Gatos Empoleirados – Escrever: diversão ou concentração?

em 3 de abril de 2012

Comecei a escrever antes de me interessar por leituras. Minha aula favorita durante o ginásio era redação, mas não gostava das aulas temáticas, na qual nos faziam obedecer a um guia/tema para escrever. Gostava muito mais dos temas livres – terror da maioria dos alunos que consideravam escrever um porre. Outro dos meus vícios no auge dos meus 12, 13 anos eram mulheres peladas. Falava sobre sexo verborragicamente, pensava exaustivamente e levava na lancheira da escola a “Playboy”, coqueluche para nós, então, pré-pubianos. Já é possível imaginar, portanto, qual era meu tema predileto para as redações – isso muito antes de conhecer todos os escritores-safados e apenas tendo como referência a série Vagalume.

A professora Rosi era Doppelgänger da minha mãe e não ligava para o que eu falava, ou escrevia, ou levava, enfim, para as minhas “besteiras”. E minha besteira era falar de um peito aqui ou ali e eu nem ousava em descrições, meu vocabulário atrevido, por assim dizer, não era lá muito extenso… Eu sabia o que? Seio, peito, mamilo, melões (aprendi com as dublagenas do “Cinema em Casa”) e para a genitália pouco sabia a não ser os básicos – que não irei citar. De qualquer forma, a Rosi me ensinou a escrever sem medo, fosse ruim ou bom, escrever para manter uma periodicidade, disciplina e compromisso com algo que realmente me deixava contente e extasiado. Com a professora Quirino, o mote era outro: eu poderia criar a história que fosse contanto que ela tivesse uma razão para ter sexo e insinuações. E seguindo essa obrigação, fui participar de um concurso de redações. No meu texto, descrevia a sensação de um tapete molhado no chão de um hotel, durante um beijo.

A comissão julgadora era composta pela diretora geral da escola, pela coordenadora-adestradora de professores e a professora-gostosa-de-filosofia. Tirando a última, as outras duas fizeram questão de entrar em um consenso, diria mesmo um complô, de que eu deveria ser parado antes que eu virasse má influência para os outros alunos. Eu sei, besteira. Bem, talvez eles tenham levado em conta meu histórico de má conduta: mandar um professor pegar no meu saco já que ele era bicha, levar revistas adultas para o intervalo, mostrar a bunda no meio da sala, participar de uma peça na qual eu representava um viciado em sexo, entre outros casos, como a marcha para a boqueteira. Numa quarta-feira de aula de redação – olha o destino querendo nos avisar -, após uma troca de bilhetes ofensivos cheios de conotações e insinuações sexuais, um boato surgiu: a M. (nome não revelado para proteção da vítima) ofereceria um boquete a quem mostrasse o órgão fálico a ela. Uma algazarra se formou e no meio do intervalo o coro uníssono “boqueteira” ecoou pelo pátio. A culpa era do pervertido e arruaceiro, que se safou apesar de permanecer em condicional, e o concurso de redação parecia a arapuca perfeita para pegá-lo de jeito. Fui chamado de canto após ter meu material avaliado e intimado a escrever outra coisa, ou seria desqualificado e reprovado na matéria. A comissão julgadora foi quem tornou o escrever um dos meus maiores traumas. Fiquei arrasado e não queria mais tocar num lápis.

Não escrevia por mal, escrevia por puro gozo. Prazer que deixei de lado e, então, comecei a me dedicar aos livros que minha mãe mantinha em sua pequena coleção.

Ao fim do ensino médio, quando entrei na faculdade, dividia alguns dos meus textos com a minha namorada da época – inclusive cheguei a compilar tudo que havia escrito sobre e para ela numa espécie de livro de prensagem única. Com o tempo comecei a pegar o gosto pela diversão de escrever o que fosse: coisas românticas, diabólicas ou mesmo textos mais herméticos. A censura ginasial silenciou o lado cafajeste e puberdônico da minha escrita, mas não cessou a sede de estalar os dedos e me deixar levar. Quem sabe eu não precisava dessa quietude para explorar outros meios de expressão como o teatro ou o cinema – que desembocou na roteirização?

Toda essa confissão só poderia vir por causa do meu autor fetiche desde o começo de 2011, David Foster Wallace, e sua carta para Don DeLilo, sobre o porquê e como ele escreve por pura diversão. Ser um Deus sádico dentro do universo que se cria, manipular personagens ao seu bel-prazer. Creio até que Vila-Matas usa seus personagens baseados em pessoas reais para recriar a história do mundo através da sua visão. É mais fácil criarmos nossa realidade pelas letras e detonar um a um por pura peraltice. O momento de isolamento total, de compreensão inconsciente do que se está se escrevendo, que parece fazer sentido na cachola e na escrita, ser nonsense. Para o leitor, é imergir nesse subterfúgio do autor que um dia quis manipular e destruir o mundo. Quiçá quem escreve para viver, ou vive pela escrita, deve seguir suas próprias regras; posição ereta, dedicar horas a escrever, revisar, ler, apagar e matar personagens e sentenças. Se assim se divertir, está valendo. Mas se o campo de batalha literário é travado de maneira solitária, deveriam ao menos tirar o mínimo de gozo seja no processo seja no final. Eu, como um leitor-escritor, gosto de todas as emoções do escrever, saber que um personagem terá um final fatídico e ter uma disritmia, no meio do enredo atravessar para outro lugar e não saber para onde as palavras vão levar; sobreviver e dar um ponto final, quase transpirando como numa maratona. Os dedos rápidos tentando acompanhar o pensamento, a raiva da construção sintática, o tédio das frases feitas, o amor pelas personagens. Escrever por diversão, por sensações. Ou será que grande escritores sentavam atrás de suas mesas com caras compenetradas sem esbanjar o mínimo sorriso?

Oxalá! Escrevo, logo sinto.

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