A Flip fora da Flip

em 5 de julho de 2013

A Flip é muito mais que a Flip. Além das dezenas de mesas oficiais, encontros com autores e filas de autógrafo, a Festa de Paraty abraça toda a (pequenina) cidade e em cada viela, em cada casebre, ao longo de todo o dia, várias atividades interessantes acontecem, reunindo pelo menos uma dúzia de pessoas no circuito paralelo que já se tornou tradicional, a OffFlip.

Para quem visita Paraty na semana da Festa, recomenda-se que entre uma mesa e outra reserve um tempo para conferir a programação à parte, com eventos tão bons quanto os das disputadas mesas da Tenda dos Autores e com o benefício de ser, além de mais intimista, na maioria das vezes também gratuitos.

Indico aqui, portanto, alguns locais e atividades de destaque na Flip deste ano, com programas tão diversos quanto sarais, oficinas de fotografia e exibição de filmes.

Como um dos cinéfilos oficiais desse site, corri em busca das programações de Cinema, e felizmente esse evento muito maravilhoso que é a Flip reservou um bom espaço a nossa amada arte.

A Casa Sesc, ao lado da igrejinha de Santa Rita e em frente ao cais histórico, exibiu na tarde de quinta-feira o belo, tragicômico e por mim até então desconhecido Noites Brancas (também traduzido como Um Rosto na Noite, 1957), de Lucchino Visconti, como parte da mostra Dois Gigantes Russos: Tolstói e Dostoievski, que exibe cerca de seis filmes ao longo da Festa.

À sessão seguiu-se um debate com professores de Cinema e Literatura discutindo o neorrealista Visconti em busca da essência desse clássico texto dostoievskiano.

À noitinha, a Tenda do Telão exibia como parte do evento oficial Vidas Secas (1963), adaptação de Nelson Pereira dos Santos da obra do homenageado Graciliano. Enquanto isso, do outro lado do rio, no circuito OffFlip, a Casa do IMS (Instituto Moreira Salles) fazia a festa de lançamento do box comemorativo às três adaptações das obras do Seu Graça: São Bernardo (1972), de Leon Hirszman, Memórias do Cárcere (1984) e o já citado Vidas Secas, ambos de Nelson, presente no evento, simpático abraçando fãs e tirando fotos ao som do samba que animava a festa oferecida pelo Instituto, de graça, era só chegar.

Contudo, não pense que era só Cinema na programação paralela da OffFlip. É que eu me empolgo quando falo disso e fica difícil parar.

Palcos pequenos receberam peças em homenagem ao autor da Flip desse ano, como Graci, Graciliano, de Solange Jouvin. A Casa Trata-se de Ficção organizou um bate-papo sobre a África nos livros, debatendo colonização, sobretudo na Angola. A Casa Clube dos Autores propôs-se a debater sobre a inclusão de projetos literários nas leis de incentivo do governo.

A Flip também se adequou aos tempos de manifestações e protestos, montando mesas sobre o tema. Sim, a Flip também foi pra rua.

Na OffFlip o debate infiltrou-se extraoficialmente, revelando-se nas mesas de jornalismo das Casas do jornal Folha de São Paulo, rendendo muitas perguntas, por exemplo, à jornalista Eliane Cantanhede (foto abaixo), que inicialmente debateria Brasília é um romance, na sexta, às 15h.

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José Wilker, Zeca Camargo e Luiz Felipe Pondé também circulavam pelas ruas do centro histórico, participando de debates menores, mas que, não raramente, faziam dezenas de pessoas se amontoarem. Ainda assim, talvez o recorde do evento tenha sido o encontro com o poeta Ferreira Gullar, na Casa Folha 1, sexta, às 16h30.

O poeta atraiu uma multidão, que se apertou pelas dezenas de banquinhos da casa, pela calçada e pela rua em frente, todos esticando o pescoço e nas pontas dos pés. Assim também, entre uma pergunta sobre Poema Sujo e outra mais genérica sobre “o que faz um escritor?”, Gullar pronunciou-se sobre as manifestações brasileiras, mas sem sair muito do lugar-comum sobre o assunto, falando de corrupção na política e relembrando sua dificuldade em voltar ao Brasil na época da ditadura.

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Concluindo sua participação, Gullar repetiu uma de suas frases antológicas: “A arte existe porque a vida não basta”. Adaptando à situação: a OffFlip existe porque a Flip não basta.

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