rigor ideológico dos partidos comunistas alinhados com a URSS, ao mesmo tempo pode-se pensar que isso é justificável, face que os resultados ambicionam um bem maior.