Fahrenheit 451 – #livrospelaliberdade

“— Você não estava lá, você não viu — disse ele. — Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas; tem de haver alguma coisa. Ninguém se mata assim a troco de nada.
— Ela era fraca da ideia.
— Ela era tão racional quanto você e eu, talvez até mais, e nós a queimamos. (…)”

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by Syuzo Tsushima

Sobre livros e canários

Tudo o que é importante deve ser protegido. Para isso, desenvolvem-se sistemas mais ou menos sofisticados, sendo mais importante a eficiência do que a elegância do arranjo.

Canários foram utilizados durante décadas em minas de carvão como alarmes, por serem mais sensíveis a vazamentos de gás e falta de oxigênio no ar. Desciam os mineiros e uma gaiola com o passarinho. Enquanto o pássaro cantasse, tudo estava bem. Se houvesse silêncio na mina, a evacuação deveria ser imediata.

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A beleza outonal de García Márquez

Quando Memórias de minhas putas tristes foi publicado, em 2004, se desencadeou um verdadeiro frenesi nas ruas da capital colombiana. Tem-se notícia que antes mesmo da publicação oficial, circulava uma versão pirata pelas ruas de Bogotá, uma que continha menos páginas e na qual o desfecho da trama era até diferente, mas que, apesar desses contratempos (menores, dadas a estatura e a popularidade do escritor) era devorada pelos dedicados leitores de “Gabo”.

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Ferreira Gullar - Fronteiras do Pensamento

Na toca do poeta

“Guilherme, como você preferir. Abr” – eu não esperava que Ferreira Gullar perdesse seu tempo de poeta checando e-mails, muito menos respondendo a um moleque desconhecido. Mas aconteceu. Topou uma entrevista sobre Em alguma parte alguma, seu livro mais recente. Fiquei tão ansioso que nem percebi que Gullar, aos oitenta, sabia que, na internet, “abraço” vira “abr”.

Eu era um estudante universitário no primeiro semestre do curso de letras, precisava fazer um trabalho sobre um poema de Gullar e achei, meio sem pensar em nada, que seria uma boa entrevistá-lo. Foi só depois de acertar data e horário que a ficha caiu: um rapaz imberbe, com dificuldade em fazer escansão de versos, vai conversar sobre poesia com o último dos grandes poetas.

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Photo by Jane Cornwell

Sobre os tempos e o que é importante

Mantenho diários e cadernos de anotações desde os 8 anos. Tenho um blog privado onde escrevi dos 15 aos 20 anos. Um incontável número de rascunhos e notas espalhadas por aí. Fora tudo isso, ainda hoje e desde os 19 publico textos em sites aqui e ali. A necessidade de registro sempre me foi uma coisa muito louca e urgente. Era como se eu precisasse escrever para não esquecer da vida. Os anos poderiam passar e eu até poderia me lembrar das coisas todas de forma diferente, mas o registro sempre existiria para me dar um alô caso eu quisesse. Essa foi a minha forma de estar sempre em contato com os tempos e com o que eu era e pensava em cada um deles. Pura bobagem, pensei algumas boas vezes.

Na prática, foram raras-raríssimas as vezes em que reli qualquer coisa que escrevi. Mesmo aqui no Posfácio: acho que só reli textos que foram usados para o meu livrinho e mesmo assim foi difícil. Toda viagem de volta é acompanhada de uma porrada de vergonha bem no meio do estômago. O constrangimento em cada experiência espaçava cada vez mais a próxima. Eu criticava tudo. Das escolhas das palavras às escolhas da vida. Isso atrapalha tanto. Nunca consegui fazer uma narrativa longa por sempre acabar jogando elas fora antes de chegarem ao terceiro capítulo.

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Lugares que já não são

Se existem duas coisas que me fazem sair do caminho, mudar planos, me enfiar em lugares esquisitos, essas coisas são cemitérios e ruínas. Que são, parando para pensar, dois lados da mesma coisa.

Eu ainda me lembro da quebrada assustadora onde acabei parando para ver o cemitério de Budapeste; ou da chuva torrencial e da lama nas minhas calças, enquanto eu chafurdava pelo Père Lachaise atrás de Jim Morrison. Quando me perguntam se valeu a pena ter andado quatro dias até Machu Picchu, meu único motivo para responder sim são as ruínas que vi no caminho (de resto, e essa é a única “dica de viagem” que você verá nessa coluna: esqueça, pegue logo o trem). E nada, de todas as muitas coisas que eu já vi nesse mundo, me impressionou como Pompeia.

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Crítica: A Bruxa

Fazer um filme de gênero é filmar dentro das expectativas. Um gênero é, na verdade, exatamente isso: um quadro de expectativas dentro do qual se pode encaixar um filme. A questão é que um filme dentro demais das expectativas perde a graça, enquanto um que as subverta demais escapa ao gênero.

A Bruxa é um filme de gênero e, mais que isso, um filme que se insere firmemente em uma tradição. Histórias de bruxas e, principalmente, histórias a respeito de mulheres julgadas injustamente como bruxas são quase um gênero em si, indo muito além dos filmes de terror e A Bruxa consegue articular essas duas tradições de forma bastante eficiente.

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Diário da Flip – Dia 2: Respeita as mina

Depois de muita dúvida a respeito da cobertura do dia 2 da Flip (afinal, aquilo era glacê ou pasta americana?), decidi começar pela parte séria do evento: o L de literatura.

Poesia pela manhã

Resolvi assistir ao papo de Lázaro Ramos e Angela-Lago logo cedo. Pudera: os poemas de ambos são primorosos; li (e reli) Caderno de rimas do João e O caderno do jardineiro entre um atendimento e outro na livraria e os recomendo enfaticamente a todos. Contudo, as senhas já tinham se esgotado e me restou a alternativa de chegar atrasado para a mesa das poetas da programação principal. Leia mais

Diário da Flip – Dia 1: Cadê você, Ana C.?

Essa tem tudo para ser a MELHOR Flip DO ANO. Se 2015 caracterizou-se pela Flip da falta, 2016 tem tudo para tirar esse gostinho amargo. Temos pão de mel (amor não tá em falta), temos mais mulheres nas mesas. Gabriela nunca faltou, mas temos também. Leia mais

A Flip da falta

“Por que você ainda vem à Flip?”, o Grilo Falante perguntava, insistente, enquanto desembarcava na rodoviária de Paray.

Ok, eu estava muito cansado – não bastava a viagem de madrugada, era necessário um acidente entre o ônibus e um caminhão? – e, pela primeira vez, não ficaria na festa todos os dias, mas isso era irrelevante: se a programação estivesse batuta, um energético seria suficiente para espantar o desânimo. Não estava, contudo. Nenhum nome me fez ficar online no início da venda dos ingressos e, pela primeira vez, fui sem comprar nada antes. Leia mais

Por que você não escreve?

Porque estava…
…cultivando um bigode.
…lendo. E, convenhamos, ler é bem mais gostoso do que escrever.
…abandonando livros. Talvez seja caso de “Ressaca Literária 2 – o retorno” ou pura falta de fôlego (e saco) para obras mais longas. Só sei que muita coisa boa ficou pelo caminho. Li apenas 10 páginas d’A amiga genial (Elena Ferrante), fiquei no primeiro quarto de Clímax (Chuck Palahniuk) e esqueci de continuar a leitura no auge do suspense de Aniquilação (Jeff Vandermeer).
…vivendo o karaoke’s way of life.
…experimentando outras famílias que não a minha – e aceitando de bom grado todo o amor que me foi dado.
…me movendo como Tautou.

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Crítica: ‘Que Horas Ela Volta?’

O quartinho, geralmente pequeno, pouco arejado e escondido no espaço residencial, é um elemento simbólico das práticas de desigualdade e exclusão que envolvem aquelas que exercem a profissão de empregada doméstica. Tão comum nas casas e apartamentos das classes alta e média nas metrópoles brasileiras, tal quartinho delimita a fronteira entre o “nós” e o “elas”, mesmo que muitas vezes a faxineira, babá ou empregada seja considerada “quase da família”. Não nos enganemos: o “quase” aqui não é mero apêndice, mas finca uma distância, pois quem é quase, de fato não o é.

Que horas ela volta?, filme nacional dirigido e roteirizado por Anna Muylaert, é mais do que um filme: é uma tese. Seu discurso envolve análises sobre o comportamento das elites metropolitanas e a desigualdade brasileira, mas também sobre algumas das mudanças sociais em curso no Brasil nessas últimas décadas. Quase como que seguindo um modelo de artigo acadêmico, divide-se em partes bem delimitadas, com uma introdução que revisita as estruturas de hierarquia como já as conhecemos, passando à chegada de um elemento novo que desagrega e incita mudanças, depois à tomada de consciência que leva a novos comportamentos – provocando reações dos que querem conservar a velha ordem – e assim por diante, até uma conclusão que se permite otimista e até mesmo, por que não, com um quê de poética.

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