A alcunha de ‘poeta maldito’ é bastante brega. Serve designar aqueles que são eleitos – seja pelo público leitor (ou não) , seja pela crítica especializada (ou não) – como os bad boys da literatura em versos. Frequentemente escrevem poesias pessimistas, violentas, eróticas, transgressoras. Todo adolescente que se preze, em algum momento, sentiu-se um poeta maldito.

Claro que isso não quer dizer necessariamente que eles sejam ruins. Os que são bons, aliás, geralmente são donos de obras bastante maduras, quando se é capaz de enxergar através da cortina de fumaça das paixões e cagadas adolescentes. Roberto Piva é, talvez, um dos melhores exemplos disso na poesia brasileira.

Nascido em 1937 e falecido em 2010, publicou seu primeiro livro, Paranóia, em 1963. Já nessa obra mostra as características que marcaram sua produção posterior – e que lhe valeram a famigerada etiqueta.

O foco é a cidade de São Paulo, visitada a partir de uma poética que lembra bastante a estética beat: drogas, influências surrealistas e subversão se combinam. Junta-se a isso um homoerotismo denso, e referencias literárias e religiosas em profusão. O resultado é algo, ao mesmo tempo, bizarro e poético – casando com várias concepções modernas de beleza, de Baudelaire a Breton.

Os versos longos e verborrágicos, assim como um sentimento um tanto apocalíptico, remetem, quase que inevitavelmente, a Ginsberg – que parece ser uma influência bastante poderosa, aliás, para Piva. Existem, no entanto, algumas diferenças fundamentais.

A principal, talvez, é que Ginsberg era um nômade, e Piva nunca ia muito longe de São Paulo. Isso pode ser visto pela forma com que as paisagens da cidade dominam os versos, sendo que praças e ruas são retratadas de modo ao mesmo tempo depreciativo e carinhoso – coisa que apenas alguém profundamente ligado ao lugar poderia fazer.

Piva era um poeta profundamente transgressor, mas não desprezava a tradição que tinha atrás de si, o que torna sua obra especialmente rica. Em Paranóia ele ainda estava começando e obviamente não atingira todo seu potencial. Também ainda não existiam suas volumosas referências xamãnicas. Mesmo assim, Paranóia já é um livro marcante, com trechos certamente ‘inesquecíveis’, seja por sua estranheza, seja pelas tessituras poéticas complexas que lhe são peculiares – vide o o poema ‘A piedade’:

 

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento

abatido na extrema paliçada

os professores falavam da vontade de dominar e da

luta pela vida

as senhoras católicas são piedosas

os comunistas são piedosos

os comerciantes são piedosos

só eu não sou piedoso

se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria

aos sábados à noite

eu seria um bom filho meus colegas me chamariam

cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio

bóia? por que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as

estátuas de fortes dentaduras

iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos

pederastas ou barbudos

eu me universalizaria no senso comum e eles diriam

que tenho todas as virtudes

eu não sou piedoso

eu nunca poderei ser piedoso

meus olhos retinem e tingem-se de verde

Os arranha-céus de carniça se decompõem nos

pavimentosos adolescentes nas escolas bufam como cadelas

asfixiadas

arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através

dos meus sonhos