As lições de Alice Munro

Os contos de Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, da escritora canadense Alice Munro, abordam, na maioria dos casos, um curto período da vida de uma pessoa comum. Quase sempre é uma mulher. Muitas vezes ela se dedica ao lar e ao marido, ainda que o companheiro faça o antigo estilo sou-homem-não-tenho-sentimentos (pode ser, também, que tenha aderido à onda hippie, o que nem sempre se traduz num relacionamento mais cúmplice). São histórias, enfim, do cotidiano canadense do último meio século. E no entanto, apesar da preferência por figuras simples e locais, a obra de Munro se distingue pela universalidade.

A princípio, pode parecer que o alcance dos seus personagens vem sobretudo da facilidade da escritora em recriar perfis psicológicos. De fato, é impressionante observar que bastam alguns parágrafos para que o leitor entenda quem são as pessoas envolvidas na trama, quais são suas preocupações, quais os conflitos de interesses entre elas, em que proporção de forças se encontram etc. Para fins de comparação, entendam-se duas ou três páginas de Munro como equivalentes a dez de um romance comum em termos de ambientação.

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José Luís Peixoto dentro e fora da Coreia do Norte

Às vezes, na vida, uma obsessão particular pode nos fazer tomar decisões que assustam os outros, mas que são necessárias para nos satisfazer de algum modo. É o que fez José Luís Peixoto em 2012: “Propus-me a ir à Coreia do Norte e fui”. Dito assim, de modo bem português. O jovem escritor de Galveias, pequena cidade no Alentejo, fascinado a seu modo por regimes totalitários (mas sem concordar com suas políticas), decidiu se juntar a uma excursão para passar cerca de duas semanas no país conhecido por ser o mais fechado do mundo. E ainda escreveu sobre a experiência.

Dentro do segredo, lançado em 2012 em Portugal, é a memória do autor desses poucos dias em território norte-coreano, que foram vividos de uma maneira que poucos de nós, ocidentais, podemos imaginar. O regime fundado por Kim Il-sung, o “grande líder”, em 1948, pela criação da República Democrática Popular da Coreia, se mantém mesmo após sua morte. A chamada “ideia Juche”, baseada no culto à personalidade de Kim Il-sung e seus sucessores, bem como no militarismo extremado, é a responsável pela manutenção do Estado norte-coreano sob essas condições. Todas as decisões tomadas pelo governo são, de certo modo, secretas, até mesmo para a população do país. Daí o mistério todo que Peixoto decidiu enfrentar.

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Meninas, princesas e feministas

por Letícia Simoni Junqueira

Sexta-feira é o dia em que as crianças podem ir sem uniforme pra escola. Os meninos vão vestidos como crianças normais, as meninas vão vestidas de princesa. Sempre. Não com uma roupa genérica “de menina bonita”, não. Uma fantasia. E são chamadas de princesa. Princesinha.

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A identidade de gênero de Hemingway

Ernest Hemingway é um daqueles escritores lendários. Prêmio Pulitzer em 1953 e Nobel de Literatura em 1954, é parte fundamental do cânone literário, tanto no âmbito da língua inglesa, quanto em âmbito universal. Tão (ou mais) marcante quanto sua literatura foi sua biografia: dirigiu uma ambulância da Cruz Vermelha durante a Primeira Guerra Mundial, viveu junto a outros escritores americanos expatriados em Paris (a famigerada Geração Perdida, descrita por Gertrud Stein), lutou pelos republicanos na Guerra Civil Espanhola e, após a derrota, mudou-se para Cuba. Em 1961 deu cabo de si mesmo com um rifle de caça.

Não obstante, não é um autor que pertence ao meu cânone pessoal. Li, já há alguns anos, O velho e o mar  a obra que lhe rendeu os prêmios todos  e um pedaço de Death in the Afternoon. Até há pouco, era só. Conhecia um pouco a partir de leituras que faziam referência a sua vida ou obra, especialmente os textos e entrevistas de sua filha Gloria. Esses dias, porém, em meio a uma indecisão profunda no tocante ao que ler, puxei O Sol também se levanta quase que aleatoriamente da prateleira. Leia mais

Um artista às avessas

Há muitos livros que, apesar de uma acolhida intensa por parte do público em um primeiro momento, logo depois caem no esquecimento ou não vão muito além das terras onde foram lançados. Infelizmente, acredito ser este o caso de Às avessas (À rebours), lançado em 1884, por Joris-Karl Huysmans. Trata-se de um romance que, em especial para nós, brasileiros, figura na história literária, mas que nem sempre é lido com entusiasmo. Para a maioria dos leitores, acredito que simplesmente é um título desconhecido. José Paulo Paes, um dos poetas-tradutores mais ativos de nossa história, foi o responsável por apresentá-lo ao público de língua portuguesa ao lançar sua tradução, em 1987, pela Companhia das Letras, que o reeditou neste ano de 2014.

Apesar de chamarmos Às avessas de “romance”, essa obra é justamente daquelas que nos fazem sentir dúvida diante de livros contemporâneos que atenuam as fronteiras entre os gêneros literários. Talvez seja dos primeiros romances modernos que, em sua recepção, causaram estranheza por sua estrutura, sua forma de narrar. Para o autor, em prefácio para edição de 1903, assim como para os críticos que o recepcionaram, o romance se afasta da estrutura narrativa convencional, se situa longe dos moldes naturalistas e realistas da época, inclusive pela ausência de enredo, de intriga. Para nós, leitores do século XXI, essa afirmação talvez não seja consensual. É um romance transgressor, mas todo transgressor atenta numa moral que pode mudar. Ainda assim, Às avessas diz muito a qualquer moderno (ou pós-moderno, se preferirem).

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Um pequeno Finn de Joyce

Nos últimos tempos, no Brasil, felizmente acompanhamos uma retomada feroz de leituras da obra de James Joyce. Em parte, trata-se de um fenômeno social derivado do campo jurídico: a obra do autor irlandês entrou em domínio público em 2012, o que permitiu que editoras de todo o mundo, inclusive daqui, se vissem fora do jugo de Stephen Joyce, seu neto, e publicassem livremente seus livros. No caso brasileiro, há ainda alguns outros fatores que chamaram a atenção do grande público para esse autor, como a publicação de novas traduções de suas obras mais consagradas, em especial do Ulysses (1922).

Joyce é hoje, acima de tudo, um fenômeno cultural. Faz parte daquela classe dos modernistas que já viraram clássicos, que, na verdade, nos fizeram redefinir o que é um clássico. Para além desse estatuto, em terras tupiniquins, o autor sempre foi visto, em grande parte devido à tradução de Antônio Houaiss para o Ulysses, que, por suas escolhas rebuscadas, lhe consagrou uma imagem hermética que poderia ser somente desvendada por grandes cérebros. Não quero aqui reduzir Joyce; na verdade, quero enaltecer o leitor, que, acredito eu, pela nova onda de publicação de suas obras por aqui, se sentiu livre para ele mesmo tentar acessar o universo joyciano. Finn’s Hotel, um dos livros póstumos do autor, talvez seja, a partir de agora, mais uma dessas portas, quem sabe a mais sintética – e, ao mesmo tempo, abrangente.

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A arte francesa da guerra e da paz

Todos que leram 1984 devem se lembrar de um dos lemas do Partido: “guerra é paz”. George Orwell, diante da ascensão dos totalitarismos do século XX, seguia aquilo que vinha sendo dito desde o século XIX por muitos acerca da forte ligação entre o Estado moderno e a guerra, uma ligação, podemos dizer, intrínseca de existência. A própria noção de Estado, assim, pressupõe o conflito com outros poderes, outros domínios, outros Estados. A “paz” que essa guerra gera seria a estabilidade do poder, ao menos enquanto este se mantiver como vencedor das batalhas.

Todos os governos imperialistas sempre atuaram de acordo com esse princípio presente na ficção de Orwell. A Europa é o “centro” do mundo (junto com os Estados Unidos) até hoje por sua tradição de guerras e dominação de outros, em especial por meio de ocupações, invasões e, é claro, da colonização, como nós, brasileiros, bem sabemos. Apesar disso, há um certo sentimento por vezes de que os meios de se manter esse domínio podem ter mudado, afinal acompanhamos ao longo do século XX todo o processo de descolonização e tudo mais. Ainda assim, resta o “centro”, bem como toda a opressão por ele imposta. A arte francesa da guerra (2011), de Alexis Jenni, é um romance que lida com essa questão, só que de dentro, digo, da própria França.

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Kundera strikes again!

É realmente muito bom ver que Milan Kundera, depois de dez anos sem publicar livros de ficção, still got it. O espaço de tempo decorrido desde sua última publicação, como é de praxe, foi sendo preenchido por um conjunto de expectativas que crescia a cada ano, e por albergar sentimentos tão dúbios como esse, qualquer nova publicação já nascia sob o estigma de um potencial desapontamento. Se é verdade que todo livro vem ao mundo em condições parecidas, no caso de Kundera é forçoso reconhecer que uma década é um tempo bastante longo, e que a reputação do escritor contribuiu para engrandecer as especulações sobre o próximo livro e se ele estaria à altura de suas obras anteriores.

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Enquanto não estamos olhando

Enquanto Deus não está olhando, o mundo inteiro pode mudar e você nem perceber. É o que o pai de Érica diz, internado no hospital, debilitado pelos anos de alcoolismo. A frase, em si, demora para aparecer no romance de Débora Ferraz, vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2014. Na verdade, a palavra (ou nome) “Deus” é pouco citada durante toda a narrativa de mais de 360 páginas, mas ainda assim é o que dá título ao livro. Enquanto Deus não está olhando é sobre mudanças, e sobre como lidar com elas.

Érica Valentim é a narradora, uma jovem pintora de 20 e poucos anos. Ela está perdida, em busca de um pai que sumiu: um pai alcóolico, que não a compreende e nem aprova sua escolha profissional, mas que mesmo assim é amado e procurado pela filha. Na busca, ela é acompanhada, ou melhor, amparada, por Vinícius, um velho amigo com quem não mantinha contato há cinco anos. No desespero, ela liga para ele, e ele a ajuda. Eles têm uma história mal resolvida, e o retorno do contato é permeado pela tensão desses anos sem se falar. Enquanto procura o pai, Érica evita pisar na garagem recém transformada em ateliê, uma reforma caseira que seu pai com certeza não aprovaria. Mas ela nem teve chance de contar a novidade a ele, pois antes disso ele sumiu de sua vida. Só não da maneira como as primeiras páginas do romance dão a entender. Leia mais

O pintassilgo

O pintassilgo chegou às livrarias brasileiras há pouco menos de uma semana, após muito barulho no exterior. Não à toa, é claro: ficou quase um ano na lista de mais vendidos do New York Times, foi vencedor do Pulitzer – e possui 728 páginas. Um autêntico calhamaço, esse livro de Donna Tartt. E faz jus a toda a repercussão que recebeu lá fora e que com certeza terá por aqui nos próximos meses.

A história gira em torno do narrador, Theo Decker, garoto que perdeu a mãe de maneira trágica e abrupta, ligado pelo acidente a uma pintura holandesa chamada “O pintassilgo”. É complicado explicar qual (ou quais) o(s) segredo(s) por trás do sucesso do livro. O mais direto que posso, e consigo, ser é falar sobre a narrativa de Donna Tartt. Leia mais

Todos os prêmios para Ann Leckie

No último domingo saíram os vencedores do Hugo, um dos principais prêmios da ficção científica, e sem muita surpresa Ancillary Justice levou mais uma vez. Com isso, a escritora Ann Leckie terá que abrir espaço na prateleira, afastando um pouco o Nebula, o BFSA, o Arthur C. Clarke e o Locus, todos eles acumulados em reconhecimento ao seu primeiro romance.

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Os ásperos e sensíveis sonhos de trem

A literatura encerra muitas propriedades, artifícios e situações curiosos. Ainda há pouco escrevi aqui no Posfácio a respeito da literatura de Louis-Ferdinand Céline, escritor francês que realizou a curiosa e triste proeza de, após ter criado uma espetacular obra como Viagem ao fim da noite, ter dedicado seu talento literário ao sinistro ofício de redigir panfletos antissemitas às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um fato curioso, deveras, ainda que num sentido um tanto desconcertante.

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