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Roth Libertado: o escritor, os livros e as identidades

Ouvimos que não se deve julgar um livro pela capa. Ouvimos também que não se deve julgar a pessoa de um escritor pela sua obra. Barthes afirma que cada vez mais a pessoa do escritor, com sua história pessoal, deixa de ser importante para a compreensão da obra literária.

Mas como desenlaçar obra e homem no caso de um escritor que tem protagonistas chamados justamente Philip Roth? Como não julgar pela capa um livro que nos apresenta o escritor, grossas sobrancelhas franzidas, olhando severo para seu leitor?

A obra de Philip Roth é extensa, são mais de 30 livros, e variada, embora gravite em torno de alguns temas comuns. O que Claudia Roth Pierpont (que não, não é parente do autor) busca fazer em seu Roth libertado é mapear esses temas, apontar diferenças e destrinchar a relação entre homem e obra.

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Por que você não escreve?

Porque estava…
…cultivando um bigode.
…lendo. E, convenhamos, ler é bem mais gostoso do que escrever.
…abandonando livros. Talvez seja caso de “Ressaca Literária 2 – o retorno” ou pura falta de fôlego (e saco) para obras mais longas. Só sei que muita coisa boa ficou pelo caminho. Li apenas 10 páginas d’A amiga genial (Elena Ferrante), fiquei no primeiro quarto de Clímax (Chuck Palahniuk) e esqueci de continuar a leitura no auge do suspense de Aniquilação (Jeff Vandermeer).
…vivendo o karaoke’s way of life.
…experimentando outras famílias que não a minha – e aceitando de bom grado todo o amor que me foi dado.
…me movendo como Tautou.
…tomando nota de detalhes de eventos sociais (para futuro uso literário, claro) em conversas do WhatsApp e, no interim, acordando os amigos que recebiam essas mensagens.
…não conseguindo me mover como Tautou – e não há nada mais triste do que ver isso acontecer enquanto “Shake it off” bomba nos amplificadores.
…filosofando ao comer um pão de mel.
…tentando aprender algo com livros que prometiam me fazer escrever melhor.
…sendo assaltado.
…planejando grandes gestos dramáticos (parte de mim insiste em classificá-los como românticos, enquanto outro pedacinho sabe muito bem que isso não passa de uma grande besteira) e depois resolvendo deixá-los para a literatura.
…desvirtualizando gente. “Amigos” de facebook tiraram as aspas na vida real e o carinho rolou solto.
…lembrando como é bom ter um tempinho de ir ao cinema e ver um filme bacanudo.
…me perguntando o que raios vim fazer nessa cidade.
…vendo meu cérebro entrar no modo “proteção de tela” umas 35 vezes por dia.
…consolando.
…sendo consolado.
…almoçando rapidinho com amigos e correndo pra não chegar atrasado no trampo.
…levando a sério meu estudo de personagem.
…criando uma playlist para uma cidade.
…trabalhando pra burro – às vezes indicado livros que amo (e vendo-os serem comprados), às vezes quebrando a cabeça para descobrir qual era o bendito dono “da capa azul que estava bem ali há duas semanas”.
…deixando o cabelo crescer como nunca antes na história desse país.
…voltando a ler teoria e crítica literária, agora longe do mestrado, e achando o máximo.
…adoecendo e indo repetidas vezes ao médico. Nada como o visual junkie-viciado-em-heroína após algumas doses de soro e uns exames de sangue, com o lado interno do cotovelo já familiarizado com as agulhas.
…decidindo se, após certo tempo, não importando o quanto me orgulhe do resultado (de vez em quando isso acontece), ainda valeria a pena publicar um texto.
…ouvindo os novos cds de alguns de meus cantores e bandas favoritos. “Novos” talvez não seja o melhor adjetivo: os álbuns do Mika e do Pato Fu talvez até possam ser considerados assim (fim de 2014), mas o da Aimee Mann é de 2012.
…descobrindo alguns “velhos”: depois de 1989, resolvi viciar também em Red. (Obrigado pela graça alcançada, dona Taylor Swift.)
…avaliando provas antecipadas de amigos talentosíssimos. Gente que já tomou café da manhã comigo escrevendo bem que só vendo. Ou só lendo.
…dando um pulinho na Flip.
…retornando à casa – e me perguntando, ao andar por ruas tão familiares e encontrar conhecidos a cada cinco minutos, por que não jogo tudo para cima e volto para Curitiba.
…sendo bloqueado nas redes sociais por gente que me era querida.
…assistindo desenho em noites de insônia, me esquecendo das inúmeras séries que deveria estar acompanhando. Ah, e de escrever, claro.
…me esquecendo de anotar coisas que deixariam essa lista mais engraçadinha.
…escrevendo cartas que não mando.
…prometendo voltar à academia na semana que vem.
…me maravilhando com sense8.
…sentindo uma saudade imensa da família.
…matando algumas saudades – se não da família, ao menos da cidade que me acolheu por 10 anos e de alguns dos amigos que deixei por lá.
…fazendo listas com itens repetidos, mas isso vocês já perceberam.
…procurando um lugar para morar.
Em suma: procrastinando. Mas para dar tanta desculpinha esfarrapada eu precisei escrever. Talvez isso signifique alguma coisa.

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Crítica: ‘Que Horas Ela Volta?’

O quartinho, geralmente pequeno, pouco arejado e escondido no espaço residencial, é um elemento simbólico das práticas de desigualdade e exclusão que envolvem aquelas que exercem a profissão de empregada doméstica. Tão comum nas casas e apartamentos das classes alta e média nas metrópoles brasileiras, tal quartinho delimita a fronteira entre o “nós” e o “elas”, mesmo que muitas vezes a faxineira, babá ou empregada seja considerada “quase da família”. Não nos enganemos: o “quase” aqui não é mero apêndice, mas finca uma distância, pois quem é quase, de fato não o é.

Que horas ela volta?, filme nacional dirigido e roteirizado por Anna Muylaert, é mais do que um filme: é uma tese. Seu discurso envolve análises sobre o comportamento das elites metropolitanas e a desigualdade brasileira, mas também sobre algumas das mudanças sociais em curso no Brasil nessas últimas décadas. Quase como que seguindo um modelo de artigo acadêmico, divide-se em partes bem delimitadas, com uma introdução que revisita as estruturas de hierarquia como já as conhecemos, passando à chegada de um elemento novo que desagrega e incita mudanças, depois à tomada de consciência que leva a novos comportamentos – provocando reações dos que querem conservar a velha ordem – e assim por diante, até uma conclusão que se permite otimista e até mesmo, por que não, com um quê de poética.

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miacouto

Travessia (desperta) pela terra sonâmbula

Já havia me surpreendido muito positivamente com a literatura de Mia Couto quando li um livrinho bem menos conhecido dele, intitulado A confissão da leoa (cheguei mesmo a escrever uma resenha à época). Se tento forçar a memória, lembro de uma narração sensível, na qual a preocupação social e política não serve de empecilho para um lirismo consciencioso (no melhor sentido do adjetivo “consciencioso”): tudo bem azeitado e operante.

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Homem Irracional Woody Allen

Crítica: Homem Irracional

Woody Allen é possivelmente o maior obsessivo da história do cinema. Ao longo de cinquenta anos de carreira, em um ritmo de um filme por ano, o diretor trabalhou os mesmos temas repetidamente, tentando investigar as implicações das questões que o angustiam.

Dois dos grandes temas de Allen são como encontrar sentido para a vida em um mundo sem sentido e como, nesse mundo sem sentido, manter as balizas morais. O espectador atento já sabe o que deve acontecer quando um homem desiludido encontra uma garota jovem, ou quando um personagem aparece com uma cópia de Crime e Castigo em mãos.

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A lenta e agonizante morte dos DVDs

Ainda me lembro do primeiro DVD que ganhei: uma edição dupla da animação Monstros S.A. (2001). À época eu tinha nove anos (uau, quanto tempo!) e adorava brincar com um joguinho do disco de extras, no qual se podia passear por todo o cenário da história operando um cameraman (um monstrinho bem ao estilo do filme). O mais legal era quando passávamos em frente a um espelho e podíamos ver o tal monstrinho refletido nele. Era uma diversão só. Boba, pueril, mas que contribuiu para um aspecto importante da minha cinefilia, o de colecionar filmes.

Desde pequeno eu não me contentava em assistir apenas uma vez aos filmes de que gostava, sempre querendo revê-los, mas diante de uma limitada programação na TV aberta e de uma ainda insípida TV a cabo, a compra de DVDs me apareceu como uma alternativa. Diligentemente organizadas num sistema que só faz sentido na minha cabeça, minhas caixinhas estão aqui, expostas em zona nobre: a trilogia remasterizada de O Poderoso Chefão (parcelado em um punhado de meses, quando eu era estagiário e ganhava um salário de fome) descansa logo acima de uma edição especial de A Malvada; Watchman pode ser visto logo abaixo de Missão: Impossível 1; Gritos e Sussurros disputa espaço com Orfeu do Carnaval; e por aí vai, um paredão de mais de trezentos títulos comprados em um longo período de dedicação e dispêndio, de irresponsabilidade com o uso do cartão de crédito da mamãe (“Mais um filme, Viníciusssss?!”) e, posteriormente, de salários do estágio, do emprego, do job, do bico e da bolsa universitária.

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Enquanto somos jovens

Crítica: Enquanto Somos Jovens

Noah Baumbach é um cineasta das crises. Das pequenas crises, inevitáveis, universais, humanas. Seu primeiro filme a alcançar notoriedade, A Lula e a Baleia, falava de uma família lidando com o divórcio. Não um divórcio com grandes traumas e reviravoltas, apenas uma família de classe média do Brooklyn lidando com seu esfacelamento, natural, superável, mas não menos dolorido.

Mais recentemente, Frances Ha ganhou de forma afetiva as centenas de jovens que se identificaram com ela: sem dinheiro, mas com uma família próspera suficiente para ajudar; aprendendo a trivial, mas ainda assim dolorida, realidade de que não se pode ser tudo o que quiser.

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harper lee

O Sol É Para Todos, de Harper Lee

Dando continuidade ao mês dos clássicos aqui no Posfácio, que já contou com o pioneiro Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, o romance sobre o puritanismo A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne, o poderoso O vermelho e o negro, de Stendhal, e o avant-garde Jacques, o fatalista, e seu amo, de Diderot, veremos agora o clássico americano O sol é para todos, de Harper Lee, em texto da colaboradora convidada Julia Alves.

Escrever apenas um best-seller na vida não é algo tão incomum quanto se imagina1, e Harper Lee integrava esse grupo até pouco tempo, quando anunciou o lançamento de Go Set a Wachtman, continuação de O sol é para todos. O manuscrito foi guardado por cerca de cinquenta anos e narra a volta da personagem principal, Scout Finch, já adulta, à sua cidade natal. O retorno ao passado obriga Scout a lidar com as mudanças inerentes da época sobre o local onde cresceu, e desconstruir a idealização infantil sobre seu pai e herói, Atticus Finch. O novo livro, com pouco mais de duas semanas nas prateleiras, bateu um milhão de cópias vendidas apenas nos EUA, e, no Brasil, já tem lançamento prometido pelo selo Jose Olympio.

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  1. Margaret Michell, por exemplo, autora de …E o vento levou, também integra o grupo de grandes escritores de um livro só.
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Cama de Gato

Na morte de 2014 e no nascimento de 2015 – praticamente um natimorto – eu tomei uma decisão (ou seria uma prospecção?) daquelas que ocorrem, estilo epifania/insight, sobre qual seria a minha meta. Nunca fui um fiel às minhas promessas de ano novo. Como diria Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior”; e como eu poderia manter uma promessa se dali um mês, quiçá uma semana, ou até na manhã de ano novo, curtindo uma ressaca de cachaça curtida, eu seria outra pessoa? Mas a minha meta foi: o profissional viria antes do pessoal em 2015.

Explico: entre 2008 e 2014 sempre coloquei minha vida pessoal em primeiro plano. Festas? Com certeza. Encontro com amigos? Sim, senhor. Uma desculpa para beber, namorar e não se preocupar com nada? Concordo. A labuta era só uma maneira de administrar essa vida pessoal no financeiro. Afinal, nem todos os amigos querem pagar uma rodada de suco pra galera. Leia mais

Denis Diderot

Jacques, o Fatalista, e seu Amo, de Diderot

Em continuidade à nossa série de textos sobre os clássicos, voltamos agora à França do século XVIII para falar de Jacques, o fatalista, e seu amo. Escrito pelo célebre enciclopedista Denis Diderot, o livro marca a literatura como um cruzamento de diversas tendências, dos contos de amor aos romances de cavalaria, das formas medievais às contemporâneas, com elementos de sátira, crítica social e reflexão filosófica.

A narrativa se desenvolve como uma longa conversa entre o valete Jacques e seu amo (o qual nunca vem nomeado). Os dois partem em viagem, mas desde o princípio o narrador intervém para dizer que não importa entender como teria se formado essa parceria ou com que fim seguem em frente.  O diálogo começa em seguida, e o leitor tem de inferir que, para diminuir o tédio da empreitada, o amo espera que o companheiro lhe conte suas histórias amorosas.

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nina-simone

Uma colcha de retalhos

Não é que eu odeie efemérides. Apenas as considero totalmente desnecessárias de um modo geral. Pensando bem, na verdade, elas são uma manobra para lá de pobre para conseguir uma certa audiência para um veículo de comunicação. Usar a data de morte, de aniversário, de primeiro lançamento – sem ser com números redondos – não faz lá muito sentido para mim. Eu sou hipócrita. Usei e abusei, reutilizei e reciclei efemérides mil, contudo posso acusar minha pouca idade para dizer: considerava legal resgatar essas datas como uma forma de celebrar a memória de um ídolo.

Outra coisa que vejo se espalhando pelos quatro cantos da internet são marcas utilizando datas para criar algum post de trocadilhos ou mesmo de “homenagem”. Se antes datas como Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia das Crianças eram alvos fáceis para propagandas de um mês, dois até, pelo menos ficávamos nisso. As datas fora do eixo comercial (dia do datilógrafo, dia do radialista, dia da comunicação…) são muletas para aleijados criativos. Me desculpem, mas é verdade. Pior, já fui vítima explorada por superiores insistindo que esses atalhos fáceis para preencher vácuos eram não somente necessários, mas estritamente importantes.

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Napoleão by Andrea Appiani

O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Seguindo com o mês dos clássicos, chegamos a uma narrativa que, de forma consciente, propõe-se a ser o tratado de uma época. Quando foi publicado, O vermelho e o negro trazia o seguinte subtítulo: “crônica do século XIX”, substituído posteriormente por “crônica de 1830”.

Não é pouco importante essa delimitação de período, nem o país em que o livro é escrito. Toda a literatura francesa do século XIX trata, analisa e se obceca com as possibilidades da mobilidade social.

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