50 Anos do Golpe – Sugestões de leitura (Parte I)

No intuito de lembrar os 50 anos do golpe militar (lembrar para que não nos esqueçamos), selecionei algumas obras de literatura que podem servir como porta de entrada para compreender diferentes aspectos, situações e eventos referentes não só ao golpe em si, mas à realidade histórica que ele instaurou. Apesar disso, o critério é o pessoal, já que os livros aqui listados não compartilham entre si senão alguns pontos de intersecção, que variam de obra a obra e de escritor a escritor. Desde livros que tratam de histórias aparentemente específicas em sua individualidade (como Um copo de cólera) até livros que tratam abertamente dos eventos políticos (como O ato e o fato), de livros de ficção até crônica jornalística, a seleção se justifica no pequeno texto que acompanha cada indicação.

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Melhores Leituras 2013 – II

Como manda o ritual da lista de Melhores Leituras, post anual do Posfácio, a segunda parte é toda protagonizada por nossos colaboradores, redatores e colunistas. Seguindo a mesma regra feita para os convidados, não temos restrições com títulos do ano vigente, tampouco de gênero.

Espero que gostem das indicações e continuem acompanhando o Posfácio para conhecerem um pouco mais das leituras de 2014 através das resenhas de nossa equipe.

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Melhores Leituras 2013

Ilustração: Bô Brega

Ilustração: Bô Brega

Tradição é tradição e vice-versa. Por isso, o Posfácio não poderia deixar de lado a sua mais antiga, e intacta, vejam bem, tradição.

Ao final de cada ano no calendário gregoriano, nossa equipe entra em contato com escritores, jornalistas, tradutores e entusiastas da literatura para saber: “Qual o melhor livro que você leu esse ano?”. O regulamento não é dos mais rígidos, vale ficção, não ficção, autoajuda, infantojuvenil e HQ’s, tampouco nos interessa o ano de lançamento. Não queremos somente lançamentos, queremos saber aquela que marcou e foi considerada a melhor leitura de 2013.

Nesta primeira parte, vocês conferem o que nossos convidados leram durante o ano: Leia mais

Um mundo de baiacus lá fora

Não é comum encontrarmos histórias em que o protagonista seja um velhinho meio ranzinza e antissocial, como o Otto de Noites de Alface. Ranzinza e antissocial, sim, mas simpático. Mesmo depois da morte da esposa, Otto não pede consolo aos vizinhos – nem aos leitores, o que no entanto de nada adianta para conter nossa vontade de nos insinuarmos para descobrir, despistadamente, a quantas anda. Aprovamos quando ele deixa que Nico, o enciclopedista das bulas, entre na casa amarela, e fazemos que sim com a cabeça quando ele decide atravessar até a casa de Teresa para lhe entregar a carta extraviada. Afinal, nos envolvemos nesse suspense que percorre o livro desde a primeira página: Otto se recupera do luto?

Não é comum também encontrarmos pessoas como Otto na vida real. De acordo com os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, existem no Brasil, entre os viúvos, quase cinco mulheres para cada homem. O padrão se repete em outros países: são sempre mais raros os casos de homens vivendo sozinhos depois de perderem a esposa. As causas dessa disparidade são conhecidas: as mulheres vivem mais, casam-se em média com homens mais velhos e têm uma menor tendência a se unirem novamente em matrimônio. Mas apesar da menor quantidade absoluta de velhinhos viúvos, pesquisas feitas na Europa e nos EUA apontam para um fato inesperado em relação à viuvez: os homens sofrem mais.1

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  1. Stroebe, M., Stroebe, W., & Schut, H. (2001). Gender differences in adjustment to bereavement: An empirical and theoretical review.

5 formas criativas de fazer um bom romance durar mais

Uma verdade incontestável: tudo que é bom dura pouco. Sim, eu sei que Longe da árvore – aquele calhamaço maravilhoso de 1056 páginas, escrito por Andrew Solomon – vai demorar horrores para ser lido, mas o fato é que toda boa leitura parece durar menos do que deveria.

Mesmo Guerra e paz dura pouco.

Mesmo Cloud Atlas dura pouco.

Mesmo Ulysses… peraí, não vamos exagerar. Leia mais

Como você tempera a sua alface?

Gosto dessas resenhas longas-mas-cheias-de-subdivisões porque você pode ler um pouco e deixar para ler o resto depois (e se lembrar de onde parou), ou escolher só ler uma parte ou ler na ordem de tamanho dos parágrafos ou preferir ler todas as notas de rodapé antes de tudo para então decidir por onde começar ou, no caso, só ler a seção intitulada com a maneira de sua preferência para temperar alface.

Um mundo de decisões a serem feitas, pequeno gafanhoto. Como um imenso buffet de saladas. Leia mais

Posfácio na IX Fliporto – O jogo da vida e do amor

O clássico seria prestigiar Ana Maria Machado. O cult seria assistir a uma entrevista de Zygmunt Bauman. Mas como a cobertura posfaciana da Fliporto estava num clima “gente como a gente”, decidi que seria de bom tom comparecer à última mesa do Congresso Literário do sábado, terceiro dia do evento. Nela, Maitê Proença e Francisco Azevedo foram chamados para conversar sobre o tema “O jogo da vida e do amor: as crônicas e as narrativas do que somos e sonhamos”. O nome da atriz e escritora pareceu atrair o público: segundo a assessoria de imprensa da Festa, em informativo que ressalta o recorde de público do evento, 1 a mesa em questão foi um dos destaques no quesito ocupação de cadeiras, ao lado de Pilar del Río e Laurentino Gomes. Leia mais

  1. A Fliporto conta com uma programação paralela ao Congresso Literário com tantas opções que eu não daria conta de conferir sozinho

Posfácio na IX Fliporto – Literatura: qual é o jogo?

E a cobertura posfaciana da Fliporto se inicia já no segundo dia do evento. No dia inaugural, a conferência de abertura com Pilar del Río, essa fofa que já nos concedeu uma entrevista bastante visitada, foi devidamente trocada por outra coisa iniciada com P: Porto de Galinhas. Como não só de literatura vive o homem e como mais interessante deve ser ler Saramago do que ouvir a esposa dele, creio que foi uma troca justa.

Às 14h dessa sexta-feira, 15 de novembro de 2013, iniciou-se o papo do Congresso Literário da Fliporto com os escritores Robert Löhr e Ignacio del Valle e o tradutor e ficcionista Ioram Melcer, com mediação de Cristhiano Aguiar – sim, aquele da famigerada edição da Granta dedicada aos melhores jovens escritores brasileiros (o conto dele, “Teresa”, foi debatido por este portentoso veículo de comunicação). O tema da conversa (a saber, “Literatura: qual é o jogo? De Julio Cortázar ao jogo de xadrez e do romance policial ao que vier na memória”) interessou-me e foi assim que decidi cair de paraquedas justo nesse horário, uma vez que não conhecia a obra de nenhum deles. 1 Ignacio del Valle pareceu-me ser o equivalente da Fliporto do que foi o Laurent Binet na Flip deste ano, com seu protagonista contraditório (um anti-herói, como sói à literatura contemporânea), com a presença de Hitler, com seu desejo de fazer uma história da violência. Robert Löhr, por sua vez, ainda que tenha falado relativamente pouco sobre A máquina de xadrez, 2 conseguiu fazer com que eu pesquisasse se seu livro está disponível na biblioteca pública que frequento. 3 Leia mais

  1. Aparentemente não há tradução brasileira para del Valle, muito menos para Melcer, mais conhecido por seu trabalho de tradução para o hebraico do Jogo da amarelinha do Cortázar, cuja publicação foi qualificada como “o evento cultural mais importante de Israel em 2013”. Já Löhr teve seus A máquina de xadrez e A manobra do rei dos elfos, publicados pela Record.
  2. Que deve ter sido muito bem vendido, haja vista ter sido republicado em uma edição de bolso, sempre um bom indicativo do sucesso de vendas.
  3. Tem! Yey!

A literatura argentina e as editoras independentes

Pra quem já sabe, existem filmes insatisfatórios realizados com a obra de Ernesto Sábato, Jorge Luis Borges e Aldofo Bioy Casares, os quais apesar disso são os escritores argentinos mais reconhecidos no estrangeiro – vale a pena dedicar horas de estudo aos seus livros na mesma proporção que não vale nada procurar por esses filmes. Com a presença do pop literário, a época da televisão marcou os anos dourados para os autores argentinos que conseguiram vender seus livros, e depois levaram ao cinema as novas versões enlutadas das suas obras, em alguns casos não só em filmes de baixa qualidade que pretendiam chegar à grande audiência, senão também com aquelas estrelas das novelas que faziam sucesso na época.

Não era bom continuar assim. O cinema argentino, ainda uruguaio, humilde como o Mujica, deixava ouvir um colectivo passando do lado de fora para abafar as vozes dos atores, e com a intenção de transmitir algo poético. Manuel Puig foi um caso excepcional (e um ícone do pop) com O beijo da mulher aranha, romance levado ao cinema por Héctor Babenco, um argentino naturalizado brasileiro. Leia mais

O mundo dos pesadelos de Lovecraft – Parte II

por Humberto Schubert Coelho

[para ler a primeira parte do artigo, clique aqui]

Quanto às obras, podemos entender Lovecraft como um autor de fases. A primeira delas é fortemente dependente de Poe e engloba temas de suspense (levemente) sobrenatural, e que podemos classificar como contos de terror não-cutulhóide e não-onírico. A esta fase pertencem clássicos como The Tomb e The Picture in the House, estórias não muito envolventes como Haunted, e já algumas obras inesquecíveis como The Statement of Randolph Carter, que aos poucos conquista o leitor para o clima específico do terror lovecraftiano, ou The Nameless City, que foi tão explicitamente copiado por Robert Howard em alguns dos contos mais conhecidos de Conan que os fãs reconhecem unanimemente o mesmo cenário compartilhado por distintos personagens. Em não poucas ocasiões após esta primeira fase Lovecraft se refere à era Hiboriana como o passado real e esquecido que originou suas cidades recém-descobertas sob as areias do deserto árabe nos anos 1920.

Logo a seguir entramos na fase plenamente cutulhóide, termo estabelecido por consenso em referência ao clássico The Call of Cthulhu, posteriormente popularizado em jogos de tabuleiro e de interpretação de personagens. Leia mais

O mundo dos pesadelos de Lovecraft

por Humberto Schubert Coelho

Para os jogadores de roleplaying games Lovecraft é o criador de Cthulhu. Para os fãs de Sidney Sheldon é o grande inspirador de seu autor favorito. Para a geração de escritores de estórias fantásticas da primeira metade do século XX é a figura mais original do século. E para o leitor de hoje, infelizmente, o criador do gênero horror cósmico já não desponta como fenômeno diferenciado ou digno de nota frente a inúmeros outros escritores hoje aclamados como Somerset Maugham, Bulgákov, James Joyce, Machado de Assis, Thomas Mann ou até mesmo seu amigo mais popular, Robert Howard. Embora cada um destes autores tenha se assemelhado a Lovecraft em certo sentido, embalados pela época que viu o nascimento da psicologia ao lado de um surto de espiritualismo místico, todos eles souberam moderar suas paixões oníricas o bastante para que se adequassem ainda a uma sociedade que mantinha certos “limites”, ou ainda – uma interpretação que sinceramente prefiro – não mergulharam tão profundamente nos mistérios da mente subliminar a ponto de perderem a quota suficiente de sanidade e juízo que é cobrada para cruzar o pórtico da terra dos sonhos e pesadelos. Leia mais

Nossas apostas para o Nobel 2013

Nos últimos 4 anos, Tiago Guilherme Pinheiro e Luciano R. M. deram seus palpites sobre o Nobel de Literatura para nós e os leitores. Sem focar apenas em adivinhar, eles apontam quem seriam seus indicados pelo conjunto da obra e pela relevância dentro do cenário atual da literatura.

Este ano o prêmio será divulgado na próxima quinta-feira (10/10).

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Tiago: Bom, apesar do atraso, acho que não tenho jeito melhor de começar: num ano em que Putin é cotado para o Nobel da Paz, e, tendo em vista que o Obama já ganhou o dele, isso nem parece mais uma incoerência, o que devemos esperar do de Literatura?

Luciano: Pergunta cabeluda. Mas, acho que o Nobel tem jogado com umas coisas estranhas. Obama ter ganho o Nobel da Paz. Putin como possível… Ok que a Academia Sueca não tem relação com o prêmio da Paz, mas acho que Mo Yan se encaixa no mesmo padrão curioso: uma decisão no mínimo inusitada, que parece pensar em alguma potencialidade não muito clara (lembrando toda a controvérsia política que envolve o laureado do ano passado, essa qualquer coisa não muito clara sobre o lugar que ele ocupa na cena literária chinesa). Quiçá, então, haja uma continuidade dessa linha. Leia mais