O ídiche é um idioma germânico que utiliza o alfabeto hebraico. Não é a língua de nenhum país, mas o idioma falado pelos judeus Ashkenazis de diversos países- notadamente os da Europa Oriental e Central (de onde são originários) e, mais recentemente, nos descendentes desses judeus que vieram para as Américas e que foram para Israel. Constitui-se, basicamente, de elementos hebraicos, alemães e eslavos. Divide-se, basicamente em três dialetos, central (polaco), setentrional (lituano) e meridional (ucraniano). O ídiche normativo utiliza a pronúncia setentrional e a gramática meridional, com algumas influências do idioma alemão (muitos estudiosos consideram o idioma uma corruptela do alemão).

O idioma sedimentou-se durante o segundo milênio da era cristã, e eu seu auge geográfico alcançou desde a Rússia até o norte da Itália- apenas entre as comunidades judaicas. Muitos judeus que viviam nos Shtetls (palavra ídiche para cidade, usada para denominar vilarejos judeus na Europa Oriental) sequer falavam outros idiomas- não tinham contato com gentios e o hebraico era um idioma quase que exclusivamente litúrgico até pouco antes do surgimento do estado de Israel. Mas foi apenas durante o século XIX que surgiu uma literatura ídiche mais complexa.

Antes disso, porém, já existiam algumas obras- ainda que, em sua maior parte, fossem textos religiosos e traduções. Elijah Levita (ou Elya Bokher) escreveu o Bovo-Bukh, o mais popular romance de cavalaria em ídiche arcaico. O texto é, na verdade, uma tradução do épico de Buovo d’Antona, com adaptações que inseriram elementos judaicos no texto. Depois disso, inúmeros romances de cavalaria em ídiche foram publicados nos séculos 14o e 15o. Existiam ainda compilações de contos folclóricos (alguns não judaicos) e livros de orações.

No século XVIII, com a propagação do judaísmo chassídico- uma corrente mística que estuda, entre outras coisas, a cabala- surgiu uma literatura chassídica, composta por histórias que serviam como forma de adoração religiosa e de parábolas- que continham ensinamentos dos chassidim.

Modernamente a literatura em língua ídiche começou em 1864, quando Mendele Mocher Sforim (cujo nome real era Sholem Yankev Abramovich) publicou sua obra ‘Dos Kleyne Mentschele’ (‘A pessoa pequena’). Sua obra é essencialmente de crítica à comunidade judaica da época, atacando a corrupção dos judeus pelas autoridades russas e polonesas e, ao mesmo tempo, atacando tradições que considerava obsoletas- como, por exemplo, casamentos arranjados.

A influência de Mendele é notável por dois pontos: ele começou a escrever em ídiche quando todos os outros escritores judeus optavam pelo hebraico (que começava a ser difundido, mas ainda estava longe de voltar a ser uma ‘língua-mãe’) ou por línguas gentias (que nem todos os judeus entendiam- e que não podiam expressar de forma adequada certas particularidades de suas vidas); mesmo usando o ídiche, que até o momento tinha uma tradição literária um tanto quanto arcaica, ele passou a utilizar elementos retóricos e lingüísticos tipicamente modernos, que permitiram um surgimento de aspirações literárias e até mesmo sociais nas comunidades Ashkenazis da época.

A Sforim seguiu-se o surgimento de escritores como Sholem Aleichem e I. L. Peretz. Aleichem escrevia sobre as catástrofes sofridas pelos judeus no século XIX e começo do século XX, sempre de suas perspectiva de ‘risos através das lágrimas. Peretz era politicamente mais radical, sendo mais cáustico e intimista do que Sforim e Aleichem, sendo considerado o primeiro escritor verdadeiramente moderno da literatura ídiche. Juntos os três são denominados como ‘di klasiker’, os clássicos, sendo considerados os escritores essenciais da literatura desse idioma.

No início do século XX começaram a surgir grupos de escritores mais experimentais. O primeiro desses grupos foi o dos “Poetas das Fábricas”, em Nova Iorque. Eram poetas que, vivendo como imigrantes nos EUA, viviam como operários, trabalhando nas fábricas em condições que estavam longe das ideais. Morris Rosenfeld, Morris Winchevsky, David Edelstadt and Joseph Bovshover foram seus principais expoentes.

Em Varsóvia também não tardaram a surgir alguns grupos semelhantes. Orbitando ao redor de I. L. Peretz alguns escritores como Sholem Asch, David Pinski, Ansky e I. M. Weissenberg.

Outro grupo surgido em Varsóvia foi o “Di Khalyastre” (“A Gangue”), que contava entre seus membros com Israel Singer, irmão de Isaac B. Singer. Junto com o movimento norte-americano “Di Yunge” os “Di Khalyastre” rompeu com toda a literatura ídiche anterior ao escrever sobre temas que em nada se reportavam ao judaísmo- pela primeira vez existia uma literatura ídiche totalmente secular.

Outros movimentos importantes que surgiram em seguida foram o “Yunge Vilne” (“Juventude de Vilna”, centrado em Vilna e que teve Avraham Sutzkevner como um de seus principais expoentes, e o “Di Linke” (“A Esquerda”) um movimento literário associado com a extrema esquerda.

Enquanto isso na URSS a literatura ídiche sofria com a perseguição do regime de Stálin. Porém ainda surgiram alguns escritores de importância como David Bergelson, Der Nister, Peretz Markish and Moyshe Kulbak.

Posteriormente, e sem associarem-se a nenhuma espécie de grupo, surgiram outros escritores, entre os quais (e em toda a literatura ídiche, na verdade) destaca-se Isaac Bashevis Singer, laureado com o prêmio Nobel justamente por seus escritos nesse idioma- apesar de também ter escrito em inglês.

Hoje a literatura ídiche é um tanto quanto débil- foi em grande parte substituído pelo hebraico e pelo inglês. Porém, ao contrário da crença difundida de que é um idioma moribundo e só usado em comunidades judaicas um tanto quanto atrasadas e fechadas, existe uma quantidade crescente de autores que usam o idioma- alguns o têm como idioma nativo, outros o resgataram- especialmente no Canadá e em Israel. EUA, Rússia, Inglaterra e Áustria também possuem escritores que utilizam o idioma. O Brasil já teve uma literatura ídiche bastante fértil mas atualmente parece-me que não se produz mais nada- isso, porém, é assunto para outro post.

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