A beleza outonal de García Márquez

Quando Memórias de minhas putas tristes foi publicado, em 2004, se desencadeou um verdadeiro frenesi nas ruas da capital colombiana. Tem-se notícia que antes mesmo da publicação oficial, circulava uma versão pirata pelas ruas de Bogotá, uma que continha menos páginas e na qual o desfecho da trama era até diferente, mas que, apesar desses contratempos (menores, dadas a estatura e a popularidade do escritor) era devorada pelos dedicados leitores de “Gabo”.

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Ferreira Gullar - Fronteiras do Pensamento

Na toca do poeta

“Guilherme, como você preferir. Abr” – eu não esperava que Ferreira Gullar perdesse seu tempo de poeta checando e-mails, muito menos respondendo a um moleque desconhecido. Mas aconteceu. Topou uma entrevista sobre Em alguma parte alguma, seu livro mais recente. Fiquei tão ansioso que nem percebi que Gullar, aos oitenta, sabia que, na internet, “abraço” vira “abr”.

Eu era um estudante universitário no primeiro semestre do curso de letras, precisava fazer um trabalho sobre um poema de Gullar e achei, meio sem pensar em nada, que seria uma boa entrevistá-lo. Foi só depois de acertar data e horário que a ficha caiu: um rapaz imberbe, com dificuldade em fazer escansão de versos, vai conversar sobre poesia com o último dos grandes poetas.

Fui para o Rio, me perdi, me encontrei, apertei o dois, o zero e depois o dois num interfone de um prédio velho na Rua Duvivier. A voz rouca de quem já viu muito perguntou quem era. E era apenas eu, meu deus, me perdoe. No elevador, não havia espaço para todas as indagações que subiram comigo. Pisei no hall e Ferreira Gullar me aguardava na porta, comprido, compridíssimo. Boa tarde, me apontou a mesa, disse qualquer coisa e foi ao banheiro.

Fiquei alguns minutos sozinho na toca do poeta. Comecei a me sentir sufocado. As paredes, abarrotadas de quadros, não tinham espaço para respirar. A tevê transmitia uma partida de tênis arrastada demais. Fora o sol preguiçoso das três da tarde, nenhuma luz. Desci do estado etéreo quando me dei conta de que não tinha nada preparado, e agora eu era Hefesto despencando do Monte Olimpo durante nove dias. Não sabia por onde começar, mas comecei mesmo assim quando Gullar voltou com um copo d’água, sentou-se à minha frente e batucou os dedos largos.

Conversamos por quase três horas e, no fim da tarde, saí de seu apartamento com o melhor trabalho de graduação da história – um medíocre oito e meio –, com declarações polêmicas e inéditas – repetições de outras entrevistas – e a certeza de que eu também deveria ser poeta – sou muito pragmático. Caminhei até a praia de Copacabana alguns centímetros acima do chão e me sentei ao lado de outro grande poeta, este um pouco mais bronzeado, rígido e mudo. Ficamos os dois em silêncio, observando aquela quantidade de pernas brancas, pretas, amarelas. Drummond até pareceu disposto a também me dar uma entrevista, talvez até tivesse algo interessante para dizer, mas eu não quis perguntar nada. Já tinha todas as respostas do mundo.

Photo by Jane Cornwell

Sobre os tempos e o que é importante

Mantenho diários e cadernos de anotações desde os 8 anos. Tenho um blog privado onde escrevi dos 15 aos 20 anos. Um incontável número de rascunhos e notas espalhadas por aí. Fora tudo isso, ainda hoje e desde os 19 publico textos em sites aqui e ali. A necessidade de registro sempre me foi uma coisa muito louca e urgente. Era como se eu precisasse escrever para não esquecer da vida. Os anos poderiam passar e eu até poderia me lembrar das coisas todas de forma diferente, mas o registro sempre existiria para me dar um alô caso eu quisesse. Essa foi a minha forma de estar sempre em contato com os tempos e com o que eu era e pensava em cada um deles. Pura bobagem, pensei algumas boas vezes.

Na prática, foram raras-raríssimas as vezes em que reli qualquer coisa que escrevi. Mesmo aqui no Posfácio: acho que só reli textos que foram usados para o meu livrinho e mesmo assim foi difícil. Toda viagem de volta é acompanhada de uma porrada de vergonha bem no meio do estômago. O constrangimento em cada experiência espaçava cada vez mais a próxima. Eu criticava tudo. Das escolhas das palavras às escolhas da vida. Isso atrapalha tanto. Nunca consegui fazer uma narrativa longa por sempre acabar jogando elas fora antes de chegarem ao terceiro capítulo.

Recentemente, me mudei. Isso significa que tive que me deparar de novo com todos os 16 cadernos para empacotá-los. Confesso que quase joguei tudo no lixo. Eu fico constrangida só de olhar pra eles, mesmo que fechados em um canto. Por isso, logo que acabo um, coloco em um lugar onde não posso ver normalmente. Acho que ninguém quer lidar com o passado todo dia, não é? Faz sentido.

Mas sim, peguei os diários e trouxe para a casa nova. Agora vejo que fiz bem. Eles foram a última coisa a ser desempacotada. Antes de irem para fora da minha vista por sei lá quanto mais tempo, resolvi dar uma olhada. Dessa vez, o jab não veio por vergonha do passado, mas sim da ausência que existe hoje.

Uma vez me falaram que minha literatura era muito jovem e que era preciso coragem para publicar aquilo que eu fazia (no caso, a pessoa falava do meu livro). Na época, isso me soou como uma baita crítica. Imaginei vampiros e adolescentes em triângulos amorosos dos mais melosos saindo dos meus textos. Hoje, acho necessário. Aconteceu que eu reli meus textos aqui na casa nova e pela primeira vez achei eles melhores do que qualquer coisa que eu tenha escrito nos últimos tempos. Mesmo que hoje eu tenha feito dois anos de escrita criativa. Que tenha bem mais referências. Que seja mais safa como um todo. Antes eu era mais honesta.

Eu era honesta aos 8 anos, quando queimava a bordinha das páginas para parecerem velhas e hard core (risos). Eu era honesta aos 19, quando escrevia sobre o primeiro término e todas as lamúrias decorrentes. Acontece que eu escrevia para mim. Eu era honesta nas minhas resenhas antigas, que eram baseadas tão somente no que eu achava do livro, sem pensar em estilo literário ou no autor ou no seu “conjunto da obra”.

Nós todos deveríamos escrever, antes de tudo, para nós mesmos. Desculpe o egoísmo, mas esse texto também é para mim. Consegui reler ele hoje e gostaria de reler ele novamente daqui um tempo, para eu me lembrar do que é importante. Que sirva para você também. Vai ser bom. Vai ser ótimo se acontecer. Mas se não, tudo bem. Que alegria que o Posfácio voltou: esse lugar que tenho guardado alguns dos meus textos favoritos.

Crítica: A Bruxa

Fazer um filme de gênero é filmar dentro das expectativas. Um gênero é, na verdade, exatamente isso: um quadro de expectativas dentro do qual se pode encaixar um filme. A questão é que um filme dentro demais das expectativas perde a graça, enquanto um que as subverta demais escapa ao gênero.

A Bruxa é um filme de gênero e, mais que isso, um filme que se insere firmemente em uma tradição. Histórias de bruxas e, principalmente, histórias a respeito de mulheres julgadas injustamente como bruxas são quase um gênero em si, indo muito além dos filmes de terror e A Bruxa consegue articular essas duas tradições de forma bastante eficiente.

Logo no início, o filme estabelece que bruxas de fato existem em seu universo e o terror vai além do psicológico. Contudo, a impressão interna, a paranoia e mesmo a histeria nunca estão fora da possiblidade. Todos os acontecimentos realmente foram orquestrados pela bruxa? Ou parte deles é apenas coincidência? Algumas das reações da família não podem ser simplesmente histéricas, apesar da existência real de poderes demoníacos? Ao estabelecer essas ambiguidades, o filme estabelece um jogo de expectativas que é boa parte do que o sustenta.

O longa tem como protagonista Thomasin, a filha mais velha de uma família de puritanos que é expulsa da comunidade onde vivem. Isolados nas fronteiras da floresta, eles entrarão em contato com forças ocultas e, mais que isso, com a corrupção da própria família.

Na primeira cena, no tribunal que expulsa a família, Robert Eggers evoca as ideias normalmente associadas ao puritanismo: vigilância, fundamentalismo, intolerância. Aos poucos, conforme a família passa mais tempo fora da sociedade de controle, essas ideias vão se desconstruindo e o que emerge é um ambiente em que a natureza e suas forças estão prontas para tomar conta.

Eggers sabe o que se espera de uma história sobre o protestantismo mais radical e ele entrega suas referências com perfeição: Arthur Miller, A Paixão de Joana D’arc, A Fonte da Donzela. Os supercloses vistos ligeiramente de cima são mais que uma homenagem a Dreyer, são um anúncio do que está em jogo no filme: o sofrimento e redenção de uma jovem.

Thomasin passa a ser hostilizada por sua mãe quando Sam, o bebê da família, desaparece na sua frente. Não parece ser gratuita a escolha de uma menina de aparência angelical e longos cabelos loiros, em contraste com a mãe magra demais, envelhecida antes do tempo. Como em qualquer história de bruxas, existe aqui uma narrativa a respeito da sexualidade feminina e sua repressão. É o sexo que leva o irmão de Thomasin a ser possuído pelo demônio, uma desgraça anunciada pelos olhares que ele já havia lançado à irmã. A desgraça, A Bruxa parece dizer, é inevitável.

O que acontece com a família é uma consequência de seus próprios defeitos e do universo que tentam criar. A vitória da natureza já está anunciada na fala do pai: a natureza humana é ruim, nascida para o pecado, é preciso uma intervenção divina para salvar-se da danação. E o espectador espera que a narrativa lhe dê essa intervenção, mas, de forma paradoxalmente surpreendente, ela entrega exatamente o que foi anunciado.

Não há sustos ou reviravoltas em A Bruxa, mas uma atmosfera constante de contaminação e decadência. Uma claustrofobia cada vez maior que explode em um final cruel e redentor. Não é um filme de terror que olha para seus antecedentes mais próximos, os filmes de assassinato dos anos 90, mas busca sua tradição muito anterior, quando um filme como O Bebê de Rosemary seria considerado terror.

Quando o longa estreou em Sundance se falou muito em um renascimento do gênero. Já fora da cartela dos grandes estúdios, o terror poderia encontrar seu lugar no cinema alternativo, onde os orçamentos menores permitiriam mais ousadia e abordagens mais autorais. Isso funciona aqui: são as camadas e a ausência da tensão no sentido comum que tornam A Bruxa um filme eficiente. É sua crueza e aparente simplicidade (aparente apenas, os cuidados estéticos são primorosos), sua apresentação como uma “história folclórica” que tornam o filme perturbador.

Uma história folclórica é uma história que releva algo sobre o universo que habitamos. Uma lenda é uma forma mítica de explicar o estado das coisas. Uma história que fala do medo da sexualidade feminina, da repressão e a respeito da vitória da natureza sobre uma humanidade corrupta ganha uma força excepcional quando vendida com essa roupagem.

Ao final, A Bruxa é um filme extremamente bem feito. A riqueza de referências e cuidado estético permitem a construção de uma metáfora que, ao mesmo tempo que transcende o gênero, confirma suas formas mais antigas. O terror de A Bruxa é o terror do expressionismo alemão e é excelente ver que ele ainda pode ter fôlego.

Diário da Flip – Dia 2: Respeita as mina

Depois de muita dúvida a respeito da cobertura do dia 2 da Flip (afinal, aquilo era glacê ou pasta americana?), decidi começar pela parte séria do evento: o L de literatura.

Poesia pela manhã

Resolvi assistir ao papo de Lázaro Ramos e Angela-Lago logo cedo. Pudera: os poemas de ambos são primorosos; li (e reli) Caderno de rimas do João e O caderno do jardineiro entre um atendimento e outro na livraria e os recomendo enfaticamente a todos. Contudo, as senhas já tinham se esgotado e me restou a alternativa de chegar atrasado para a mesa das poetas da programação principal. Leia mais

Diário da Flip – Dia 1: Cadê você, Ana C.?

Essa tem tudo para ser a MELHOR Flip DO ANO. Se 2015 caracterizou-se pela Flip da falta, 2016 tem tudo para tirar esse gostinho amargo. Temos pão de mel (amor não tá em falta), temos mais mulheres nas mesas. Gabriela nunca faltou, mas temos também. Leia mais

A Flip da falta

“Por que você ainda vem à Flip?”, o Grilo Falante perguntava, insistente, enquanto desembarcava na rodoviária de Paray.

Ok, eu estava muito cansado – não bastava a viagem de madrugada, era necessário um acidente entre o ônibus e um caminhão? – e, pela primeira vez, não ficaria na festa todos os dias, mas isso era irrelevante: se a programação estivesse batuta, um energético seria suficiente para espantar o desânimo. Não estava, contudo. Nenhum nome me fez ficar online no início da venda dos ingressos e, pela primeira vez, fui sem comprar nada antes. Leia mais

Por que você não escreve?

Porque estava…
…cultivando um bigode.
…lendo. E, convenhamos, ler é bem mais gostoso do que escrever.
…abandonando livros. Talvez seja caso de “Ressaca Literária 2 – o retorno” ou pura falta de fôlego (e saco) para obras mais longas. Só sei que muita coisa boa ficou pelo caminho. Li apenas 10 páginas d’A amiga genial (Elena Ferrante), fiquei no primeiro quarto de Clímax (Chuck Palahniuk) e esqueci de continuar a leitura no auge do suspense de Aniquilação (Jeff Vandermeer).
…vivendo o karaoke’s way of life.
…experimentando outras famílias que não a minha – e aceitando de bom grado todo o amor que me foi dado.
…me movendo como Tautou.
…tomando nota de detalhes de eventos sociais (para futuro uso literário, claro) em conversas do WhatsApp e, no interim, acordando os amigos que recebiam essas mensagens.
…não conseguindo me mover como Tautou – e não há nada mais triste do que ver isso acontecer enquanto “Shake it off” bomba nos amplificadores.
…filosofando ao comer um pão de mel.
…tentando aprender algo com livros que prometiam me fazer escrever melhor.
…sendo assaltado.
…planejando grandes gestos dramáticos (parte de mim insiste em classificá-los como românticos, enquanto outro pedacinho sabe muito bem que isso não passa de uma grande besteira) e depois resolvendo deixá-los para a literatura.
…desvirtualizando gente. “Amigos” de facebook tiraram as aspas na vida real e o carinho rolou solto.
…lembrando como é bom ter um tempinho de ir ao cinema e ver um filme bacanudo.
…me perguntando o que raios vim fazer nessa cidade.
…vendo meu cérebro entrar no modo “proteção de tela” umas 35 vezes por dia.
…consolando.
…sendo consolado.
…almoçando rapidinho com amigos e correndo pra não chegar atrasado no trampo.
…levando a sério meu estudo de personagem.
…criando uma playlist para uma cidade.
…trabalhando pra burro – às vezes indicado livros que amo (e vendo-os serem comprados), às vezes quebrando a cabeça para descobrir qual era o bendito dono “da capa azul que estava bem ali há duas semanas”.
…deixando o cabelo crescer como nunca antes na história desse país.
…voltando a ler teoria e crítica literária, agora longe do mestrado, e achando o máximo.
…adoecendo e indo repetidas vezes ao médico. Nada como o visual junkie-viciado-em-heroína após algumas doses de soro e uns exames de sangue, com o lado interno do cotovelo já familiarizado com as agulhas.
…decidindo se, após certo tempo, não importando o quanto me orgulhe do resultado (de vez em quando isso acontece), ainda valeria a pena publicar um texto.
…ouvindo os novos cds de alguns de meus cantores e bandas favoritos. “Novos” talvez não seja o melhor adjetivo: os álbuns do Mika e do Pato Fu talvez até possam ser considerados assim (fim de 2014), mas o da Aimee Mann é de 2012.
…descobrindo alguns “velhos”: depois de 1989, resolvi viciar também em Red. (Obrigado pela graça alcançada, dona Taylor Swift.)
…avaliando provas antecipadas de amigos talentosíssimos. Gente que já tomou café da manhã comigo escrevendo bem que só vendo. Ou só lendo.
…dando um pulinho na Flip.
…retornando à casa – e me perguntando, ao andar por ruas tão familiares e encontrar conhecidos a cada cinco minutos, por que não jogo tudo para cima e volto para Curitiba.
…sendo bloqueado nas redes sociais por gente que me era querida.
…assistindo desenho em noites de insônia, me esquecendo das inúmeras séries que deveria estar acompanhando. Ah, e de escrever, claro.
…me esquecendo de anotar coisas que deixariam essa lista mais engraçadinha.
…escrevendo cartas que não mando.
…prometendo voltar à academia na semana que vem.
…me maravilhando com sense8.
…sentindo uma saudade imensa da família.
…matando algumas saudades – se não da família, ao menos da cidade que me acolheu por 10 anos e de alguns dos amigos que deixei por lá.
…fazendo listas com itens repetidos, mas isso vocês já perceberam.
…procurando um lugar para morar.
Em suma: procrastinando. Mas para dar tanta desculpinha esfarrapada eu precisei escrever. Talvez isso signifique alguma coisa.

Crítica: ‘Que Horas Ela Volta?’

O quartinho, geralmente pequeno, pouco arejado e escondido no espaço residencial, é um elemento simbólico das práticas de desigualdade e exclusão que envolvem aquelas que exercem a profissão de empregada doméstica. Tão comum nas casas e apartamentos das classes alta e média nas metrópoles brasileiras, tal quartinho delimita a fronteira entre o “nós” e o “elas”, mesmo que muitas vezes a faxineira, babá ou empregada seja considerada “quase da família”. Não nos enganemos: o “quase” aqui não é mero apêndice, mas finca uma distância, pois quem é quase, de fato não o é.

Que horas ela volta?, filme nacional dirigido e roteirizado por Anna Muylaert, é mais do que um filme: é uma tese. Seu discurso envolve análises sobre o comportamento das elites metropolitanas e a desigualdade brasileira, mas também sobre algumas das mudanças sociais em curso no Brasil nessas últimas décadas. Quase como que seguindo um modelo de artigo acadêmico, divide-se em partes bem delimitadas, com uma introdução que revisita as estruturas de hierarquia como já as conhecemos, passando à chegada de um elemento novo que desagrega e incita mudanças, depois à tomada de consciência que leva a novos comportamentos – provocando reações dos que querem conservar a velha ordem – e assim por diante, até uma conclusão que se permite otimista e até mesmo, por que não, com um quê de poética.

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Travessia (desperta) pela terra sonâmbula

Já havia me surpreendido muito positivamente com a literatura de Mia Couto quando li um livrinho bem menos conhecido dele, intitulado A confissão da leoa (cheguei mesmo a escrever uma resenha à época). Se tento forçar a memória, lembro de uma narração sensível, na qual a preocupação social e política não serve de empecilho para um lirismo consciencioso (no melhor sentido do adjetivo “consciencioso”): tudo bem azeitado e operante.

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Crítica: Homem Irracional

Woody Allen é possivelmente o maior obsessivo da história do cinema. Ao longo de cinquenta anos de carreira, em um ritmo de um filme por ano, o diretor trabalhou os mesmos temas repetidamente, tentando investigar as implicações das questões que o angustiam.

Dois dos grandes temas de Allen são como encontrar sentido para a vida em um mundo sem sentido e como, nesse mundo sem sentido, manter as balizas morais. O espectador atento já sabe o que deve acontecer quando um homem desiludido encontra uma garota jovem, ou quando um personagem aparece com uma cópia de Crime e Castigo em mãos.

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A lenta e agonizante morte dos DVDs

Ainda me lembro do primeiro DVD que ganhei: uma edição dupla da animação Monstros S.A. (2001). À época eu tinha nove anos (uau, quanto tempo!) e adorava brincar com um joguinho do disco de extras, no qual se podia passear por todo o cenário da história operando um cameraman (um monstrinho bem ao estilo do filme). O mais legal era quando passávamos em frente a um espelho e podíamos ver o tal monstrinho refletido nele. Era uma diversão só. Boba, pueril, mas que contribuiu para um aspecto importante da minha cinefilia, o de colecionar filmes.

Desde pequeno eu não me contentava em assistir apenas uma vez aos filmes de que gostava, sempre querendo revê-los, mas diante de uma limitada programação na TV aberta e de uma ainda insípida TV a cabo, a compra de DVDs me apareceu como uma alternativa. Diligentemente organizadas num sistema que só faz sentido na minha cabeça, minhas caixinhas estão aqui, expostas em zona nobre: a trilogia remasterizada de O Poderoso Chefão (parcelado em um punhado de meses, quando eu era estagiário e ganhava um salário de fome) descansa logo acima de uma edição especial de A Malvada; Watchman pode ser visto logo abaixo de Missão: Impossível 1; Gritos e Sussurros disputa espaço com Orfeu do Carnaval; e por aí vai, um paredão de mais de trezentos títulos comprados em um longo período de dedicação e dispêndio, de irresponsabilidade com o uso do cartão de crédito da mamãe (“Mais um filme, Viníciusssss?!”) e, posteriormente, de salários do estágio, do emprego, do job, do bico e da bolsa universitária.

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