Afirma Tabucchi ter Pereira afirmado

em 17 de setembro de 2013

Informações

  • Autor: Antonio Tabucchi
  • Tradutor: Roberta Barni
  • Editora: Cosac Naify
  • Páginas: 160
  • Ano de Lançamento: 2013
  • Preço Sugerido: R$ 29,90

Inicio esta resenha assumindo-me um fã confesso de escritores que insistem em cultivar aspectos literários e narrativa mais tradicionais. Por tradicional refiro-me à apresentação dos personagens de maneira evidente, construção de narrativas lineares, uso de descrições, encadeamento mais meticuloso de eventos numa sequência lógica e assim por diante.

Me parece haver uma pressão no sentido de dizer que a literatura é ingênua e menos significativa se partilha de alguns desses elementos. Um livro que valoriza o encadeamento dos eventos de forma linear passa por livro muito conservador. A utilização de descrições passa por extensão desnecessária ou faz uma obra por demais prolixa. Apresentar os personagens ao leitor quando do início da trama passa por pressupor a sua incapacidade de desvelá-los. E assim por diante.

Não sei ao certo até onde os leitores desta resenha partilham de minha opinião (espero que os comentários possam dar algum indicativo disso), mas me senti compelido a apresentar tal ponto de maneira introdutória para sublinhar um dos aspectos que mais me fizeram gostar de Afirma Pereira, novela do escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012). Os elementos acima apontados, aliás, são um dos atrativos do livro por serem utilizados com maestria e uma cadência impecável.

Tabucchi começa Afirma Pereira com um interessante prefácio: ele diz que irá contar a história de um jornalista que veio visitá-lo em busca de um cronista para si, de modo que a trama que se segue tem a forma de um relato, sendo as palavras “afirma Pereira” repetidas diversas vezes ao longo do texto para marcar o caráter de depoimento.

Pereira é um jornalista português que ficou responsável por organizar o caderno cultural do Jornal Lisboa. Sua vida é muito regrada e afeita a rotinas muito bem estabelecidas: ele caminha sempre pelas mesmas ruas, toma sempre a mesma bebida (limonada) e monologa regularmente com sua esposa através do retrato da falecida. Ademais, ele leva uma vida sem grandes atrativos, traduzindo contos do francês e alternando seu paradeiro de casa para um restaurante ou o pequeno escritório onde fica a redação de seu caderno cultural. Talvez mais do que a repetição, chama a atenção a forma como a vida de Pereira é melancólica pela solidão de meia idade em que o protagonista se encontra, como se estivesse numa situação em que cultivar projetos não fosse mais uma alternativa e em que sua saúde já começa a mostrar sinais de fragilidade.

A vida de Pereira encaixava-o muito bem no ambiente em que ele vivia. Como a história se passa nos sinistros anos da ditadura de Salazar em Portugal, ser discreto, comedido e obediente faz parte de um arsenal de comportamentos de sobrevivência. Para usar uma expressão bastante comum ao se falar sobre ditaduras e as realidades sociais por elas criadas, poder-se-ia dizer que Pereira era um “corpo dócil” para a ditadura salazarista.

A modorra de Pereira começa a mudar quando ele resolve contratar um auxiliar para o caderno cultural. A função deste seria escrever de antemão necrológios de escritores, para que na ocasião do falecimento de um deles, o caderno não fosse pego desprevenido. O jovem Monteiro Rossi se apresenta e é contratado por Pereira, passando a escrever necrológios por demais subversivos para serem publicados, em especial por conta de seus elogios à atuação política dos escritores mais do que seus méritos estéticos e literários.

Monteiro Rossi e a namorada Marta eram engajados com a causa republicana – a Guerra Civil Espanhola estava polarizando ideologias, partidos e sujeitos –, representando para Pereira um problema por vários motivos. O primeiro deles é que Monteiro Rossi não conseguia produzir nada publicável aos olhos de Pereira, o segundo é que Pereira continuava pagando-o com seu próprio dinheiro, e o terceiro é que cada vez mais o pacato jornalista se via enredado na órbita de luta e engajamento político em que os dois se encontravam.

Afirma Tabucchi que Pereira afirmou passar por maus bocados pela exasperação com o jovem casal e pelos hábitos alimentares que tinha (em especial suas limonadas carregadas de açúcar). Para tratar de tal mal estar, Pereira afirma ter se retirado ao hospital talassoterápico de Parede para tratar-se, conhecendo Dr. Cardoso no processo. Foi este quem lhe apresentou uma teoria muito interessante acerca de sua condição: a ideia da confederação das almas e do eu hegemônico.

Segundo a teoria de Dr. Cardoso, o problema que aflige Pereira é que na confederação das almas que era seu espírito, o eu hegemônico que fora dominante até aquele momento estava perdendo seu posto. Os abalos a que ele fora exposto por conta da tensão e dos questionamentos ensejados por Monteiro Rossi, sua situação e seus necrológios fizeram com que sua própria identidade fosse repensada em novos termos. O velho Pereira, confortável e mediocremente agarrado a suas rotinas, não conseguia mais lidar consigo próprio após ter deitado os olhos para fora de seu mundo individualizado. Monteiro Rossi, sua namorada e o engajamento dos dois tornaram a existência de Pereira nos antigos termos insuportável e penosa.

A transformação fora tanta que Pereira organizou todo um esquema para contribuir com a luta política e ideológica que tomara conta do cenário europeu. Agindo contrariamente ao que seu velho eu hegemônico provavelmente faria, Pereira ousou.

Numa narrativa que não se quer um puzzle, Tabucchi se vale de um recurso muito similar àquele usado por Isaac Bashevis Singer: o de contar histórias alheias colhidas supostamente a partir de conversas com pessoas reais, e não esconder isso na escritura do livro. Afirma Pereira é um livro que caminha devagar, buscando situar o cenário pelo qual caminham os personagens, sem se estender nas descrições mas preocupado em deixar o leitor a par de detalhes significativos acerca dos personagens, como, por exemplo, o costume de Pereira de tomar limonadas e o mesmo caminho todos os dias.

Ao lado disso, encontra-se uma preocupação em ensejar discussões mais filosóficas, ou, ao menos, que fomentem reflexões mais profundas. Pode-se usar como exemplo nesse sentido tanto a teoria da confederação das almas e do eu hegemônico proposta pelo Dr. Cardoso quanto a trajetória de Pereira como um todo, isto é, sua transição de um a outro eu hegemônico, e as implicações existenciais e morais nela presentes.

Há, ainda, a sensibilidade de Tabucchi em perceber e trazer a lume duas questões que considero acertos louváveis de Afirma Pereira: o retrato da relação dialética entre o sujeito e o mundo, e a capacidade de demonstrar os tentáculos mais obscuros do status quo – no caso, de uma ditadura.

Com relação à primeira questão, a relação entre sujeito e mundo se desenha nos contornos da situação histórica de Portugal e da situação existencial de Pereira. Há muito do mundo em Pereira, e muito dos dilemas de Pereira no mundo. A tensão encarnada no momento político ditatorial é vivenciada pelo personagem através do estado psicológico com o qual se vê às voltas. A disputa entre os eus hegemônicos na confederação das almas de Pereira é o dilema que muitos vivem sob a ditadura: silenciar em nome da segurança pessoal ou arriscar-se em nome de algo maior? As posturas em disputa dentro de Pereira são metáforas desse estado de tensão, que Tabucchi soube captar com maestria.

O que nos leva à segunda questão: aquela referente à demonstração das infiltrações da situação estrutural na intimidade da vida social. Salvo em uns poucos momentos em que o longo e poderoso braço da ditadura se deita visivelmente sobre a realidade de Pereira, Tabucchi se vale da sutileza para mostrar isso. O livro todo cria um clima de vigilância velada, de tensão mal disfarçada em mesas de restaurantes, nos escritórios de jornal, nos telefonemas e mesmo nos recônditos do supostamente privado espaço do lar. A cada passo que Pereira dá, alguém ou algo parece dar outro em seu encalço, mas quando ele olha sobre os ombros, é o vazio que vê. A construção das situações, a descrição dos cenários, a localização dos olhares e o tom dos diálogos, todos eles criam uma atmosfera tensa, que parece se dissipar tão logo lhe dirijamos o olhar direto.

A persona de Pereira e seus caracteres psicológicos expressam muito bem essa questão: ele incorporou uma disciplina rotineira de respeito temeroso, um medo escondido até na escolha dos contos franceses que gostaria de traduzir. E Tabucchi fez disso uma constatação crítica velada, pois justamente quando Pereira deixa de lado seus hábitos medíocres é que passa a ser alvo dos agentes salazaristas. O testemunho de Pereira foi feito literatura por Tabucchi, mas extrapola a concepção de literatura como objeto estético, revigorando o poder das narrativas enquanto dispositivos de reflexão tanto quanto objetos e exercícios estéticos.

(Embora eu possa estar me atabalhoando, já estou quase a considerar Tabucchi um dos meus escritores contemporâneos favoritos – mais dois livros dele foram encomendados e já estão a caminho.)

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