A Flip e o Ruído Branco

Ian McEwan acaba de passar por mim. O grande autor inglês caminha cuidadosamente pelo pavimento irregular do centro histórico, acompanhado por uma jovem desconhecida. Penso em dizer alguma coisa, mas tudo que posso pensar em dizer me parecem besteiras: fazer sobre seus livros os mesmos comentários que ele é obrigado a ouvir à exaustão, entregar-lhe em mãos o exemplar recém-adquirido de seu novo livro e pedir-lhe um autógrafo, dizer que sou seu grande fã (como se ele fosse um escritor iniciante ou um escritor obscuro que se sentiria realmente emocionado diante do acontecimento improvável de encontrar um admirador). Não digo nada. Ian McEwan se afasta, e eu sinto que deixei passar uma chance única. Logo, perceberei que me engano.

Isso foi na noite de quinta-feira. É a primeira vez que visito a Flip. Tudo ali é novidade e, como acontece quando estamos diante de novidades, recebo-as com simpatia e empolgação. Um sujeito vestido de palhaço recitando poesias a 1 real, os monges com seus livrinhos zen, a multidão que caminha tranquilamente, pronta para aplaudir cada atração. Assisto à abertura feita por Luis Fernando Verissimo e à primeira conferência, sobre Carlos Drummond de Andrade. O que dizem Silviano Santiago e Antonio Cícero não é muito diferente (talvez menos aprofundado) do que uma aula qualquer na já terminada faculdade de Letras, mas estou disposto a me deixar levar pela atmosfera de turista (um turista, como se sabe, é um ser disposto a ignorar imperfeições e amplificar as qualidades do local que visita). Leia mais

Flip 2012 – Balanço geral (Coletiva de encerramento)

“Cada ano eu fico feliz depois da Flip porque a cada ano a coisa cresce e aparecem novidades. A programação e o clima foram maravilhosos. Uma experiência muito feliz.” Essas palavras, ditas por Liz Calder, idealizadora e presidente do Conselho Diretor do evento, iniciaram a coletiva de encerramento da Flip 2012, realizada na Pousada do Ouro no início da tarde desse domingo.

Em seguida, Mauro Munhoz, responsável pela Direção Geral da Flip, falou sobre alguns números desse ano, que contou com 135 eventos e cerca de 25.000 pessoas passando por Paraty nos 5 dias de festa. Segundo ele, as atrações foram mais bem distribuídas pela cidade, em um formato que começou a ser melhor desenhado no ano passado, colocando, por exemplo, a Flipinha no Centro Histórico e mais variedade de opções na Praça do Telão. Ele também destacou o impacto do evento nas redes sociais, por onde foi transmitido ao vivo e possibilitou que internautas participassem no envio de perguntas. Foram 170.000 pessoas atingidas no Facebook.

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Flip 2012 – Encontro com Franzen (from the block)

Toda a seriedade que se esperava do nome principal da Flip 2012 foi quebrada logo que Jonathan Franzen entrou bailando no palco da tenda dos autores. Alguns assuntos sérios foram abordados ao longo da entrevista, mas o clima geral foi de franca descontração. Assim como as demais, a mesa deveria ser aberta com a leitura de um trecho de um livro de Franzen, mas foi preciso encontrar um exemplar, em inglês, de Liberdade entre a plateia, já que o autor esquecera o seu. “É um livro muito grande para se trazer… dos Estados Unidos”, brincou ele.

Entre as principais obras de Franzen, tanto Liberdade quanto As Correções falam de famílias infelizes. Esse ponto foi destacado pelo mediador para abrir a entrevista, citando a famosa frase inicial de Anna Karenina, “todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz a sua maneira”, para perguntar a Franzen de onde vinha seu interesse por famílias infelizes. Depois de uma breve reflexão, o escritor afirmou que não havia sido infeliz, mas levantou em seguida a questão: se tudo estivesse bem com uma pessoa, por que alguém leria sobre ela? Os escritores, portanto, exageram os piores momentos. A vida comum não é suficiente para os leitores, por isso os escritores tendem a pular os melhores momentos e se concentrar nos conflitos.

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Flip 2012 – “As pessoas mais engraçadas que eu conheci são deprimidas” (Jonathan Franzen)

Clique para ver grandão.

“Parece o Mickey Mouse.” Foi assim que Johnatan Franzen abriu sua coletiva de imprensa na Flip 2012, se referindo a um gravador que ficou posicionado ao seu lado durante a conversa. O comentário seguiu acompanhado de um riso que voltava a aparecer de tempos em tempos, revelando um pouco da simpatia e timidez do autor. O clima, no início, foi de constrangimento recíproco: de um lado, Frazen se sentindo o centro das atenções, como em uma “difficult and awkward party“, revelou. De outro, o resto da sala com certo receio de perguntar. Talvez por nas últimas declarações o escritor soar como alguém ríspido. Um silêncio entre falas se instaurou. Em seguida, tentando continuar, ele mostrou uma camiseta da Associação Cairuçu de Aves de Paraty, incentivando a proteção aos pássaros. Esse assunto também seria retomado durante a coletiva, seja por sua paixão pelas aves – que rendeu um dos momentos divertidos sobre como ele não estava nos EUA quando saiu na revista TIME, justamente por estar na Bolívia praticando seu hobby -, ou pela abordagem do tema em Liberdade. Leia mais

Os melhores jovens escritores brasileiros (Granta)

Há um ano, na Flip 2011, a Granta anunciou um projeto que consistia em selecionar os 20 nomes de jovens autores brasileiros com menos de 40 anos, talentos promissores, que seguiriam exemplo de outras publicações realizadas pela revista no mundo. Desde então, um extenso trabalho de triagem foi realizado. Ontem à tarde, em coletiva de imprensa realizada na Casa da Cultura em Paraty, o resultado desse projeto foi divulgado. Leia mais

Flip 2012 – Apenas literatura, um encontro entre Enrique Vila-Matas e Alejandro Zambra

por Felippe Cordeiro e Taize Odelli

A literatura se dobra sobre si mesma, mas abre a conversa entre as pessoas. Com isso, Paulo Roberto Pires abriu a mediação da segunda mesa da Flip 2012, falando sobre o que uniu Enrique Vila-Matas e Alejandro Zambra em “Apenas literatura”: o uso de referências dentro de suas obras. Com esse tema os dois escritores dialogaram sobre a honestidade dentro da literatura, de admitir que ela não é original, inédita, mas sim que baseia-se em várias obras, em todos os elementos da cultura, para ser criada. “Há pessoas na Espanha que acreditam serem os primeiros. Aqui também. Não há memória cultural”, disse Vila-Matas sobre como cita o que já foi escrito para compor seus próprios livros. Leia mais

Flip 2012 – Moves like Lenine

“Isso é só o começo!” Essas foram as primeiras palavras cantadas por Lenine em seu show. E, para mim, assim foi mesmo: havia perdido a conferência de abertura com Luis Fernando Veríssimo, Antonio Cícero e Silviano Santiago, e não estava particularmente interessado na Ciranda de Tarituba que tocou antes – minha porção de raízes se apresentaria depois, com o cantor pernambucano.

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