Das indulgências com Kundera

Nas resenhas em que falei sobre livros de Milan Kundera, o tom elogioso sempre se sobressaiu na análise, e devo dizer que minhas experiências de leitura do escritor tcheco costumam ser prazerosas – embora não num sentido tradicional de prazer. O ângulo a partir do qual Kundera enxerga a vida, os homens e o mundo é bastante singular, e foca alguns aspectos da existência que o escritor trata de modo a desequilibrar certos sensos comuns, certas assumptions que, de tão banalizadas, tomamos como naturais e imutáveis. Daí seu interesse: proporcionar perspectivas novas para coisas antigas.

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Tempos Difíceis

É muito provável que nenhum escritor tenha criado um acervo tão grande de histórias tristes e personagens detestáveis quanto Charles Dickens. Antes de abrir um livro dele é preciso se preparar para órfãos mal tratados, amores trágicos e a certeza de que nada, nunca, realmente acaba bem.

É possível que um menino pobre torne-se rico, mas perderá seu grande amor. Ou que um órfão seja adotado por um benfeitor amável, mas uma garota de 17 anos precisou morrer para isso. Em Tempos difíceis, a protagonista pode encontrar afeto e livrar-se de sua mente perturbada, mas perderá o irmão e o homem por quem se apaixonou, e presenciará a morte de um homem bom e honesto.

Contudo, talvez esse seja um dos romances menos trágicos de Dickens. Ao contrário de livros como David Copperfield e Grandes esperanças, sua história não se espalha por anos e ele não conta sobre o amadurecimento de um personagem. Tempos difíceis tem seu tempo e espaço concentrados e parece mais uma crítica de costumes, a exemplo de Uma canção de Natal.

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Impressões sobre a poesia de W. H. Auden

O britânico W. H. Auden é sempre referido como um dos grandes nomes da poesia do século XX, porém acredito ser desconhecido ainda em terras brasileiras. O motivo é o mesmo pelo qual a maioria dos autores não é lido por aqui: falta de tradução ou de edição. Auden, no caso, é mais facilmente acesso pelo volume bilíngue de poemas editado pela Companhia das Letras, de tradução conjunta de José Paulo Paes e João Moura Jr. Trata-se de uma recolha interessante para conhecer um poeta em suas diversas facetas, poeta que oscilou tantas vezes de interesses quanto de maneiras de se comportar diante dos fatos da vida.

Em termos históricos, Auden viveu em uma época particularmente interessante, de muitas atribulações para a Europa. Além disso, nunca se portou como um cidadão estritamente europeu, já que viveu e passou por diversos países, sempre atuando de forma enfática no contexto local. Nascido em 1907, Auden se mudou para Berlim em plena República de Weimar, a fim de fugir da Inglaterra conservadora. Também atuou no lado republicano da Guerra Civil Espanhola e viajou pelo Extremo Oriente antes de se exilar nos Estados Unidos em fuga da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso sempre acompanhado do também escritor Christopher Isherwood, seu amigo e eventual amante. Toda essa experiência de vida, é claro, é fundamental para entender as variações na matéria de sua poesia. Leia mais

Santa Strauss

“Não é todos os dias que o etnólogo encontra uma ocasião tão propícia para observar, em sua própria sociedade, o crescimento súbito de um rito, e até de um culto. – p. 11”

O Natal já passou, mas, de fato, continua entre nós, um espectro que marca o calendário anual como horizonte a ser conquistado, em meio a enxurrada de comemorações cristãs que pululam por todo o ano. Por isso, ainda vem a calhar um pequeno texto do renomado antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos pilares do estruturalismo e pai da antropologia uspiana, que traz de forma sucinta e didática uma nova perspectiva à celebração natalina e à figura do Papai Noel. Leia mais

Paradiso latino-americano

Cotejar uma obra literária que é tida como a maior expressão do barroco latino-americano é uma tarefa que exige um fôlego de análise distinto, pois faz-se necessário ir além daquilo que caracteriza o barroco “somente” enquanto expressão estética. É preciso penetrar (ainda que num escopo talvez pouco ambicioso dada a envergadura do livro em questão) nos sentidos históricos e, quiçá, filosóficos de uma tal empreitada literária.

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A dama do lago e seu caval(h)eiro

Em uma resenha anterior, na qual falei sobre O longo adeus, comentei que Philip Marlowe é um dos detetives mais conhecidos da literatura e, também, que seu método de investigação, no que concerne a entrevistar os suspeitos, talvez seja sua grande marca no que tange à literatura policial. A capacidade de, numa conversa, fazer uma incoerência, uma inexatidão ou uma mentira vir à tona é algo realmente digno de nota nesse personagem, e o esmero de Raymond Chandler em aguçar as conversas e dar a todas as falas entrelinhas acusatórias, agressivas ou sarcásticas é o que torna cada diálogo de seus livros algo muito divertido.

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Pagu para além da vida e obra

Em termos de lançamentos literários, acredito que 2014 foi um ano realmente peculiar. A preocupação com a reedição parece começar a crescer no meio editorial brasileiro, ainda que tenhamos muitas obras (mesmo!) fora do mercado há décadas, limitadas a exemplares por vezes caros demais nos sebos. Felizmente, como disse, 2014 trouxe algumas reedições pelas quais, pessoalmente, nem esperava mais, como Pagu: vida-obra, de Augusto de Campos, lançada recentemente pela Companhia das Letras.

Patrícia Galvão, de apelido Pagu (apenas um de seus apelidos e pseudônimos), poderia ser um nome natural aos ouvidos dos brasileiros, ao menos dos que leem mais literatura nacional, mas nem sempre é. Participante do movimento modernista em São Paulo desde seus primeiros tempos, apesar da diferença de idade em relação à geração, ela se destaca para mim por duas razões básicas: pela atuação fortemente crítica e política e, sim, pelo fato de ser mulher e querer ser reconhecida como tal. Por isso, Pagu deve ser compreendida por inteiro, para além de uma mera cronologia de acontecimentos ou de uma bibliografia comentada. Pagu é muito além disso. Leia mais

Dos livros que estão para chegar: Station Eleven

Station Eleven contém um cenário pós-apocalíptico. Pronto, está dito. E ficam perdoados os leitores impulsivos que abandonaram a resenha e foram à procura de um tema menos em voga. Afinal, poderíamos nos perguntar se, entre A Estrada e Jogos Vorazes, já não se andou falando o bastante sobre o fim da civilização. Obviamente, Emily St. John Mandel responderia com um bem enunciado “não”. E poderia ainda levantar seu livro e dizer, sem modéstia, “eis a prova”.

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Tempo humano, tempo onírico, tempo físico

Não há dúvida quanto ao fato de o tempo ser um dos mais misteriosos, elementares e desconcertantes fenômenos da realidade. E isso pensando tanto na física e nas ciências naturais, tentando entender o que é o tempo enquanto fenômeno quantificável e qualitativo; quanto na História (e em outras medidas nas ciências humanas em geral), para a qual a passagem do tempo é uma grandeza humana e um processo fundamental.

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Szymborska e a poesia simples

Desde a premiação do Nobel de 1996, a poeta polonesa Wisława Szymborska (1923-2012) passou a figurar entre as prateleiras das livrarias mundo afora, porém é fato que ela já era reconhecida e muito em seu país há décadas. Por todas essas décadas, desde 1952, a poeta publica livros de poesia e ocasionais ensaios críticos em número muito menor. Observe-se a data: o primeiro livro sai em 1952, apenas sete anos após o final da Segunda Guerra Mundial. Além disso, Szymborska tinha somente 29 anos à época, ou seja, sua juventude foi marcada pelo conflito europeu, que, como se sabe, afetou a Polônia de modo brutal. Não se trata de biografismo: tudo isso aparece claramente em sua poesia, motivo talvez pelo qual ela tenha sido tão lida.

Para além do fator histórico, a leitura dos poemas da poeta polonesa também atrai a muitos por sua “simplicidade” sempre enfatizada pela crítica, inclusive a estrangeira, afinal Szymborska é traduzida para o inglês desde 1981. Mas o que seria uma “poesia simples”? Como a criação poética de uma mulher que desde jovem passou por tantas reviravoltas em sua vida pode ser “simples”?

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O longo adeus e as credenciais de Marlowe

É interessante notar como o romance policial (o romance detetivesco, de mistério ou de investigação) tem sido responsável pela criação de uma galeria de personagens antológicos. O mais conhecido deles é certamente Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle. Mas podemos colocar nesse rol também Hercule Poirot, o afetado investigador criado por Agatha Christie (dessa autora, aliás, talvez pudéssemos incluir Miss Marple, a simpática velhinha que resolve intrincados crimes) e também o investigador Jules Maigret, criado por Georges Simenon. Quem sabe as próprias premissas ou a estrutura dos romances policiais acolha bem a exploração mais aprofundada de um dos eixos centrais da história: o personagem que investiga os crimes ou mistérios, permitindo que eles ganhem feições mais bem delineadas, personalidades mais bem esculpidas e um conjunto de cacoetes, trejeitos e costumes essenciais para o desenvolvimento de sua persona.

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Amor e linguagem em Roland Barthes

O amor é um sentimento verborrágico: amantes se desmancham em juras infinitas, elogios desmesurados e declarações repetidas. Histórias de amor são talvez as mais frequentes e mais permanentes da história da literatura. O amor se expressa em fórmulas; “eu te amo” é um arranjo que não admite variações. Seria possível, então, mapear a expressão do amor ao longo do tempo? O que isso nos diria sobre o amor em si?

Em Fragmentos de um discurso amoroso, Barthes não assume como tarefa analisar o amor, mas a forma como ele se expressa e a cristalização do discurso a respeito dele. Desde Shakespeare até Proust, o autor identifica os diversos clichês pelos quais os amantes se expressam tomando exemplos de clássicos da literatura e da filosofia.

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