“Escrever juvenis é um prazer que não encontro nos outros” – entrevista com Andréa del Fuego

em 11 de setembro de 2013

Informações

  • Autor: Andrea del Fuego
  • Tradutor: -
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 136
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$34,00

Ela é considerada um dos nomes femininos mais importantes da prosa brasileira contemporânea. Nascida em São Paulo, no ano de 1975, Andréa Fátima dos Santos, mais conhecida como Andréa del Fuego – alter ego adquirido ainda nos anos 90 quando a mesma trabalhava escrevendo crônicas e respondendo dúvidas sexuais de leitores da revista da Rádio 89 FM –, tem seis livros publicados e participações em inúmeras antologias literárias.

Ganhou notoriedade e prestígio internacional como escritora ao lançar seu primeiro romance, intitulado Os Malaquias (2010), laureado, no ano seguinte, com o Prêmio José Saramago, em Portugal. O romance foi inspirado num trágico incidente envolvendo seus bisavós, que morreram eletrocutados por um raio. Desde então a crítica rendeu-se aos seus pés e seu livro foi ganhando sucessivas traduções no exterior.

Recentemente, publicou pela editora Companhia das Letras, seu aguardado segundo romance, As miniaturas, no qual o realismo mágico novamente aparece, porém, dessa vez, configurando-se em um cenário urbano, especificadamente, num prédio, local onde se ornamenta toda a engenharia da trama.

Em entrevista exclusiva para o Posfácio, Andréa del Fuego fala sobre o novo livro, a ascensão adquirida com o primeiro romance, como é escrever também para o público infantojuvenil, os primeiros passos como escritora e a sua principal influência literária feminina:

Como surgiu o interesse em relatar uma trama dentro de um edifício, com as suas respectivas personagens praticamente destituídas de uma psique palpável, numa atmosfera que oscila entre a realidade e o sonho?

Andréa del Fuego: O edifício fica no centro de uma grande cidade, o que dá concretude justamente para o que supostamente não existe (o próprio edifício). Os oneitos, pessoas que trabalham no edifício sugerindo sonhos, não sonham. O ambiente de trabalho não é onírico, é burocrático, pois o trabalho do sonho só acontece em quem sonha e não temos acesso aos sonhos das pessoas que passam pelo edifício. Os oneiros são peças, elos de produção que trabalham sugerindo miniaturas banais, de plástico, descartáveis.

Quanto tempo levou para escrever As miniaturas? Há alguma preparação antes de começar a escrever? Como funciona o processo de produção de suas obras?

Cada livro teve um processo distinto. Os livros de contos, vendo hoje, parecem desenhos em caderninhos, os juvenis são desenhos com guache e os romances são tentativas de pintar com óleo. O romance exige mais textura, volume, complexidade, digo isso na MINHA experiência. O tempo que o romance exige, acaba movendo mais minha vida, vai me sugando para dentro dele. Os contos nao fazem isso, os juvenis me fazem só bordear. O primeiro romance levei sete anos para terminar o segundo fiz em dois anos. Mas o tempo nada tem a ver com alguma evolução na escrita e sim com o tema, o primeiro é baseado em história familiar, precisei lidar com mais elementos difíceis.

Seu romance anterior, Os Malaquias, foi vencedor do prêmio José Saramago. Considera seu romance anterior um divisor de águas em sua carreira, com relação ao respeito adquirido pelos críticos e pela própria dimensão que a obra adquiriu, com o prêmio, a visibilidade como escritora e pelas traduções no exterior? O que ele representa na sua vida profissional e íntima, já que o romance foi inspirado na história de seus bisavós?

Considero um divisor de águas, claro. Na minha vida íntima eu estava grávida e sem plano de saúde, o prêmio em dinheiro me ajudou numa fase muito importante, pude parir tranquilamente, isso não tem preço. Quanto ao valor real do prêmio que é a celebração do livro, fez toda a diferença, o romance atravessou o mar e encontrou leitores fora do meu bairro, da minha família, dos meus amigos, isso aconteceu pela primeira vez. Junto com isso, o livro carrega uma história familar, sinto que cada leitor em cada país onde é traduzido, lá vão meus ancestrais junto. Foi como o raio que caiu na cabeça dos meus bisavós, no caso deles o raio foi fatal. No meu caso, fez todos eles reviverem.

Desde os seus primeiros livros de contos, ao primeiro romance e o seu mais recente As miniaturas, como avalia o progresso de sua literatura? Quais aspectos encontra em seus livros anteriores que, de alguma forma, se distinguem de sua prosa atual?

A única diferença é que agora não tenho pressa. Não há um progresso, há uma limpeza do que já existia. Essa limpeza pode ser boa ou não, depende de cada livro. Estou escrevendo um novo romance e tudo o que fiz até aqui não vai ajudar a fazê-lo, pelo contrário.

Como é escrever também literatura infantojuvenil? É mais fácil ou mais difícil? Como você lida com esses dois distintos segmentos de públicos?

Escrever juvenis é um prazer que não encontro nos outros, porque sinto como se visitasse um terreno conhecido e familiar. Procuro uma voz juvenil que já foi minha, uma certa prepotência juvenil que funciona dentro da narrativa, pois é aquela sensação de que com 14 anos estamos preparados para tudo, o que não é verdade. Vou atrás desse elemento. O público é muito mais ligado na obra, mais do que no autor. Há grupos de discussão sobre o meu juvenil Sociedade da caveira de cristal em que não sou bem-vinda, por exemplo, eles querem saber do texto, não da autora.

Existe uma autora ficcional de que, particularmente, você goste muito ou que já tenha lhe inspirado ou ainda lhe inspire? Ou ficcionistas masculinos são os que predominam nas suas influências? Pergunto isso porque atualmente seu nome está ligado a uma voz feminina importante na literatura brasileira.

A voz feminina que mais que tocou foi a da Clarice Lispector. Foi fulminante e precisei de tempo para sair daquele plasma que ela cria e onde nos prende. Faz tempo que não a releio, gosto de seus livros menos fáceis como o Maçã no escuro, por exemplo.

Muitos jovens aspirantes a escritores têm preferido enviar seus originais aos concursos literários, que cada vez mais têm se expandindo no país, e revelando novos talentos de maneira contundente, do que pelo método que antes era o mais tradicional e requisitado pelos aspirantes, mandando para as editoras, já que sabemos como os originais são na maioria das vezes tratados. Foi difícil seu início como escritora com relação à publicação? Pode nos falar um pouco desse momento?

Os prêmios são muito interessantes nesse sentido, o Prêmio Sesc é excelente, bons autores publicados, um prêmio que é a própria publicação por uma grande editora. Eu publiquei por quase 10 anos em editoras pequenas, uma delas, a Fina Flor, era somente a editora (a escritora Cristiane Lisboa) e seu computador, foi um dos processos de publicação que mais me completou, ficamos durante uma madrugada em mutirão costurando livro por livro, apenas 117 exemplares. Um deles chegou nas mãos da Maria Adelaide Amaral, que entrou em contato comigo na época, é o livro de contos Nego tudo. Aprendi com isso que os livros têm pernas e andam, mesmo que muito lentamente. Publicar acaba sendo um prazer e uma tortura, estar abaixo do radar angustia, estar diante do radar idem. Publiquei meu último livro pela Companhia das Letras e estou muito satisfeita, é uma máquina de precisão, há pessoas cuidando de cada detalhe, com vontade de fazer o melhor em todas as etapas, é impressionante. Por ser tão grande, é interessante que ela consiga manter o contato direto com o autor, o que as editoras pequenas conseguem justamente por serem menores. Independente da editora, importante é o texto, esse não tem limite, uma vez publicado o autor pode se colocar para os leitores, expor-se finalmente.

Teve algum novo autor ou autora dessa safra de estreantes da prosa contemporânea que a escritora descobriu e se surpreendeu ao ler o livro?

Justamente de um autor que venceu o Prêmio Sesc com o livro Beijando Dentes, ele se chama Maurício de Almeida. Ele fez sua estreia já há alguns anos, mas soube que já tem novo livro para publicar.

Você se considera mais reservada ou gosta de participar dos eventos, das mesas de debates e palestras literárias que sempre são realizados dentro e fora do país, até como forma do público estar mais próximo do escritor, e do próprio adquirir publicidade e, respectivamente, garantir alguns lucros?

Já participei de mais eventos, sempre gostei, mesmo não ganhando materialmente nada com isso. Sempre gostei da cerveja pós-evento, é na mesa de bar que os textos fluem melhor, você encontra seus cúmplices, isso vivifica. Depois do Prêmio José Saramago tenho recebido convites para eventos fora do país, não consigo aceitar todos por conta do meu bebê, mas tenho participado de muitos como o Salon du Livre de Paris e o Correntes D’Escritas em Portugal. Acho importante estar presente, mas o livro precisa estar antes de você, ele é que segue, nós voltamos para casa.

O que a literatura, de fato, significa?

Liberdade.

Mesmo com o recém-lançado romance, já existe algum novo projeto em a mente ou mesmo em fase de preparação? Ou o momento realmente é só dedicado a As miniaturas?

Estou escrevendo um novo romance, muito empolgada com as pesquisas iniciais, já sei como vai terminar, começar e alguma coisa do miolo. Essa parte é deliciosa, na hora de colocar a mão na massa é que chegam os problemas, e são eles que fazem o livro.

2 comentários para ““Escrever juvenis é um prazer que não encontro nos outros” – entrevista com Andréa del Fuego

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