“O trabalho criativo do tradutor se dá estritamente no interior desse ambiente pré-determinado” – Entrevista com Guilherme da Silva Braga

em 25 de abril de 2011

Guilherme da Silva Braga, porto-alegrense, 28 anos; tradutor profissional desde 2005 com outros sete anos de experiência (alguns destes em paralelo) como professor de inglês. O seu interesse por línguas se deve à literatura, que é o ramo tradutório que mais lhe interessa. Entre as obras que traduziu estão A Volta do Parafuso (Henry James), Visões de Cody (Jack Kerouac), O gato preto e outros contos (Edgard Allan Poe), A linha de sombra (Joseph Conrad) e muitas outras. Guilherme topou responder a 10 Perguntas e Meia.

1. Por que traduzir e não escrever?

São atividades diferentes. Embora traduzir seja em parte escrever, que por definição é uma atividade criativa, não é criar no sentido mais amplo da palavra. A prerrogativa de criar um mundo, personagens, lugares e incidentes é toda do autor. O trabalho criativo do tradutor se dá estritamente no interior desse ambiente pré-determinado.

2. Quais as satisfações e as dificuldades de traduzir a prosa espontânea do Kerouac?

As dificuldades são principalmente o fôlego – as frases de Kerouac são muito longas e portanto dão muito trabalho – e o ritmo alucinante. Além do mais, uma das características estilísticas marcantes do Kerouac é adiar a conclusão de uma linha de pensamento à medida que vai lembrando de outras coisas para retomá-la depois apenas muito tempo depois. Ele começa falando sobre A, que lembra ele de B, que lembra ele de C, e aí páginas mais tarde de repente ele volta de C para A sem avisar. Muitas vezes todas essas coisas acontecem ao mesmo tempo. E o Kerouac também tem o hábito de inventar palavras e de brincar com assonâncias e aliterações, o que dificulta bastante o trabalho do tradutor. Mas é um desafio muito interessante traduzir esse tipo de escrita.

3. Em termos de tradução: Lovecraft ou Poe? E em termos de preferência?

Primeiro preciso dizer que, do Poe, tenho apenas uma tradução publicada, O gato preto e outros contos (Hedra). Do Lovecraft, já traduzi cinco volumes: três estão publicados – O chamado de Cthulhu e outros contos, A sombra de Innsmouth e Um sussurro nas trevas (todos lançados pela Hedra) –, Nas montanhas da loucura está no prelo (também pela Hedra) e nesse exato momento estou dando os toques finais na minha tradução de A cor que caiu do espaço (a ser lançado igualmente pela Hedra). Então, como tradutor, a minha experiência com esses autores é muito desigual, embora as minhas leituras de ambos sejam mais ou menos equilibradas. A preferência é um problema: considero o Poe um estilista melhor do que o Lovecraft, mas por outro lado tenho a impressão de que ele exagera no pedantismo e por vezes exagera no clima pseudossério de certos contos. Já no Lovecraft eu percebo certas características de autoparódia por trás de toda aquela verborragia ensandecida, o que me agrada demais.

4. O que representa para você ter traduções de livros de autores como Kafka, Conrad, Kerouac, Capote, Doyle, entre outros, no currículo?

Para mim representa um aprendizado constante sobre a literatura e sobre o escrever, dois assuntos que hoje ocupam a maior parte da minha vida. Tenho muito orgulho desses trabalhos, que sempre fiz com o maior cuidado – não apenas porque gosto do resultado final, mas também porque considero um privilégio poder aprender com autores e livros que eu admiro. O Conrad me ensinou a pesquisar terminologia e o Kerouac a traduzir textos criativos, para dar dois exemplos bastante significativos para mim. Para um tradutor, o que poderia ser melhor do que aprender com os autores que admira?

5. O nome do seu blog fala sobre a complexidade da tradução. A seu ver existem traduções que em vez de serem improváveis são impossíveis?

Não. Não acredito na tradução impossível. Acredito apenas na tradução para a qual ainda não se achou uma boa solução. Isto, claro, se você entender tradução no sentido mais amplo, levando em conta a função e o efeito das palavras e das frases em uma obra, e não simplesmente vestir um par de antolhos e ficar achando que “tradução” significa “tradução literal”.

6. No que o fato de ser tradutor altera a sua leitura? Ou o modo tradutor não fica ligado o tempo inteiro?

Altera tudo. Quando leio para traduzir, a leitura é muito mais crítica e minuciosa do que uma leitura destinada ao prazer ou a uma atividade profissional que não seja a tradução. Há uma necessidade muito maior de entender detalhes e nuances extremamente sutis na leitura tradutória. Mesmo que eu tentasse, acho que não conseguiria ler um texto com o mesmo nível de atenção que dedicaria a ele durante uma tradução sem traduzi-lo. Ninguém fica dez minutos lendo uma única frase, mas quando eu traduzo essa é uma situação recorrente. O resultado é que, de maneira involuntária, à base de repetição e de burilação em cima do texto, acabo ficando com uma lembrança muito mais vívida dos livros que traduzo. Lembro de cenas inteiras e de certas frases específicas sem nenhum esforço. Isso quase nunca acontece quando leio por prazer ou por razões profissionais que não sejam traduzir. Nesses casos tenho facilidade para reter o suficiente para fazer uma paráfrase passável de trechos que gostei, mas de maneira alguma consigo fazer citações de frases inteiras de cabeça.

Outro efeito nada surpreendente é que a minha tolerância para traduções medíocres diminuiu de maneira drástica; e se por um lado isso é bom porque não tenho interesse algum em ler traduções medíocres, por outro lado é ruim porque as traduções medíocres são tão numerosas que se torna um problema de solução menos fácil do que eu gostaria encontrar traduções que não me façam tropeçar em frases truncadas a cada três ou quatro parágrafos. E quero deixar claro que esta opinião não é de maneira alguma um desmerecimento ao trabalho dos tradutores em geral – ninguém precisa me dizer que temos alguns excelentes tradutores de ficção no Brasil. Apenas constato uma triste realidade: o mercado de tradução literária está infestado de biqueiros e paraquedistas incompetentes e os tradutores profissionais e competentes ainda são minoria.

7. O que o livro tem que ter para te deixar com vontade de traduzi-lo?

Em geral sinto vontade de traduzir livros que apresentem desafios específicos da prosa literária, como trocadilhos e brincadeiras linguísticas, ou então obras com alguma característica forte de registro – textos extremamente rebuscados e barrocos ou extremamente informais, por exemplo. Se hoje eu pudesse escolher um livro para traduzir, este livro seria o Cloud Atlas, do David Mitchell. A mistura de gêneros e estilos completamente antagônicos e contrastantes nesse romance é um prato cheio para qualquer tradutor com essas tendências.

8. Quais as possibilidades e as limitações de ser um tradutor no Brasil?

Felizmente as possibilidades parecem cada vez melhores para os tradutores profissionais e competentes e cada vez piores para os já referidos biqueiros e paraquedistas que infestam o mercado editorial.

(Só para deixar claro: quando digo “biqueiros e paraquedistas”, não estou de maneira alguma me referindo a tradutores iniciantes, amadores ou diletantes realmente interessados em aprender a fazer traduções de qualidade – pelos quais tenho o maior respeito –, mas única e exclusivamente ao grande número de pessoas sem escrúpulo e sem profissionalismo que, às custas dos leitores e não raro do autor, fazem traduções medíocres só para ganhar uns trocados a mais no fim do mês – pessoas estas pelas quais tenho o maior desrespeito.)

O mercado é um pouco difícil e esquizofrênico para quem está começando, mas depois que você faz duas ou três traduções para uma mesma editora que curte o seu trabalho o fluxo começa a aumentar, e quem sabe regatear um pouco consegue ganhar valores bem dentro da realidade da classe média. Verdade que ninguém vai ficar rico sendo tradutor literário – mas é perfeitamente possível viver de traduzir literatura no Brasil.

Uma das limitações é a falta de reconhecimento – e nem me refiro ao reconhecimento como tradutor individual, mas a uma ausência generalizada da percepção do valor conferido (ou não) a um texto traduzido pelo tradutor. Poucos leitores fazem esse exercício, mas a comparação de duas ou três traduções de uma mesma obra revela o quanto a tradução influencia o resultado final – de todas as maneiras possíveis: para torná-lo mais interessante, menos interessante, mais formal, menos informal e assim por diante.

Como sei que o Meia Palavra é um site voltado principalmente aos leitores, aproveito para sugerir a todos que cotejem traduções para tomar consciência do trabalho que existe por trás trás de todos os livros traduzidos que leem. Idealmente, o próximo passo seria começar a prestar atenção ao nome dos tradutores com um texto que você gosta para procurar ler traduções feitas por eles sempre que possível – e também dos tradutores que você não gosta para evitá-los.

9. Estamos bem servidos de literatura húngara no Brasil? O que não conhecemos ou podemos esperar dessa língua?

Não conhecemos basicamente nada, pois apesar de a Companhia das Letras ter lançado diversos volumes do Imre Kertész traduzidos pelo Paulo Schiller, estas obras obviamente não podem ser consideradas representativas de uma literatura nacional inteira. Mas a verdade é que eu tenho pouco interesse por escolas literárias e literaturas nacionais – tendo muito mais a gostar de autores e livros específicos. Não sou de maneira alguma um conhecedor da literatura húngara. O máximo que posso dizer é que descobri certos autores que me agradam. Mesmo assim, quem quiser conhecer essa literatura de maneira um pouco mais abrangente pode conferir a famosa Antologia do conto húngaro (TopBooks), traduzida pelo Paulo Rónai, e os recentes Contos húngaros traduzidos pelo Paulo Schiller e editados pela Hedra. Uma tradução minha de um conto do Géza Csáth que acho genial também saiu recentemente na edição K da revista Arte e Letra: estórias.

10. Os títulos têm que ser traduzidos literalmente ou há espaço para certas “liberdades” tradutórias? Por quê?

Nem os títulos nem coisa nenhuma tem que ser traduzida literalmente. Sempre há espaço para a liberdade tradutória. SEMPRE! Esse mito da tradução literal precisa cair. Traduzir um texto não tem nada, absolutamente nada a ver com copiar o original em português apenas trocando as palavras de idioma; trata-se, antes, de reescrever um texto altamente articulado, que forma um todo coeso, em outra língua. E de reescrevê-lo em um estilo o mais próximo possível do original – o que inclui reescrever um texto fluente de modo fluente, entre outras coisas. O objetivo de uma tradução literária não é dizer “o que está no original” a qualquer custo, mas acima de tudo escrever um texto de qualidade literária e características estilísticas semelhantes às do original. Paradoxalmente, uma das maneiras mais garantidas de se arruinar completamente a qualidade literária e as características estilísticas de um texto é fazer uma tradução literal dele. Assim, se o objetivo é apresentar ao leitor da língua para a qual se está traduzindo um texto de características semelhantes às da obra original, é fácil perceber que pequenas modificações inspiradas pelo estilo do original que visem justamente mantê-las não são apenas desejáveis, mas também necessárias. E para obter esse resultado é preciso abrir mão do apego desnecessariamente obstinado ao original.

Com os títulos acontece a mesma coisa. Vamos pegar como exemplo O morro dos ventos uivantes, um título consolidado em nossa língua. O original Wuthering Heights não diz nem “morro”, nem “ventos” nem “uivantes”. Em suma, a tradução não traduziu uma palavra sequer do original. Mas pouco importa: uma tradução literal de Wuthering Heights seria desastrosa e o título que se tornou clássico em português soa muito bem e tem tudo a ver com o livro, assim como o original. Do ponto de vista do efeito, é uma tradução magistral. Como a principal tarefa do tradutor literário é produzir um texto literário de qualidade e dotado de função estética na língua para a qual traduz, se o resultado de uma tradução é um texto sem características e qualidade literárias, é evidente que algo está muito errado.

10 1/2. Do estrangeiro ao vernáculo… tudo pode acontecer

 

11 comentários para ““O trabalho criativo do tradutor se dá estritamente no interior desse ambiente pré-determinado” – Entrevista com Guilherme da Silva Braga

  1. Ótima entrevista. Lúcida, objetiva e abrangente.

    Realmente é uma pena que muitos leitores (a maioria?) não façam ideia do trabalho que é traduzir um livro e do constante equilíbrio necessário para a tradução se manter fiel ao conteúdo e ao estilo do autor original sem descuidar da beleza do que foi escrito (ou da feiura, porque existem textos medíocres em qualquer idioma) na língua de destino.

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  3. Adorei a entrevista Guilherme. Esse assunto de tradução, línguas estrangeiras sempre me fascinaram.

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