Leandro Ferreira/Divulgação

Rapidinhas do Festival do Rio #3

(Foto: Leandro Ferreira/Divulgação)

O fim está próximo! O Festival do Rio1 entrou em seus últimos dias e quem acompanha de perto, embora já cansado e consideravelmente mais pobre, tem que correr para assistir aos últimos filmes de sua wish-list.

Por isso, cruzei a cidade até a Gávea e no belo e amplo Estação Vivo consegui ver Deus Ama Uganda (2013, de Roger Ross Williams, mostra Fronteiras, trailer no final da postagem), impressionante ao retratar a perseguição a homossexuais por fundamentalistas cristãos, com foco na influência de doutrinas e missionários estadunidenses nesse processo. Vale a pena ater-se a esse filme um pouco mais do que apenas com um comentário: até certa altura ele funciona como uma simples exibição do serviço missionário prestado pela organização religiosa IHOP no país africano e, por abster-se de qualquer inclinação crítica, parece ser favorável à missão evangelizadora. Muda completamente, contudo, quando mostra a influência dos EUA nas políticas públicas de saúde (mais precisamente nas medidas contra o surto de HIV/AIDS) do país, quando mostra que os pastores pregam ideologias claramente homofóbicas e que parte da população, desinformada e mística, compra esses ideais e parte para uma verdadeira cruzada contra os gays; ainda quando tribos são coagidas pelos missionários a se converterem ao Cristianismo e, no mais chocante dos momentos, quando entrevistados do filme, simpatizantes e líderes LGBT no país, sofrem retaliações – um deles chega a ser morto. Leia mais

  1. O homem de braços abertos na imagem em destaque é o diretor Lee Daniels, de Preciosa (2009), que veio divulgar seu novo filme, The Butler, com Forest Whitaker e Oprah Winfrey

Rapidinhas do Festival do Rio #2

A competição oficial Première Brasil do 15° Festival do Rio, nesse tumultuado anno domini de 2013, tem oferecido um desafio extra aos jornalistas, críticos e cinéfilos que a acompanham de perto: cobri-la é consequentemente também cobrir a nova onda de manifestações que tem tomado a cidade, liderada pela classe de professores da rede pública1, com novas vergonhosas cenas de abuso e força-bruta policial. Assim, os filmes da competição, que tradicionalmente têm sessões de gala no Cinema Odeon, estão sendo transferidos para outras salas da cidade. Localizado na Cinelândia, próximo da Câmara do Rio, o cinema está no olho do furacão.

Em nota divulgada no site oficial os organizadores afirmam que o “Festival do Rio mantém seu compromisso assumido com a população do Rio de Janeiro e com a cultura da cidade”, justificam a escolha do Odeon pela sua tradição e asseguram que a programação não será comprometida. Leia mais

  1. Imagem em destaque via portal Uol

Rapidinhas do Festival do Rio #1

Cinéfilos do mundo todo, uni-vos!

O 15° Festival do Rio está a todo o vapor, com sessões das 12hs às 22 horas  sem contar a mostra Midnight Movies, com filmes como Kink – Sadomasô Online (2012, de Christina Voros)  e trazendo até Dakota Fanning à cidade, para lançar Night Moves (2013, de Kelly Reichardt, mostra Panorama).

Não podemos esquecer, contudo, que esse é um festival com a cara do Brasil; ou seja, com o jeitinho brasileiro de improvisações e a organização capenga. Filas e atrasos nas sessões são os menores problemas que os cinéfilos enfrentam, mas, felizmente, este último não tem sido muito frequente  e nem poderia, uma vez que a proposta do evento é que se emende uma sessão em outra, sessões que muitas vezes ocorrem em bairros diferentes, o mínimo que se espera da organização é severidade nos horários para que o espectador não perca o próximo filme de sua agenda. Leia mais

Os Livros e o Filme: ‘Flores Raras’

“A arte de perder não é nenhum mistério; 

Tantas coisas contém em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Um filme para preencher um poema – a isso se propõe a obra de Bruno Barreto. Elizabeth Bishop, a poeta americana vencedora do Pulitzer e do National Book Award, começa esse filme num banco do Central Park ao lado do amigo Cal, o escritor Robert Lowell, lendo os dois fracos versos que até então havia conseguido escrever daquele que talvez seja seu poema mais famoso, Uma Arte 1.

Àquela altura a dificuldade de Elizabeth em desenvolver o poema não estava na técnica, mas no sentimento. Anglo-saxã, mesmo tendo sofrido dramas intensos como a perda, ainda na infância, da mãe e do pai e mergulhar sua melancolia em infinitos copos de gim com tônica, Bishop ainda não havia experimentado a sensibilização dos trópicos, os sentimentos que suam a pele com o sol de uma cidade como o Rio de Janeiro. Diante das críticas de Cal às falhas de seu poema, Elizabeth anuncia que pretende viajar, ao que o amigo, irônico, responde: Ah, a cura geográfica! Leia mais

  1. A versão enxertada ao longo dessa crítica foi retirada do livro Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, da Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto, que em breve terá resenha aqui no Posfacio

Camille Claudel, um mistério em plena luz

Há um mistério que envolve Camille Claudel (1864-1943), a escultora do século XIX, aluna e amante de Auguste Rodin e irmã do escritor Paul Claudel. Autora de A Valsa (1892), As Fofoqueiras (~1900) e A Idade Madura (1894-2000, abaixo), Camille foi internada pela família em 10 de março de 1913, uma semana após a morte de seu pai (e maior protetor), por seus surtos esquizofrênicos e episódios depressivos, permanecendo internada por trinta anos, até sua morte, em 19 de outubro de 1943. Leia mais

Top 5 músicas para…

Os funcionários da loja de discos Championship Vinyl, três fanáticos por cultura pop cujo hobby é fazer listas: as 5 melhores músicas para ouvir numa segunda-feira, os 5 empregos dos sonhos, os 5 melhores singles de todos os tempos…

Essa sinopse é de Alta Fidelidade, um dos livros essenciais de Nick Hornby, que virou filme pelas mãos do cineasta Stephen Frears e estrelado por John Cusack (também creditado como roteirista) e Jack Black – cuja cena musical é impressionante, e foi relançado pela Companhia das Letras esse ano.

E como todo bom site que se preze a conseguir milhares de visitas de maneira fácil, adoramos fazer listas e até listar as listras de outrem. Dessa vez deixamos a preguiça de lado, poderíamos indicar os top 5 do Blog da Companhia das Letras, e vamos fazer nossas listas musicais. Sobre o que? Confere aí:

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Crítica: ‘Hannah Arendt’ e a banalidade do mal

Margarethe Von Trotta é uma diretora política, entretanto, infelizmente, não é muito prolífera. São poucos os seus filmes (cerca de 20 títulos), muitos para a televisão e feitos em colaboração com seu marido, Volker Schlondorff, mas em sua enxuta filmografia destacam-se pequenas joias, como A Honra Perdida de Katharina Blum (1975) e Rosa Luxemburgo (1986).

Pertencente à nova onda do Cinema alemão iniciada nos anos 60 e da qual fizeram parte Werner Herzog e Rainer Weiner Fassbender, Von Trotta, berlinense de 1942, sempre voltou-se ao passado para entender a história de seu país, como alguém que tenta unir peças de um infinito quebra-cabeça do qual, mesmo não percebendo, certamente faz parte. Leia mais

Uma Vida no Cinema – Nelson Pereira dos Santos

Nelson Pereira dos Santos é um cineasta marco do cinema brasileiro. Ainda que atualmente seus filmes se resumam a documentários um pouco preguiçosos, sua carreira contém alguns dos momentos mais fortes da produção nacional.

Talvez o cineasta mais literário do país, Nelson Pereira dos Santos adaptou A Missa do Galo, A Terceira Margem do Rio, Tenda dos Milagres, O Alienista, Memórias de Hans Staden (com o maravilhoso título de “Como Era Gostoso Meu Francês”), Vidas Secas e Memórias do Cárcere, filmes que provavelmente o levaram à Flip. Leia mais

Eduardo Coutinho na FLIP

Fumar e filmar são parecidos.

Foi na minha primeira semana no Rio de Janeiro que encontrei Eduardo Coutinho. Àquele tempo fazia pouco que me apresentaram seu Cabra Marcado para Morrer (1985), hoje reconhecido como obra máxima dos documentários brasileiros, iniciado na década de 60 como um longa de ficção, interrompido pelo Golpe Militar e finalizado duas décadas depois, com a reabertura política. Leia mais

A colagem anônima de Alan Berliner

Aproveitando a ocasião recente da 18ª Edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, decidi versar um pouco sobre a obra do Alan Berliner, outro documentarista americano por quem tenho muito apreço. Berliner esteve em São Paulo, pela primeira vez, para conversar sobre seu novo lançamento, First Cousin Once Removed (Primo de Segundo Grau), e também para falar um pouco de seus filmes anteriores, pouquíssimos explorados aqui no Brasil.

Conheci os filmes de Alan Berliner no ano retrasado, ainda quando estava escrevendo minha dissertação de mestrado. Mais ou menos na mesma época em que entrei em contato com os documentários do Ross McElwee, que acabou por se tornar meu objeto de estudo atual. Da mesma forma que nos documentários de McElwee, os filmes de Alan Berliner apresentam questões relativas à reflexividade do diretor nos filmes e de seu universo familiar. A metodologia empregada por Berliner para a construção dos filmes, entretanto, difere-se bastante da do outro diretor. O afinco com o qual Berliner utiliza-se de material de arquivo, de home-movies anônimos e o meticuloso trabalho de montagem desempenhado pelo diretor (Berliner disse, na conferência do É Tudo Verdade, que a única coisa que nunca deixaria de lado é a possibilidade de ser responsável pela montagem de seus próprios filmes) são pontos-altos de sua autoria como documentarista. Leia mais

O Livro e o Filme: ‘A Insustentável Leveza do Ser’

Praga ficou feia (p.229)

 

Em meio aos canhões soviéticos, durante a tensão política, no ápice de uma Primavera histórica, um casal tenta suportar a vida, sobrevivendo de um amor pesado e doloridos pelo fardo de existir. Assim é o intocável romance de Milan Kundera 1, best-seller mundial que há quase trinta anos encanta, angustia e polemiza o mundo literário.

Na Praga da virada das décadas de 60 e 70, Tereza e Tomas, apaixonados, tentam partilhar a vida. Ela, uma ingênua obstinada e traumatizada, revela em seus pesadelos as inquietações de uma alma doente. Ele, um médico engolido pelo próprio ego, escravo de seus desejos, adoece de amor – um amor que nunca consegue demonstrar completamente. Entre eles a deusa Sabina, arquétipo feminino, símbolo do sexo, da fugacidade, transitoriedade e talvez até superficialidade da vida. Também entre eles Karenin, não o marido de Anna da Rússia, mas um cachorro que simboliza a família, o laço de união, a normalidade e, sobretudo, a morte. Leia mais

  1. Dedicado a @Bazzzoca que é Team Kundera desde pequena, será até a morte e também nas vidas futuras

Prazer, Ross McElwee

Continuando de onde paramos Autorreflexão em Documentários, vou expor um pouco hoje sobre a obra de um diretor que, embora pouco explorado em solo brasileiro, é um dos cineastas mais comentados em bibliografia estrangeira quando se abordam questões de autobiografia e ensaísmo aplicado ao Cinema Documentário. Na verdade, ele é também minha “menina dos olhos” do momento, sendo o cineasta a quem dedico meus estudos atualmente. Trata-se do estadunidense Ross McElwee (1947– ).

McElwee começou a filmar no final dos anos 1970 e dirigiu sete longas-metragens até o momento, após filmar alguns curtas no início de sua carreira. Seu filme mais conhecido é Sherman’s March (1986), seu primeiro longa-metragem, pelo qual o diretor recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival de Sundance no ano seguinte. Em 2007, McElwee recebeu o Career Award no Full Frame Documentary Festival. Em edições anteriores do festival, diretores-chave do documentarismo norte-americano haviam sido contemplados com esse mesmo prêmio de reconhecimento, como Albert Maysels, D.A. Pennebaker, Barbara Kopple e Richard Leacock.

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