Flip 2012 – “As pessoas mais engraçadas que eu conheci são deprimidas” (Jonathan Franzen)

em 6 de julho de 2012

Clique para ver grandão.

“Parece o Mickey Mouse.” Foi assim que Johnatan Franzen abriu sua coletiva de imprensa na Flip 2012, se referindo a um gravador que ficou posicionado ao seu lado durante a conversa. O comentário seguiu acompanhado de um riso que voltava a aparecer de tempos em tempos, revelando um pouco da simpatia e timidez do autor. O clima, no início, foi de constrangimento recíproco: de um lado, Frazen se sentindo o centro das atenções, como em uma “difficult and awkward party“, revelou. De outro, o resto da sala com certo receio de perguntar. Talvez por nas últimas declarações o escritor soar como alguém ríspido. Um silêncio entre falas se instaurou. Em seguida, tentando continuar, ele mostrou uma camiseta da Associação Cairuçu de Aves de Paraty, incentivando a proteção aos pássaros. Esse assunto também seria retomado durante a coletiva, seja por sua paixão pelas aves – que rendeu um dos momentos divertidos sobre como ele não estava nos EUA quando saiu na revista TIME, justamente por estar na Bolívia praticando seu hobby -, ou pela abordagem do tema em Liberdade.

Aos poucos, o clima de conversa se instaurou e os silêncios desapareceram. Em uma das primeiras perguntas, Frazen é questionado sobre como é escrever sob o ponto de vista feminino, como é o caso de Patty em Liberdade. O autor, apesar de brincar sobre essa resposta ser um segredo de ofício, contou que conviveu com mulheres a vida toda e que “se você é um bom jornalista ou observador, consegue captar o que alguém pensa convivendo duas horas com a pessoa.”. Quando perguntado sobre a intensidade dos seus personagens e como ele conseguia passar isso para o papel, o autor falou que existem vários tipos de amor e que, em um exemplo, a maioria de seus amigos é um “amor à primeira vista”. Ao escrever, ele tenta encontrar esse amor.

Ainda falando sobre processo de escrita, o autor disse que fazer ficção preenche sua identidade. Dentro de seus livros, existem objetos simbólicos que o representam. Ao escrever notas sobre seu novo romance, a sensação é de, ao mesmo tempo, estar fora de si e se encontrar, não ficando nunca entediado.”É como o paraíso.”

Sua ideia de personagem é alguém que carregue conflitos. Quando perguntado se ele gostava de todos os seus personagens, mesmo os antagonistas, ele disse que os ama. Se ele deixa de amar algum personagem, é preciso parar de escrever e mudar alguma coisa. “O Brasil está me deixando filosófico”, brincou após algum tempo. Frazen ainda confessou que chorou ao fim de As correções e que tem dois amigos que leem o que ele escreve antes de publicar qualquer coisa, “apenas para ter certeza de que eu não sou um lixo”. Para ele, a literatura é “um espaço onde você pode preservar você mesmo.” Conhecido por ser adverso à tecnologia, o escritor explicou que, com a existência de internet e redes sociais, você não precisa mais gastar tempo com você mesmo, pois sempre tem um assunto banal para falar com seu amigo e um e-mail para responder, sem espaço para uma reflexão interior.

Ao fim da coletiva, Frazen retornou ao assunto de seus personagens, dizendo que existe, sim, muita solidão e depressão neles, mas, para ele “as pessoas mais engraçadas que eu conheci são deprimidas e eu quero alguém engraçado nos meus livros”. Uma das perguntas que não foram levantadas durante a coletiva era sobre sua amizade com David Foster Wallace. Logo após citar a depressão e as pessoas que sofrem disso, Franzen frisou que seu melhor amigo, e o mais divertido de todos, sofria dessa condição. Sem citar o nome, o escritor falou de suicídio, os livros e, acima de tudo, a visão irônica sobre a vida. A partir desse ponto, Franzen encerrou sua coletiva citando que a tristeza e o isolamento fazem as pessoas deprimidas serem observadoras argutas do cotidiano e com as críticas mais engraçadas, divertidas e verdadeiras do mundo que as cerca e da qual fogem.

Resumindo, nós (Felippe e Dindii) amamos o Frazen.

Um comentário para “Flip 2012 – “As pessoas mais engraçadas que eu conheci são deprimidas” (Jonathan Franzen)

  1. Tá aí uma coletiva que eu gostaria de ter acompanhado de perto, sobretudo, pelo relatado aqui, ó:

    “Ao fim da coletiva, Frazen retornou ao assunto de seus personagens, dizendo que existe sim muita solidão e depressão neles, mas, para ele “as pessoas mais engraçadas que eu conheci são deprimidas e eu quero alguém engraçado nos meus livros”. Uma das perguntas que não foram levantadas durante a coletiva era sobre sua amizade com David Foster Wallace. Logo após citar a depressão e as pessoas que sofrem disso, Franzen frisou que seu melhor amigo, e o mais divertido de todos, sofria dessa condição. Sem citar o nome, o escritor falou de suicídio, os livros e, acima de tudo, a visão irônica sobre a vida. A partir desse ponto, Franzen encerrou sua coletiva citando que a tristeza e o isolamento fazem as pessoas deprimidas serem observadoras argutas do cotidiano e com as críticas mais engraças, divertidas e verdadeiras do mundo que as cerca e da qual fogem.”

    Franzen perfeito.

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