Anos-Luz Depois: Confortavelmente perdida

Poucas vezes na vida, tive controle absoluto sobre as coisas que estavam acontecendo comigo em um presente momento. Os desastres  entre esses instantes são mais marcantes e rendem mais histórias. Lembro, por exemplo, quando era criança e fazia aula de ballet. A professora gritava para girarmos para esquerda e então 10 mini-bailarinas giravam graciosamente para a esquerda enquanto eu ia com a minha segurança embriagada e sem freios para a direita. Consigo contar três traumáticas vezes em que entrei no banheiro masculino por distração. Já me peguei em vários momentos pesquisando sobre sintomas de DDA ou surdez seletiva, sem conseguir concluir porque no meio encontrei um site muito legal que me fez mudar o rumo de tudo. Minha família tinha medo que eu me mudasse para São Paulo e fosse atropelada na Av. Paulista por não saber medir a distância segura dos carros. Não é à toa que eu chamo essa coluna de “Anos-Luz Depois”, pois marca o tempo que a luz viaja por distancias inimagináveis e universos inalcançáveis até que eu consiga me situar. O assunto desse mês não poderia ser qualquer outro que não minha mais recente perda de controle no tempo-espaço.

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Anos-luz Depois: Drummond, o poeta presente

Às vezes acontece de uma experiência te atingir de uma forma tão natural que, por mais que você consiga identificar o momento ou o que aquilo teve de especial, tornam-se necessárias algumas horas, ou mais, para começar a entender o que aconteceu de diferente com você. Foram algumas ocasiões em que eu saí do cinema, por exemplo, sem pronunciar palavra alguma a respeito do filme, dando lugar a um tipo de anseio e estado-existencialista-de-reflexão. O silêncio, de certa forma, marca bastante esse negócio de que algo mudou: é “clic” e depois silêncio, porque alguma coisa ali dentro da sua cabeça está ligando enquanto outras desligam e tudo que se pode fazer é esperar para ver o resultado, sem uma resposta precisa. O mesmo se passou com conversas, viagens, pessoas e com a leitura de um livro, quando, sem entender exatamente as razões, fiquei lendo e relendo alguns trechos de alguma página e depois aquilo ficou perseguindo minha imaginação. Leia mais

Anos-luz Depois: Como tudo começou

Um dos meus maiores problemas é (e sempre foi) começar alguma coisa. Talvez soe meio pesado e direto demais lançar essa frase assim, logo no início da coluna, mas acredite, passei muito tempo apagando e reescrevendo, até que me dei por vencida e resolvi deixar assim mesmo e dar continuidade ao texto. Pronto. Acabou o primeiro parágrafo e eu já posso respirar aliviada. Não foi tão difícil assim. (Na verdade, foi.)

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Anos-Luz Depois – Lesão por pensamento repetitivo

Love, love will tear us apart, again. Já perdi a conta de quantas vezes o meu inconsciente (que daqui pra frente chamarei de Agatha) estava caminhando pelo quarto do meu cérebro, andando de lá pra cá, assim meio entediado, despreocupado e descompromissado, e resolveu ligar o som para ouvir essa música repetidas vezes. Toda vez que ela faz isso, eu passo o dia cantarolando esse refrão, mentalmente ou em pequenos sussurros. O mesmo se repete com outras músicas, frases de filmes, trechos impactantes de livros e frases sem sentido. Leia mais

Anos-Luz Depois: Primeiro de Abril

Minha relação com a literatura passou por todos os tipos de altos e baixos. Já aconteceu de eu me apaixonar tanto por um livro a ponto de especular se ele não sentiria o mesmo por mim. Por outro lado, são muitas as leituras abandonadas no meio e algumas longas e indeterminadas pausas em que eu fiquei sem história alguma pra acompanhar antes de dormir.

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Anos-luz Depois – Eu estou te observando

Tudo começa com uma inquietação que surge do nada e gera um certo desconforto do corpo na cadeira, te obrigando a tirar os olhos do seu livro. Você olha pro lado, nada. Olha para o outro lado, nada. Ao retomar a leitura, aquela sensação de estar sendo observado volta a aparecer. Você olha pra cima de supetão. AHA! Por milissegundos, você flagra um olhar que rapidamente desvia do seu livro para a exata direção oposta, sustentando imóvel e artificial para o horizonte infinito, mas, passado alguns instantes, volta a criar vida e espreitar em sua direção com o intuito de saber se você já baixou a guarda, para que então possa voltar a bisbilhotar a sua leitura. Isso é o dia a dia de uma pessoa que lê em lugares públicos. Leia mais

Anos-luz Depois: Literatura do fim do mundo

“O último homem na Terra estava sozinho na sala. De repente, ouviu baterem na porta.” (Luiz Braz). O fim do mundo está chegando mais uma vez. Com data marcada, uma profecia de povos antigos e muitos rumores, a ocasião não chega a ser exatamente algo original e que me preocupe. Era isso que eu pensava, ao menos, até notar que esse pensamento apocalíptico bate à minha porta com uma certa frequência em sonhos. Já somei três vitórias contra o fim dos tempos enquanto dormia. Talvez o meu inconsciente acredite nesse papo de fim da humanidade, ou quem sabe ainda trata-se do meu eu do futuro mandando sinais diretamente de outra dimensão. Leia mais

Anos-luz depois: Onde está Wally?

Não é  novidade dizer que os autores bebem de várias fontes de arte e experiências para produzir um conteúdo novo. Essa história de “puramente original” não existe. Existe sim um olhar pessoal e criativo, que reflete em um resultado único ao nos depararmos com a obra final. Com isso, é possível que uma pessoa se depare com resquícios de uma obra de arte em alguma outra produção artística que entra em contato posteriormente. Isso desperta  uma das sensações mais deliciosas que podem acontecer, seja numa leitura, assistindo um filme ou observando uma pintura. Leia mais

Anos-luz depois: Síndrome da cadeira sem encosto

Há três meses eu decidi comprar um computador novo e optei por um desktop. A decisão  surgiu de diversos fatores que não merecem muita atenção, como configuração melhor por custo menor, a oportunidade de me deleitar com uma tela gigante, entre outras coisas, mas, principalmente, pelo fato de que eu já possuia um laptop que muito contribuía para eu ficar isolada na internet em todos os cantos possíveis, ou seja, com o desktop, eu também estava optando por um estilo de vida menos nerd sedentário e mais focado para cumprir tarefas e sair de perto da tela do computador. Leia mais

Anos-luz Depois – Literatura em 140 caracteres

 Não é novidade pra ninguém que o consumo de literatura muda a cada dia com a tecnologia e internet. Um dos assuntos mais debatidos, nesse sentido, são os e-books. Nessa discussão, há quem seja apocalíptico-exageradinho e diga que os livros de papel vão acabar e, de outro lado, há quem queira martelar todos os e-readers do mundo e sair abraçando e cultuando o amor livre aos sebos e bibliotecas (sem mencionar aqueles que têm uma opinião um pouco menos extremista do que eu citei para ambos os lados). De qualquer maneira, minha ideia na coluna desse mês é tentar abordar outras questões relacionadas ao assunto, contando um pouco sobre o que eu acho dessas novas ferramentas e como elas afetam a minha experiência pessoal de leituras. Leia mais

Anos-luz Depois (Sobre clichês e viajar sem sair do lugar)

O clichê é algo que todo mundo tenta evitar. Ninguém quer ser repetitivo e tornar um discurso enfraquecido por não apresentar um pensamento novo. Isso é bem curioso, uma vez que a publicidade, cinema e televisão basicamente trabalham com a referência e cópia. São de remakes, enlatados, adaptações e “homenagens” que a indústria da arte e formação de opinião sobrevive. E nem os livros escapam disso, com suas temáticas recorrentes e best-sellers que são tão parecidos um com os outros em seus estilos e temáticas. O que eu quero dizer é que todo mundo quer fugir do igual e querem vender essa imagem eterna de originalidade e novidade. Essa é a demanda da nossa era. Precisamos ser desesperadamente diferentes dos outros e, no entanto, nunca fomos tão iguais, tão próximos. Leia mais

Anos-Luz depois: Vontade literária

“Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer “a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada.” Começo a minha coluna, citando essa clássica passagem de Dom Casmurro para falar sobre vontades (prometo explicar melhor adiante). Meu primeiro contato com Machado de Assis foi através de Dom Casmurro quando tinha cerca de 13 anos. O livro me foi passado como um dever da aula de português da minha escola. Nessa época, eu e quase todos os meus amigos líamos quase que somente o que éramos obrigados pela professora, natural entre os primeiros frutos de uma geração que crescia entre computadores domésticos e videogames. Eu ainda tive a opção de viver entre tecnologia e brincadeiras de rua, numa cidade tranquila do interior, ou seja, tinha bastante distração para ficar longe dos livros, mas agora se eu quisesse uma nota satisfatória (e, com isso, o direito de não ter meus jogos e saídas com amigos vetadas), teria que encarar mais aquela leitura.

Preciso assumir que detestei. Todos os dias, tinha que me deparar com um personagem ranzinza que de tudo reclamava e adorava usar palavras difíceis. Desconfiava que Machado de Assis tinha um certo prazer em dificultar a minha vida e que existia uma conspiração internacional que só dizia que o livro é bom pra parecer cult. Olhos de ressaca? Cigana oblíqua e dissimulada? Gente, deixa a mulher então, que droga! Da minha memória literária da época (e excluindo os quadrinhos), só consigo salvar o Pedro Bandeira. Esse sim sabia conquistar a gente. Os Karas eram incríveis. Miguel, Crânio, Calú, Chumbinho e Magrí ficaram registrados na minha memória. Também posso agradecer ao Lewis Carroll por Alice no País das Maravilhas, livro que me acompanharia (e acompanha até hoje).

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