Namore alguém que

Namore alguém que lê, e quando esse alguém te indicar o livro favorito dele você não vai gostar e vai ficar climão. Pior, o mesmo vai acontecer quando você indicar o seu.

Namore alguém que goste de cinema, e quando esse alguém disser que adora os filmes de Godard você vai torcer a cara e falar que Antonioni é melhor. Mas todos sabem que Bergman pisa nos dois.

Namore alguém que deixe você sem ar, mas avise esse alguém se você tiver asma.

Leia mais

Cartas de Babel

Uma das citações a respeito de tradução da qual eu mais gosto, é uma da teórica feminista Gayatri Chakravorty Spivak, se não me engano de um ensaio entitulado The Politics of Translation, no qual ela escreve que a tradução é o mais íntimo dos atos de leitura, de que ela se rende ao texto quando traduz. O texto, aliás, apesar de carregado em teoria (ou por causa disso) é um dos escritos mais bonitos que já li sobre tradução, prosseguindo com considerações a respeito de a tarefa do tradutor ser a de facilitar o amor entre o original e sua sombra.

Outra conclusão a respeito de tradução que me é especialmente cara é bem anterior: o prefácio do editor na primeira edição da tradução para o inglês da Talmude Babilônica, feita por Michael L. Rodkinson (de 1901): “Translation! That’s the sole secret of defense!”. Leia mais

Acendi

Acendi este cigarro após parar com o tabagismo durante três longos anos. Nem mesmo bêbado traguei tão rápido quanto dessa vez. Não senti tal velocidade. O tempo parou e aquela cortina de fumaça, paralisada no ar, fez o gesto de uma mão e me arrancou todos os pensamentos. Um instante como aqueles, durante uma conversa, em que você olha estático para um ponto qualquer – no qual a alma se desprende do corpo para passear. O fio da meada perdido por uns instantes eternos e efêmeros. Leia mais

Qual o seu livro favorito de todos os tempos?

O que seria pior: uma criança te perguntar de onde vêm os bebês ou qual o seu livro favorito? Não estou falando da dimensão ou da importância da pergunta, mas da reação de quando somos pegos de surpresa por uma pergunta inesperada.

Fiz esse teste via Facebook – sob o risco de ser bloqueado por mandar a mesma mensagem para múltiplos recipientes – para ver como as pessoas reagiriam a uma pergunta enviada fora de contexto. Os alvos escolhidos foram meus últimos contatos na famigerada inbox. O que resultou está abaixo: Leia mais

Wait for it

No seriado How I met your mother, certo personagem costumava enfatizar seu entusiasmo por algo por meio de pausas dramáticas: não bastava Barney dizer que algo seria “legendary” (lendário, em tradução livre), era necessário separar a palavra em duas partes e fazer o interlocutor esperar pela segunda: “legen – wait for it – dary!”. Nove temporadas foram suficientes para explorar um número impressionante de variações sobre o tema, a maior delas quando tivemos de esperar pelo começo da terceira temporada para se completar uma palavra iniciada na conclusão do episódio final da segunda.

Esse tipo de espera tornou-se a companheira inseparável de muitos leitores de YA, em especial para os que anseiam ver seus livros favoritos adaptados para o cinema. Harry Potter lançou tendência e hoje parece ter se tornado impensável que o último volume de uma série dê origem a apenas um filme: Crepúsculo, Jogos Vorazes e Divergente seguem a moda do bruxinho. A espera entre as duas partes do filme geralmente é de um ano. Leia mais

A sós

Semana passada resolvi jantar sozinho. Não cogitei chamar ninguém, de verdade. Há mais de cinco anos eu não realizava tal ritual, se é que posso chamar assim, e essa tem sido uma das escolhas mais acertadas dos últimos meses. Sei que parece uma espécie de isolamento do mundo. Longe disso. É uma forma que encontrei para fazer as pazes com meus próprios pensamentos – o que é irônico pois cada vez mais ouço o quanto tenho uma contração no rosto que denuncia quando penso demais e, pior, tenho essa péssima mania de perder o fio da meada conversando com pessoas e sozinho também.

Escolhi um bistrô perto de casa com luz baixa, geralmente bastante movimentado, e pedi o prato de sempre, o vinho de sempre e me pus a permanecer em silêncio e tentei evitar ao máximo observar as pessoas fixamente – jamais negarei o quanto eu gosto de fazer isso, mas talvez seja um assunto para outro dia. Passei por diversas fases de inanição, de olhar fixamente para um ponto nada interessante até fazer os movimentos inconscientes de mexer na taça para ver o vinho “chorar” ou cutucar meu garfo sem uso até então. Em outros tempos eu levaria um livro para me acompanhar e me distrair antes do prato chegar. Dessa vez foi diferente, eu não queria uma distração, um disfarce para mostrar que gostaria de estar sozinho. Leia mais

Cartas de Babel

Se existe algo que se assemelhe a um mito fundador da tradução é a história da Torre de Babel: a menção bíblica a uma torre que foi construída tão alta que D’us resolveu não permitir que fosse completada, descendo para confundir os idiomas humanos – que, até então, falavam todos uma só língua. Existem inúmeras fontes e adendos para história, em tratados exegéticos rabínicos, em livros bíblicos apócrifos e até mesmo algumas versões distintas em fontes islâmicas.

No livro do Gênesis a história é mencionada muito brevemente, em uns poucos versículos, mas nessas outras fontes fica bastante claro que a construção dessa torre (possivelmente uma zigurate) tinha o objetivo de desafiar D’us. Leia mais

Não toca

O telefone não toca mais. Não toca. Você espera ansioso, aflito, mas lânguido. Pronto para dar um salto de um susto anunciado. Mas ele não toca. Desliga a campainha para sentir apenas a vibração, mas não vibra, não acende, não pisca. O telefone está intacto, você, paralisado. As pernas repuxam de fadiga, estão se movimento para cima e para baixo – inquietas – e o telefone não toca. Repassa e questiona o que disse anteriormente, se fora rude ou amável, se escolheu cada palavra de forma correta para construir sentenças, ora memoráveis, ora vulneráveis e todas com uma única vontade – maior e mais intensa do que a vontade de que o telefone toca. Mas ele não vai tocar. Você sabe disso. Quer acreditar nisso. Quer se negar a aceitar que, talvez em dado momento, ele te surpreenda de verdade e toque. Você se distrai com lembranças aleatórias e rememora sorrisos. Leia mais

Te leio, te furo

Esqueça.

Sim, esqueça.

O que você aprendeu com Sibila Trelawney e suas borras de café nas aulas vespertinas de Hogwarts, a dedução aguçada de Sherlock para descobrir como um sujeito se barbeia à luz da lua. Simplesmente esqueça a cartomante de Assis ou Lispector. A quiromancia tradicional de séculos. Esqueça o terapeuta de 250 reais por sessão. Você não é Tony Soprano.Uma barata não será tua guia espiritual. E esqueça porque não vou aconselhá-lo a olhar para dentro de si para encontrar a si mesmo e o que fazer com o seu futuro. Muito menos encarar olhos nos olhos no espelho e descobrir que eles não têm fim.

Leia mais

#leiascifi2015

Você já pode tê-la lido em uma ou outra coluna minha, em um ou outro comentário aqui no Posfácio. Pode ser que você a tenha visto no meio de uma lista da Taize, em legendas da Simone no Instagram, no Twitter ou na página de uma editora no Facebook. Há alguns meses venho brincando com a ideia do #leiascifi20151. Hoje foi o dia escolhido para seu lançamento oficial.

Resumidamente, venho por meio desta informar que, em 2015, já me comprometi a ler ficção científica. Serão pelo menos 12 livros, um para cada mês do ano: uma quantidade que, suponho, devo dar conta2. Leia mais

  1. Uma das inspirações é clara: o #leiamulheres2014 – projeto que acompanhei e que algumas pessoas estenderam para 2015.
  2. Com muito menos – apenas um título – você já começa a participar do Desafio do Livrada, do meu brother Yuri.

Eles só veem camelos: o colonialismo na ficção

Imagino o que diriam os marcianos se pudessem ter acesso a tudo o que foi escrito a seu respeito nos livros de ficção científica. Provavelmente discordariam de Edgar Rice Burroughs, se não ao todo, ao menos quanto à “raça verde” que aparece nos relatos de John Carter como um conjunto de selvagens sem cultura nem arte. Aposto também que nossos vizinhos se ofenderiam com as frequentes insinuações, desde H. G. Wells e Olaf Stapledon, de que pretendem invadir a Terra (vamos concordar que o contrário seria muito mais provável). Os marcianos, coitados, são grandes incompreendidos da literatura.

Leia mais

Menos livros, mais leituras

Aprecio o primeiro mês de cada ano. Mas não sou o tipo de pessoa que aproveita a época para fazer um plano de promessas a serem cumpridas. Gosto de pensar que tenho 12 meses à disposição para todas as novas ideias que quiser ou precisar executar.

Para 2015, no entanto, abri duas exceções. A primeira promessa que fiz foi voltar a escrever com regularidade a minha coluna no Posfácio (Oi, pessoas queridas!). E a segunda, relacionada aos meus livros, ocorreu mais por constatação e necessidade. Descobri, após um breve levantamento, que li 30 livros em 2014. Uma boa média, considerando minhas atividades maternas e profissionais. O que me assustou foi que percebi que, das três dezenas, apenas sete (7!!) foram livros impressos. O restante foi lido no Kindle. Isso me levou a outra descoberta: 2014 deve ter sido o ano em que comprei menos livros físicos nos últimos 20 anos (contrariando algumas pesquisas que apontaram queda na venda de livros digitais e preferência pelos impressos). Comprei apenas três livros no ano passado (não estou considerando nesta conta os livros ganhos – ganhei bastante coisa, fator que também deve ter contribuído para a diminuição nas compras). Leia mais