Como diria Pabllo Vittar, hoje é um dia especial. Te dou um presente, você não viu nada igual! Completamos um mês de Adeus às Traças! Mês passado dois dos participantes desse reality show fizeram aniversário e a primeira grande dúvida surgiu: vale ler os presentes de aniversário ou só em 2021? Como Raq e Tuca estão lidando com essa responsa? Veja o que os participantes contam de suas experiências e de suas leituras durante esse período:

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Arthur Tertuliano

No último dia 14, fiz 33 anos. Fato curioso: era a idade que Cristo tinha quando morreu. Fato nada curioso: é possível relacionar minha educação religiosa a como me sinto com aniversários. 

Resumidamente, na igreja estudávamos desde pequenos sobre a origem de muitos feriados, como o Natal e a Páscoa. Para além de tudo que aprendi sobre paganismo, a tônica desses estudos era: não deveríamos ter um dia especial para pensar em Deus, pois todos os dias deveriam ser especiais igualmente. Qualquer um que viu Os incríveis sabe: That’s just another way of saying no one is [special]”. E era essa a minha abordagem para não ligar muito para aniversários.

Isso tem mudado nos últimos anos. Miseducation é uma palavra boa, pena ser inglesa; deseducação, por sua vez, é feia demais. Já passei Páscoa e Natal com a família de amigos e senti um calorzinho no peito, não nego. Também comecei a comemorar meus aniversários, mas ainda há resquícios do velho Tuca. Um deles: não leio os livros que ganho de aniversário. Não sei direito o que acontece: amo as sinopses, gosto de saber a razão de meus amigos terem escolhido aquele presente, as dedicatórias me fazem chorar, só não leio. Meu diploma em psicologia barata diz que é simples: nunca me sinto muito merecedor deles. 

Esse mês finalmente decidi abrir caminhos e quebrar correntes: tirei da estante The Essential Dykes To Watch Out For, de Alison Bechdel, presente que ganhei em 2015 e nunca tinha lido. Foi um presente certeiro do sr G: ele sabia que eu queria conhecer as tirinhas que tornaram famoso o Teste Bechdel, sabia que já gostava das graphic novels da autora e, caramba, a edição é belíssima, não tinha como resistir. Mesmo assim, não li na época. Em 2020, li 1/4 das 392 páginas e estou adorando.

O sr. G também se ofereceu para me ajudar a trapacear o Adeus às traças: “tem algum livro que você queira muito ler e não tenha?” Declinei da oferta. Mas achei justo começar com o hábito de ler meus presentes de aniversário: não estava esperando, mas ganhei duas histórias em quadrinhos e um livro infantil (gostosíssimo e inspirado no meu cabelo) e os devorei prontamente. Uma das HQs, inclusive, era uma adaptação de um romance que comprei e nunca li. 

A outra HQ, chamada O inescrito, desde já é uma das grandes descobertas do ano. Há algum tempo percebi que enjoei de romances com um quê metaliterário, sabe? O protagonista escritor torturado pelo bloqueio criativo, que no final estava escrevendo o livro que acabamos de ler; os leitores obcecados por uma obra-prima que só existe na ficção. Sei que os escritores não têm culpa do meu ranço (talvez tenham), mas cansei de livro bosta de quem não superou a pau-molice (se está com bloqueio criativo, aproveita e não publica) e de conhecer personagens que leem um livro apaixonante, livro este que o autor não teria capacidade de escrever.

Do que não estou falando: se eu enjoei dessas histórias, é porque eu costumava gostar delas. O bom foi descobrir que nem toda narrativa metaliterária nos deixa no escuro. Muitos escritores deixam que o leitor decida se a literatura citada na ficção vale mesmo a pena. Melhor do que imaginar um livro envolvente é escrevê-lo e deixar o leitor decidir se ele é bom mesmo. Atlas de nuvens, de David Mitchell, faz isso. Margaret Atwood, segundo relatos do sr. G, faz muito isso. E O inescrito segue essa linha. Se você gosta de As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (Michael Chabon), A história sem fim (Michael Ende) ou Carry On (Rainbow Rowell), dê um chance a esse quadrinho. 

Do que também não estou falando: eu poderia ler esses livros ainda esse ano? Como diria Molly Bloom, “sim eu disse sim eu quero Sim”. Porque: sim. Porque não comprei os livros. Porque estariam sujeitos à mesma comunidade de traças que passeia entre minhas prateleiras. Porque não desconsidero livros infantis e HQs nas minhas leituras. Porque esse ano me propus a fazer algo diferente, e isso me pareceu diferente o suficiente.

Parte da minha experiência com o Adeus às traças é de reencontrar livros parados na estante e me perguntar “por que não li isso antes?”. Mais surpreendente que receber os presentes foi perceber o quanto os três me comoveram e falaram fundo comigo. Ter lido tão rápido o que ganhei de presente me fez pensar: por que nunca fiz isso antes? O que mais não terei perdido esses anos todos?

Livros lidos: Um exu em Nova York, de Cidinha da Silva; Cabelo doido, de Neil Gaiman e Dave McKean;  Lugar nenhum, de Mike Carey e Glenn Fabry, adaptado do romance de Neil Gaiman; Meu ano de descanso e relaxamento, de Ottessa Moshfegh; Paper Girls v. 4, de Brian K. Vaughan e Cliff Chiang; O inescrito, de Mike Carey e Peter Gross; Veludo violento, de Natasha Tinet. Estou lendo: Controle, de Natalia Borges Polesso;  The Essential Dykes To Watch Out For, de Alison Bechdel. Livros que quis comprar: Realidades voláteis e vertigens radicais, de Dindi Coelho e diversos.

Daniel Falkemback

Um mês se passou e a experiência continua interessante. Ao contrário do que esperava, ando menos angustiado por não poder comprar livros — ou melhor, gastar o que não tenho neles. É claro que ainda não estamos numa época de muitos lançamentos, mas considero isso um avanço da minha parte.

Nesses dias, o maior peso foi por não adquirir no lançamento os livros de um amigo poeta, o Dimitri BR. Prometi que os pego emprestado de alguém ou compro em 2021. Pelo menos, no mesmo dia aproveitei a performance dele chamada Jukebox viva. Fica a recomendação para todo mundo ir atrás dos livros, da poesia e da música do Dimitri.

Por causa do nosso projeto, também me vejo mais implicante com as escolhas dos outros. Às vezes falo para meus amigos coisas como “sabia que esse livro tem na biblioteca?” ou “mas você já não tem bastante livro pra ler em casa?”, Acho que agir assim é um risco de todos que fazem uma mudança drástica na vida. Ir à academia, virar vegetariano, militar por um movimento social: o perigo de ser chato sempre está ali.

Nesse meio-tempo, todos nós do Adeus às Traças nos vemos com dúvidas específicas, compartilhadas em grupo, quase sempre referentes a atitudes que poderiam ser vistas como uma violação do jogo. Nessas horas, parece mesmo um reality show. Já que não temos uma produção de Big Brother para dizer para a gente o que fazer (ainda bem), deliberamos tudo em conjunto. Por exemplo, uma questão era a respeito de livros que nos fossem presenteados: eles podem ser lidos ainda neste ano? Alguns acharam melhor evitar; outros, não. E assim seguimos o ano.

Nas últimas semanas, as leituras estão mais lentas, em grande parte por estar bem ocupado. Mesmo assim, já li Gabriela, cravo e canela, do Jorge Amado, emprestado da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), como citei no post anterior. O romance é bem escrito, com um tipo de narrativa diferente de livros brasileiros mais recentes, principalmente na construção das personagens. A visão da sociedade de Ilhéus e do Brasil na República Velha é muito bem construída, mas um problema do livro é a representação das mulheres.

A leitura foi para um clube de amigos voltado para ganhadores do Prêmio Jabuti, e Gabriela foi escolhido por ter ganhado na categoria de romance na primeira edição, em 1959. Para o próximo encontro, a opção foi Novelas nada exemplares, do Dalton Trevisan, que recebeu o Jabuti em 1960 pela categoria de contos. Esse é outro livro que não tenho e vou pegar emprestado de uma biblioteca.

Além disso, também estou lendo Discoteca selvagem, da poeta argentina Cecilia Pavón, publicado em português em 2019 e mencionado em listas dos melhores do ano, como a do Suplemento Pernambuco Aliás, o título foi resenhado por Priscilla Campos para a mesma revista. Já de vez em quando, abro Guerra e paz, do Tolstói, que já tinha começado a ler. Como dá para ver, livros para 2020 não faltam.

Livros lidos: Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado. Estou lendo: Discoteca selvagem, de Cecilia Pavón; Guerra e paz, de Liev Tolstói. Livros que quis comprar: Karaokê e Jukebox, de Dimitri BR.

Raquel Toledo

Amo fazer aniversário e ganhar livros, mas confesso que este ano não amei tanto assim. Meus amigos aqui do Posfácio até me sacanearam e disseram que me dariam muito mais livros que o normal, o que seria um sonho absoluto, se eu não tivesse decidido no fim do ano passado que leria apenas livros que já tinha na estante. Ganhei exemplares belíssimos: Atwood, Lewis, Walser, Smith… Mas não me dei sequer o direito de abrir e ler as primeiras linhas, seguindo com rigidez capricorniana o limite que me impus aqui no projeto.

Confesso que nos dias que se seguiram ao meu aniversário não sofri tanto, porque engatei a leitura do último volume da Tetralogia Napolitana, da Elena Ferrante, e fui completamente sugada por ela. Sei que todo mundo já sabe, mas ainda vale dizer: como escreve bem a Ferrante! Pois bem, enquanto ainda existiam páginas a ser lidas, lidei bem com os novíssimos proibidões na estante. Mas depois que terminei a história de Lila e Lenu, fiquei meio órfã e não engatei nenhuma leitura que não fosse de trabalho/ estudo. E assim estou. Às vezes fico olhando para a pilha de livros-presentes e pensando que o antídoto para a minha ressaca literária bem que poderia ser livros novos. Ainda assim, sigo forte, determinada em achar aqui em casa algo que me ajude a superar o fim da Tetralogia (quem sabe a própria pilha de leituras-de-trabalho ajude, não é?).

Para terminar, passei alguns dias de janeiro no Uruguai, onde evitei livrarias (que abundam por lá, é incrível). Mas ganhei do Dario, meu marido, duas traduções para o espanhol de livros russos importantes. Considerei acervo de trabalho. E tenho dito! 😉

Estou lendo: Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch; Crime e castigo, de Fiódor Dostoievski; Prova: um momento privilegiado de estudo, não um acerto de contas, de Vasco Moretto. Livros que quis comprar: A menininha do Hotel Metropól: minha infância na Rússia comunista, de Liudimila Petruchevskaia; Mulherzinhas, Louisa May Alcott; Os filhos da rua Arbat, de Anatol Ribakov.

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