A fuga de Céline

Quando Viagem ao fim da noite foi publicado, em 1932, parecia que a polêmica e o estrondo que seu autor, Louis-Ferdinand Céline, causara não seriam superados tão cedo. O livro angariou tantos admiradores, tanto entusiasmo nas críticas e tanta empolgação (da direita e da esquerda) que parecia difícil que Céline fosse estar debaixo dos holofotes por outra razão que não a linguagem e o espírito transgressor de seu livro.

Se Heródoto estivesse vivo à época, talvez dissesse: “Ledo engano”. Céline voltou para a cena central e os olhares se voltaram para ele novamente, mas não por conta de sua literatura, e sim por conta de seus panfletos antissemitas.

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Fragmentos de uma paixão por inteiro

Diria, se não conhecesse o livro, que A paixão é o título de um romance açucarado, daqueles de banca de jornal destinado às boas moças casamenteiras. Imagino um livro no qual se conta a história de uma mulher jovem que não esperava grande coisa da vida, apesar de sempre se mostrar boa para a família. Sua vida muda quando conhece um homem, seu “príncipe”, que será responsável por sua felicidade. A paixão aí é claramente uma relação em que a mulher, assim como a leitora do livro, será rendida por alguém. Na verdade, esse não é o caso da obra na qual estou pensando: A paixão (1965), o primeiro romance da chamada “tetralogia lusitana” de Almeida Faria. A paixão aqui é felizmente muito maior e mais complexa. Leia mais

Vitor Ramil e a literatura gramatical

Espero que encontre eco nos leitores deste texto a minha confissão: apesar de adorar ler desde que me lembro, eu não gostava de gramática. Sinto a necessidade de precisar: em meus tempos de colégio, não conseguia gostar de gramática. Embora eu continue um outsider leigo do universo das estruturas e mecânicas linguísticas, aprendi com o tempo (e a duras penas) a apreciar o estudo de seu funcionamento e a curiosa lógica que as rege.

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A morte do inimigo

Pode soar um tanto paradoxal escrever isso aqui, mas tenho certo problema com autores que são declarados como grandiosos pela mídia. Bolaño, eu lia muito, até começar a ser tão falado. Depois me veio certa canseira. David Foster Wallace? Nunca cheguei perto, duvido que chegue algum dia. E por aí afora. Não é que eu não queira, mas é que me irrita tanto falatório, e as formas do falatório – a proclamação de gênios é assunto complicado.

Mas com Hans Keilson é diferente. Declarado pelo New York Times como um dos maiores nomes da literatura do século XX, o autor ficou esquecido por muito tempo e foi só a promulgação desse status que o fez ser largamente conhecido – caso contrário teríamos uma história triste e corriqueira: um grande autor em seu país adotivo, a Holanda, mas completamente esquecido no resto do mundo. Leia mais

Frutos estranhos

Desde que as vanguardas modernistas entraram em cena causando estardalhaço no início do século XX, as discussões concernentes à arte se tornaram um assunto absolutamente mais complexo e delicado. Novos problemas passaram a ser de consideração obrigatória, muitos artistas passaram a criticar o estatuto da arte existente até então, e as obras artísticas ganharam feições muito distintas.

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Me segura qu’eu vou te falar do Waly

É estranho alguém dizer que apenas leu Waly Salomão, não é? A impressão é que o poeta baiano parece ser poeta até mesmo fora dos livros. Pessoalmente, conheci Waly primeiro pelo nome, sempre citado como exemplo desse termo guarda-chuva que é a poesia marginal. Depois veio sua presença, agudamente capilar, em vídeos vários, como o documentário Assaltaram a gramática e outros registros disponíveis internet afora, além de seus vários poemas musicados por Jards Macalé, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e outros.

Antes de Poesia total, compilação da obra poética completa lançada neste ano pela Companhia das Letras, havia sentido a poesia de Waly, mas, na verdade, nunca lido. Percebi isso sem querer, justamente quando peguei o livro, abri-o e comecei a leitura de fato. Minha primeira reação foi um choque: parte da presença do poeta parece incrivelmente se manter na página, na folha de papel, mesmo em poemas seus de que nunca havia ouvido falar. Ainda assim, apenas parte da presença do poeta resta. Continuei a leitura com isso em mente.

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F, por X

Títulos não convencionais costumam me chamar a atenção quando vou a uma biblioteca, um sebo ou uma livraria, tanto que é razoavelmente comum que resolva ler um livro “somente” por causa do título. Não que isso seja uma grande coisa, pois tenho me descoberto cada vez mais adepto da filosofia de que qualquer desculpa é válida para ler um livro, mas é que o livro sobre o qual essa resenha pretende se debruçar entraria tranquilamente nessa categoria, afinal, o segundo romance de Antonio Xerxenesky tem como título a solenemente solitária letra F.

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Uma casa na escuridão: romance gótico?

Sempre nos referimos, hoje em dia, a alguém como “gótico” quando se veste com roupas pretas e cultiva gostos ou hábitos que parecem macabros ou profanos de algum modo. Além de, claro, gostar do que chamamos de gótico musicalmente, sendo um post-punk como Bauhaus ou até mesmo goth metal. Em literatura, dizemos que algo é gótico em situações que podem variar, assim como na música ou na moda. Pode-se falar do gótico inglês, que, nas mãos de Horace Walpole e Ann Radcliffe, se torna um romance de características fortemente românticas, ou até mesmo do gótico posterior, ligado principalmente ao terror, ao obscuro, ao ocultismo. Nas artes plásticas e na arquitetura, o gótico tem ligação maior, desde a Idade Média, com a religiosidade extrema, com uma austeridade dos valores cristãos.

Em língua portuguesa, é difícil dizer que temos uma tradição gótica; no máximo, talvez momentos na história, alguns textos de alguns autores. Hoje em dia, o gótico parece se dar por meios distintos na literatura, e acho que em José Luís Peixoto temos alguns deles. Mas não sou nenhum especialista no assunto (na verdade, em nenhum assunto), por isso deixo aquela interrogação no título do texto. Uma casa na escuridão (2002), segundo romance do escritor português, talvez indique esse caminho gótico do qual falo. Leia mais

F de ficção, de fixação, de formação

Desde os tempos de escola, diz-se que ficção é, acima de tudo, uma narrativa de algo não verdadeiro. Geralmente quando lemos, portanto, uma obra ficcional, há a consciência de que estamos diante de algo que não aconteceu de fato, a princípio não naqueles termos. Há a ideia de falsidade, mas não se aceita geralmente falta de verossimilhança. Tudo deve ter um sentido, mesmo que seja para contestar a lógica estabelecida. O que dizer, então, de um romance que, assim como outros, busca repensar outra obra de arte – no caso, cinematográfica – que a todo tempo trabalha sob a fronteira entre o verdadeiro e o falso? Até que ponto a verdade aí pode ser ficção e vice-versa?

F, recém-lançado romance de Antônio Xerxenesky (1984), parece voltar a essa questão de um modo talvez mais atraente ao leitor em geral. O assunto é, sim, uma certa fixação não só sua, mas de todos da modernidade; no caso do autor gaúcho, residente em São Paulo, acredito que esse questionamento, parte da formação do escritor, surgiu cedo, desde seu primeiro romance. Areia nos dentes (2008), apesar de ser sua estreia no mercado editorial maior, já evidencia essa incógnita constante. A sinopse concisa e mais frequente, “um faroeste com zumbis”, já desafia, de certo modo, a questão da verdade da ficção. Acredito que aí a surpresa maior não vem do uso do gênero cinematográfico, o western, para definir um texto literário, nem do uso do zumbi, muito próprio da cultura pop atual. A junção dos dois elementos, que nos faz pensar talvez em algum filme trash ruim americano, força, ainda que suavemente, o leitor a pensar na veridicidade do romance.

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Vício Inerente

O meu interesse imediato por Vício inerente, além do flerte com a vulgaridade e humor de Pynchon, deu-se porque um dos meus diretores favoritos, Paul Thomas Anderson, levará aos cinemas a história de Doc Sportello. Com um elenco competente (inclua aí Joaquin Phoenix, Jena Malone, Josh Brolin e Benicio Del Toro) e a benção do autor, o filme estreará em dezembro deste ano. A leitura da obra não me decepcionou e deixou-me a impressão de ser o livro mais leve de Pynchon que li.

Larry “Doc” Sportello é um detetive particular de trinta anos viciado em surf music e maconha. Um belo dia, sua ex-namorada de colégio bate à sua porta para pedir ajuda: procura o seu atual namorado, um magnata casado do ramo imobiliário da Califórnia. Vício inerente inicia-se com esse clichê e exibe vários outros ao longo da trama, como o policial do departamento de Los Angeles chamado Pé-Grande, o típico agente da lei que odeia o detetive particular por motivos superficiais, ou ainda um sujeito dado como morto ressurgido do além para ajudar na investigação. Leia mais

Erudição pornográfica

[Todavia, a] A única coisa que deveria ser dita sobre Pornopopéia é: por favor, leia Pornopopéia. Não, espere, a única coisa que deveria ser dita sobre Pornopopéia é: “Faça um favor, leia Pornopopéia.Leia mais

Memórias beatniks

Creio já ser do conhecimento de um número bastante expressivo de leitores aquela discussão sobre as várias camadas que formam a obra literária e como o mesmo livro, lido por pessoas diferentes, pode “funcionar” de formas distintas  alguns, inclusive, chamam isso de “leitura criativa”. Sem querer me embrenhar numa senda relativista cuja “liberdade” não costumo apreciar, gostaria de tecer algumas considerações sobre o livro Memórias de uma beatnik, da poetisa Diane Di Prima, sublinhando como diferentes dimensões de leitura, ou formas de encarar a obra literária, modulam a forma como se pode fruí-la.

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