Assim como a moda é cíclica, os hábitos vêm e voltam com o tempo. Nos últimos anos observamos um revival da década de 1990 na moda: voltaram as flanelas, os tênis bisnaguinha (ou sapão), as pochetes, o shorts de ciclista (coisa horrível) e outras coisas que achávamos que ficariam no passado. No âmbito dos hábitos, muita gente pensou – e ainda pensa – que os computadores destruiriam a escrita à mão. De certa forma, destruiu.

Há quem não pegue num papel e numa caneta há anos. Mas convenhamos: toda a praticidade de digitar no Word foi jogada no lixo depois das redes sociais. A não ser que você desconecte seu brinquedinho da internet, sua escrita digital ficará marcada pelas pausas para checar as notificações, abrir um site para consultar algo e lembrar do que estava escrevendo três horas e 302013 vídeos no YouTube depois.

Eu sempre fui adepta do papel e da caneta. Antes mesmo de saber escrever, eu adorava caderninhos e ficava rabiscando o dia todo – devia ter guardado eles para vender como arte abstrata. Depois de começar a minha alfabetização, ensaiava diários nos meus cadernos, 100% inspirada em O diário de Daniela. Meus cadernos da escola eram caprichadíssimos, letra bem feitinha e canetas coloridas para sublinhar os títulos e trechos importantes. Um primor. Até porque, se saísse feio, era bem capaz da minha mãe arrancar a folha e mandar eu escrever tudo de novo – ela ameaçou fazer isso uma vez, mas nunca foi necessário.

Agora que sou uma pessoa adulta e emancipada (risos nervosos), todo esse asseio estilístico não existe mais. Minha letra é pior que receituário de médico, cores só uso no meu planner para ficar mais organizado, mas continuo fiel aos caderninhos. Porque uma coisa que percebi nesses 30 anos de vida é que digitar está bem longe de ter o mesmo efeito da “escrita analógica”.

Escrever à mão melhora o processo de aprendizagem, aponta estudo”. “Escrever à mão é importante para o cérebro, dizem estudos”. Estudos não faltam para apontar os benefícios desse tipo de escrita. Tem alguma coisa a ver com o planejamento motor e coordenação motora do nosso cérebro – desculpa, sou de humanas e não sei explicar direito. Mas não preciso de pesquisas para entender que, a nível pessoal, a escrita à mão é muito melhor para mim. Quando escrevo no papel, eu tendo a memorizar com mais facilidade o conteúdo. Não é que eu lembre exatamente o que escrevi ou copiei, mas é que eu relembro a ação — colocar a caneta no papel e desenhar as palavras –, e lembro também em que lugar isso foi feito. Assim fica fácil eu resgatar aquilo que foi anotado.

Outro ponto que é muito importante na adoção da papelaria no meu cotidiano é a questão estética. Cadernos cujas capas são bonitas ilustrações, folhas em papel Pólen com gramatura decente. Um caderno, para mim, tem que ser bonito, ter personalidade. E é muito mais legal, esteticamente, escrever num bom caderno do que fazer isso no computador.

Um dia estávamos confabulando sobre isso no grupo do Posfácio. A maioria dos membros deste site têm um ou mais caderninhos onde anotam tudo. O André Araújo, inclusive, escreveu toda a sua dissertação na mão, usando a força bruta do desespero (brincadeira, André). O Antônio Xerxenesky é um autor modernoso que escreve no computador, filho de sua época, mas quem diria que tem um caderninho para poesias… A Isadora Sinay anota todas as suas leituras para o doutorado no papel, por mais que seja craque em escrever suas newsletters digitalmente. O Bruno Mattos também escreve num caderno, mais especificamente num daqueles de brinde, com zero apelo estético. Enfim, cada um tem um caderno para uma finalidade, seja ela um hobby ou algo profissional. O caderninho é nosso amigo fiel na hora de organizar as ideias – ou de apenas anotá-las para não esquecer depois.

Eu decidi que, em 2020, vou manter um diário. Tanto para me incentivar a escrever mais à mão quanto para me incentivar a… escrever mais. Na verdade, comecei a colocar isso em prática já no final de 2019, e venho percebendo que a escrita diária está me fazendo muito bem. Primeiro porque, quanto mais eu escrever, melhor vou escrever. E segundo porque o hábito de fazer isso todo dia vai tirando minha preguiça de anotar as coisas assim que penso nelas e evita que eu as esqueça depois.

Comprei um bloco de folhas amarelas apenas para colocar no papel minhas ideias para textos no meu blog, o r.izze.nhas, ou aqui para o Posfácio. Ele fica na mesa de centro da minha sala, de alcance bem fácil. Porque um problema que tenho é a preguiça e o bloqueio acachapantes que não me deixam levantar e ir até a escrivaninha onde fica o computador. Abrir um doc no Word virou motivo de ansiedade, e não é raro eu procrastinar durante semanas um texto que quero/preciso escrever. Desde a aquisição desse bloquinho – e de uma caneta tinteira Lamy que foi meu sonho de consumo durante muito tempo –, escrever ficou muito mais fácil e… gostoso. De lá até aqui, já foram pelo menos três textos para o Posfácio e duas resenhas para o meu blog, sem falar em outras ideias de textos para outros sites.  

Esses dias a Angélica Freitas publicou no Jornal Cândido um texto sobre a importância dos cadernos. “O melhor conselho que já me deram: compre um caderno barato e escreva todos os dias no mesmo horário”, escreveu ela. Eu já estava com esse texto aqui matutando na minha cabeça, e depois de ler o dela tive ainda mais certeza de que é um assunto pertinente. Não só para escritores, como é o caso do público alvo do texto da Angélica, mas para qualquer pessoa que tenha vontade de escrever sobre qualquer coisa. Pode ser um poema, um conto, um comentário sobre o que você assistiu ou leu. Pode ser uma descrição confusa do seu sonho da noite passada ou uma entrada de diário bem no estilo História Sem Graça. Independente do conteúdo, o ato de escrever à mão em si será benéfico. Mas não falo aqui de benefícios clínicos, como melhorar sua memória ou desenvolver seu cérebro. Benéfico para você emocionalmente, por conseguir tirar da cabeça aquilo que está pesando e depositar isso em um caderno.

Pode sair um monte de merda, mas pode sair algum insight revelador ou até uma ficção que será apreciada por dois ou três leitores. Pode te dar uma dorzinha no pulso também, mas nada que uma fisioterapia não resolva depois. Enfim, deixo aqui a minha defesa dos caderninhos: sejam eles baratos como os da Angélica Fritas, brindes como os do Bruno Mattos ou estilosos como os que a maioria dos posfacianos usam. Qualquer caderno serve, o importante é escrever.


Taize Odelli, de Witmarsum (SC) para São Paulo (SP). É autora do blog rizzenhas.com e tem uma coluna na newsletter ADSC – Associação dos Sem Carisma. Tem três gatos e milita pela popularidade da capa de edredom.