Crítica: Uma Longa Viagem

Se for uma questão de puro gosto pessoal, prefiro o cinema que questiona a forma, que constrói linguagens, que escapa às formas tradicionais de narrativa e exige que o espectador faça um esforço para assimilá-lo em sua estética e conteúdo. Na minha afinidade pelos modernos, fica fácil esquecer que o cinema clássico possui, às vezes, um charme irresistível e caminhos certos para nos tocar emocionalmente.

Setembro começa a trazer as pérolas dos estúdios: os filmes para ganhar Oscar. Diretores renomados, atores premiados e o melhor que Hollywood sabe fazer, o que muitas vezes quer dizer se transportar para a Europa. Leia mais

Crítica: ‘Bem-Vindo a Nova York’

A exploração do homem pelo homem começou da exploração da mulher pelo homem.  – Karl Marx

 

É difícil tornar palatável ao público do Cinema, que muitas vezes busca apenas entretenimento, uma história tão sombria e odiosa como a de Dominique Strauss-Kahn (DSK), o outrora todo-poderoso do Fundo Monetário Internacional, casado com uma bilionária das comunicações, que caiu em desgraça e foi preso em Nova York depois da denúncia de uma camareira de abuso sexual. Talvez seja por isso que em Bem-Vindo a Nova York o diretor Abel Ferrara nem tente dourar a pílula e nos entregue uma história que ao longo de duas horas é pura brutalidade e horror.

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Crítica: ‘Lucy’

Lucy é um filme bem estranho. Saído da mente insano-futurista de Luc Besson, de O Profissional (1994) e O Quinto Elemento (1997), gira em torno de uma inocente garota forçada pelo tráfico chinês (ou coreano, essa é uma das confusões da história) a servir como “mula”; a moça se vê transformada numa super-humana, cujas capacidades mentais se elevam gradativamente até os 100%, quando o pacote de drogas sintéticas rompe em seu estômago e o conteúdo é absorvido pelo organismo.

A história, que demorou dez anos para ser realizada, mistura um pouco de filosofia da mente, com As Portas da Percepção1 e outros filmes que já flertaram com questões sobre a potencialidade humana diante de um “conhecimento maior”, como 2001 – Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) e A Árvore da Vida (Terrence Malick, 2011), além de A Origem (Christopher Nolan, 2010), inspiração admitida pelo próprio Besson. Mas o diretor também consegue impor sua assinatura, salpicando muitas cenas de ação que, infelizmente, enfraquecem qualquer exploração filosófica mais profunda, transformando tudo em, apenas, pseudociência.

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  1. Importante livro de Aldous Huxley (1954), que narra suas experiências lisérgicas com a mescalina, alucinógeno extraído do peiote.

Crítica: Magia ao Luar

Woody Allen nunca se afasta muito do “cinema de Woody Allen”: seus temas, seus personagens, os arranjos de roteiro repetem-se sempre, obsessivamente. Há filmes melhores e piores, mas o estilo do diretor corre marcante por todos eles. Ainda assim, desde Tudo Pode Dar Certo um filme não proporcionava a sensação de “clássico Woody Allen” como Magia ao Luar.

O mote é o mesmo utilizado pelo diretor em, pelo menos, outros dois filmes: seu protagonista/alter ego é contratado para desmascarar um aparente evento sobrenatural. Médiuns, mágicos e charlatães de forma geral são tipos comuns no cinema de Allen, sua forma de transportar o pastor em crise de fé de Ingmar Bergman para seu universo aparentemente mais leve e cômico. Essas figuras servem à narrativa de Allen com duplo propósito: escancarar o desejo humano de se aferrar a qualquer coisa que prove que a existência é mais do que miserável e finita, e a fluidez moral de um mundo em que a existência não é mais do que miserável e finita. Leia mais

Crítica: ‘O Mercado de Notícias’

O premiado diretor gaúcho Jorge Furtado, especializado em curtas-metragens (Ilha das Flores, Esta não é sua Vida), está atualmente em cartaz com um novo projeto que discute o jornalismo brasileiro nos dias atuais. Para tanto, se vale da peça The Staples of News (1625), de Ben Johnson (1572-1637), o segundo dramaturgo mais bem sucedido da Inglaterra elisabetana (o primeiro foi Shakespeare), que expõe o período do surgimento da profissão jornalística e a mercantilização da notícia, ainda antes da revolução de Gutenberg.

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Crítica: ‘O Estudante’ e as ilusões perdidas

Tenho uma professora que, inspirada numa frase célebre, diz que aquele que não se fascina pelo socialismo na juventude é insensível, e aquele que permanece fascinado na velhice é bobo. O Estudante é mais uma produção argentina que se arma de poucos recursos para contar uma boa história, adotando o realismo puro e simples, sem pirotecnias ou intricadas tramas, construindo um retrato verossímil de parte da juventude latino-americana universitária e do seu contato com os movimentos políticos e sociais.

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Crítica: ‘Instinto Materno’ – você sabe com quem está falando?!

Existem nomes que parecem definidores de caráter, Cornelia é um deles e pode ser associado a força, poder e certo perigo. Suas possuidoras já foram imperatrizes, uma foi casada com o próprio Júlio César e outra era Africana de sobrenome. Cornelia Keneres, contudo, não é tão poderosa assim, ostenta apenas uma influência personalista e um pouco fora de moda sobre os nouveaux riches da alta classe romena, mas demonstra todo seu poder de fogo e rigidez moral para livrar o filho das implicações judiciais pelo atropelamento e a morte de um jovem pobre.

Essa é a trama de Instinto Materno, de Calin Peter Netzer, escrito por Razvan Rabulescu e vencedor do Urso de Ouro e do prêmio da crítica no último Berlinale. Cornelia é vivida por Luminita Gheorghiu (de 4 meses, 3 semanas e 2 dias), respeitada atriz de teatro, que disse ter sentido receio com a proposta de viver, pela primeira vez na carreira, uma personagem rica. O resultado alcançado, contudo, beira a maestria, e sua construção nos faz lembrar as grandes matronas do teatro clássico, bem como (e não só pelo nome e aparência) a Carmela Soprano (Edie Falco) do seriado The Sopranos (HBO, 1999-2007). Leia mais

Crítica: ‘Planeta dos Macacos: o Confronto’

A humanidade tem fetiche pela autodestruição. Adoramos ver a civilização reduzida às cinzas por meio de catástrofes naturais (Impacto Profundo, Amageddon), monstros gigantes (Godzilla, Círculo de Fogo), seres de outros planetas (Independence Day, Distrito 9) ou epidemias letais (Extermínio, Ensaio Sobre a Cegueira). Quanto mais sofrido for nosso fim, mais nos divertimos assistindo; quanto mais realista for a construção imagética, mais nos prendemos à trama. O gênero faz tanto sucesso que nunca esteve preso às limitações tecnológicas, e criatividade não faltou nos primórdios do Cinema para nos trazer esse tipo de aventura (O Dia Em que a Terra Parou, Guerra dos Mundos), com resultados mais ou menos toscos, refeitos em tempos mais recentes com toda a tecnologia que se tinha direito.

A história de O Planeta dos Macacos firmou-se no topo dos sci-fis distópicos desde seu primeiro filme, lá em 1968, com Charlton Heston gritando “Tire suas patas fedorentas de mim, seu macaco desgraçado!” e o desesperador final em que os destroços da estátua da Liberdade são encontrados na praia. Nem H.G. Wells, nem George Orwell teriam escrito final melhor.

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Crítica: ‘O Grande Hotel Budapeste’

por Lidyanne Aquino

A ambientação onírica tem lá suas semelhanças, mas esqueça o contexto fofo de “primeiro amor de infância” de seu predecessor, Moonrise Kingdom. O Grande Hotel Budapeste, trabalho mais recente de Wes Anderson, é fiel às esquisitices do diretor, mas foge um pouco do que estamos acostumados a ver em seus filmes. À sua maneira, Anderson realiza uma mistura insana de gêneros para contar a história do lendário hotel fictício que nomeia o longa. O roteiro também é de sua autoria, e faz uma homenagem à vida e obra do escritor austríaco Stefan Zweig (1881–1942).

Zweig, o original, era judeu, e refugiou-se em Petrópolis (RJ) durante a Segunda Guerra Mundial. Em Grande Hotel, quem dá vida a ele é Jude Law, no papel do Escritor, em sua primeira atuação em uma obra de Anderson. Sua curiosidade aguçada o faz questionar o histórico do local, que é localizado na República de Zubrowka, região (inventada) da Europa.

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Crítica: ‘Malévola’ – e a sororidade no Cinema

Permita-me um pouco de otimismo: parece que novos tempos se avizinham, influenciados pela ascensão das minorias, por sociedades mais igualitárias e abandono de preconceitos servis. Evidente que mudanças assim não ocorrem de uma hora para outra, nem mesmo atingem todos os lugares de uma só vez. A História caminha a diferentes velocidades em cada canto do mundo, e grandes mudanças são sempre processuais, sofridas, dengosas. Mas até o Cinema já começa a mostrar-se influenciado por esses novos tempos, e se as produções alternativas (o “cinema de arte”) largaram na frente graças à percepção mais apurada, as grandes produções, e especialmente Hollywood, começam a recuperar o tempo perdido, apostando em histórias menos óbvias e até mesmo com consideráveis toques de subversão às “normas e aos bons costumes”.

Assim, Malévola, dos estúdios Disney, dirigido por Robert Stromberg e estrelado por Angelina Jolie, surge como um importante exemplo do novo olhar sobre o protagonismo feminino, encontrando espaço na prateleira cinéfila ao lado de outros filmes recentes igualmente engajados, como Valente (2012) e Frozen (2013), ambos também da Disney (e isso não me parece coincidência, o Géledes explica melhor).

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Crítica: ‘O Homem Duplicado’

Está na hora de começarmos a nos perguntar se o Saramago é um autor que funciona no cinema. À primeira vista, suas histórias sugerem um potencial para filmes conceitualmente bem originais, mas até então não tivemos um diretor que conseguisse fazer muito com isso. Cegueira tentou tratar a premissa fundamentalmente absurda com naturalismo, o que só deixou evidente o quanto os acontecimentos do livro não refletem de forma alguma o que aconteceria na vida real caso milhões de pessoas ficassem de repente cegas.

Parece heresia procurar defeitos nas obras de um dos autores mais aclamados da língua portuguesa, mas o fato é que, desconsiderando a inventividade da prosa, as narrativas do Saramago não funcionam muito além do espectro alegórico. Isso funciona em literatura, mas adaptações cinematográficas provavelmente precisavam de alguém com a coragem de um Kubrick, alguém que partisse da premissa básica para criar algo completamente diferente. Leia mais

Crítica: ‘Getúlio’

Os nostálgicos dizem que tempo bom era o de antigamente, dos governos militares e líderes de pulso firme (leia-se autoritários), em que havia menos corrupção e violência e os políticos eram mais honestos e bem dispostos. Era, enfim, uma era pujante da vocação política a que Weber se referia1 e nós, miseráveis habitantes desse vale de lágrimas chamado Presente, deveríamos invejá-la. Mas se dependesse do filme Getúlio, de João Jardim, essa teoria logo cairia por terra, pois, apesar das falhas levemente comprometedoras, a obra bem sucede ao mostrar que até mesmo o “pai dos pobres” sucumbiu diante das decisões mais difíceis, revelando um alheamento e fragilidade raramente associadas a sua figura de grande estadista.

Não é comum o Cinema brasileiro dedicar-se à reconstrução histórica, especialmente a política, tema espinhoso. Preferimos comédias descompromissadas ou ficções realistas, mas não reais, e é justamente por isso que o filme de Jardim tem importância, repensando um dos nomes mais relevantes da história nacional, comprometido com os detalhes e até disposto a certa análise crítica.

Nesse quesito, poucos filmes comparam-se a Getúlio – recentemente talvez apenas Flores Raras, o bom trabalho de Bruno Barreto. A recriação histórica é pontual e a presença de políticos importantes, como Tancredo Neves (no filme, Michel Bercovitch), à época ministro da Justiça, e Afonso Arinos (Daniel Dantas), líder da oposição na Câmara, são bem realizadas. Outros personagens, de menor proeminência política mas igualmente relevantes, como sua filha, Alzira (Drica Moraes, ótima), e sua esposa, Darcy (Clarissa Abujamra), também estão presente, servindo à composição de detalhes biográficos. Leia mais

  1. Max Weber, em A Política como Vocação.