Dos livros que estão para chegar: Station Eleven

Station Eleven contém um cenário pós-apocalíptico. Pronto, está dito. E ficam perdoados os leitores impulsivos que abandonaram a resenha e foram à procura de um tema menos em voga. Afinal, poderíamos nos perguntar se, entre A Estrada e Jogos Vorazes, já não se andou falando o bastante sobre o fim da civilização. Obviamente, Emily St. John Mandel responderia com um bem enunciado “não”. E poderia ainda levantar seu livro e dizer, sem modéstia, “eis a prova”.

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Tempo humano, tempo onírico, tempo físico

Não há dúvida quanto ao fato de o tempo ser um dos mais misteriosos, elementares e desconcertantes fenômenos da realidade. E isso pensando tanto na física e nas ciências naturais, tentando entender o que é o tempo enquanto fenômeno quantificável e qualitativo; quanto na História (e em outras medidas nas ciências humanas em geral), para a qual a passagem do tempo é uma grandeza humana e um processo fundamental.

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Szymborska e a poesia simples

Desde a premiação do Nobel de 1996, a poeta polonesa Wisława Szymborska (1923-2012) passou a figurar entre as prateleiras das livrarias mundo afora, porém é fato que ela já era reconhecida e muito em seu país há décadas. Por todas essas décadas, desde 1952, a poeta publica livros de poesia e ocasionais ensaios críticos em número muito menor. Observe-se a data: o primeiro livro sai em 1952, apenas sete anos após o final da Segunda Guerra Mundial. Além disso, Szymborska tinha somente 29 anos à época, ou seja, sua juventude foi marcada pelo conflito europeu, que, como se sabe, afetou a Polônia de modo brutal. Não se trata de biografismo: tudo isso aparece claramente em sua poesia, motivo talvez pelo qual ela tenha sido tão lida.

Para além do fator histórico, a leitura dos poemas da poeta polonesa também atrai a muitos por sua “simplicidade” sempre enfatizada pela crítica, inclusive a estrangeira, afinal Szymborska é traduzida para o inglês desde 1981. Mas o que seria uma “poesia simples”? Como a criação poética de uma mulher que desde jovem passou por tantas reviravoltas em sua vida pode ser “simples”?

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O longo adeus e as credenciais de Marlowe

É interessante notar como o romance policial (o romance detetivesco, de mistério ou de investigação) tem sido responsável pela criação de uma galeria de personagens antológicos. O mais conhecido deles é certamente Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle. Mas podemos colocar nesse rol também Hercule Poirot, o afetado investigador criado por Agatha Christie (dessa autora, aliás, talvez pudéssemos incluir Miss Marple, a simpática velhinha que resolve intrincados crimes) e também o investigador Jules Maigret, criado por Georges Simenon. Quem sabe as próprias premissas ou a estrutura dos romances policiais acolha bem a exploração mais aprofundada de um dos eixos centrais da história: o personagem que investiga os crimes ou mistérios, permitindo que eles ganhem feições mais bem delineadas, personalidades mais bem esculpidas e um conjunto de cacoetes, trejeitos e costumes essenciais para o desenvolvimento de sua persona.

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Às avessas (e às direitas também)

Joris-Karl Huysmans não se tornou um escritor controverso, polêmico e celebrado à toa. Verdade seja dita, ele causou um baque estrondoso ao se chocar contra o solo, as questões e as certezas da literatura francesa do final do século XIX. Aliás, a metáfora utilizada para descrever qual foi o impacto literário de sua obra seminal não é gratuito, pois o próprio autor, num momento de inspirada lucidez conotativa, disse que seu livro caiu “como um meteoro na feira”.

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As lições de Alice Munro

Os contos de Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, da escritora canadense Alice Munro, abordam, na maioria dos casos, um curto período da vida de uma pessoa comum. Quase sempre é uma mulher. Muitas vezes ela se dedica ao lar e ao marido, ainda que o companheiro faça o antigo estilo sou-homem-não-tenho-sentimentos (pode ser, também, que tenha aderido à onda hippie, o que nem sempre se traduz num relacionamento mais cúmplice). São histórias, enfim, do cotidiano canadense do último meio século. E no entanto, apesar da preferência por figuras simples e locais, a obra de Munro se distingue pela universalidade.

A princípio, pode parecer que o alcance dos seus personagens vem sobretudo da facilidade da escritora em recriar perfis psicológicos. De fato, é impressionante observar que bastam alguns parágrafos para que o leitor entenda quem são as pessoas envolvidas na trama, quais são suas preocupações, quais os conflitos de interesses entre elas, em que proporção de forças se encontram etc. Para fins de comparação, entendam-se duas ou três páginas de Munro como equivalentes a dez de um romance comum em termos de ambientação.

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José Luís Peixoto dentro e fora da Coreia do Norte

Às vezes, na vida, uma obsessão particular pode nos fazer tomar decisões que assustam os outros, mas que são necessárias para nos satisfazer de algum modo. É o que fez José Luís Peixoto em 2012: “Propus-me a ir à Coreia do Norte e fui”. Dito assim, de modo bem português. O jovem escritor de Galveias, pequena cidade no Alentejo, fascinado a seu modo por regimes totalitários (mas sem concordar com suas políticas), decidiu se juntar a uma excursão para passar cerca de duas semanas no país conhecido por ser o mais fechado do mundo. E ainda escreveu sobre a experiência.

Dentro do segredo, lançado em 2012 em Portugal, é a memória do autor desses poucos dias em território norte-coreano, que foram vividos de uma maneira que poucos de nós, ocidentais, podemos imaginar. O regime fundado por Kim Il-sung, o “grande líder”, em 1948, pela criação da República Democrática Popular da Coreia, se mantém mesmo após sua morte. A chamada “ideia Juche”, baseada no culto à personalidade de Kim Il-sung e seus sucessores, bem como no militarismo extremado, é a responsável pela manutenção do Estado norte-coreano sob essas condições. Todas as decisões tomadas pelo governo são, de certo modo, secretas, até mesmo para a população do país. Daí o mistério todo que Peixoto decidiu enfrentar.

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Etgar Keret, a contemporaneidade e a ficção

A literatura israelense, assim como sua cultura e política, esteve constantemente marcada pela preocupação com os conflitos que marcam essa região e o espinhoso histórico que os circunda. Na contemporaneidade, por exemplo, um dos grandes escritores israelenses – que, aliás, ganhou o Nobel de Literatura – é Amós Oz, cuja obra expressa a crucialidade desses conflitos na tessitura mais cotidiana da vida. Oz construiu sua obra em profundo diálogo com sua militância política em torno da paz e da tentativa de encontrar uma solução que não fosse unilateral, mas congregadora (sua obra, não à toa, está, em boa parte, fundamentada no drama da difícil tentativa de deglutir todo um passado belicoso, e construir um horizonte possível de estabilização política e, num sentido mais amplo, existencial).

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Um artista às avessas

Há muitos livros que, apesar de uma acolhida intensa por parte do público em um primeiro momento, logo depois caem no esquecimento ou não vão muito além das terras onde foram lançados. Infelizmente, acredito ser este o caso de Às avessas (À rebours), lançado em 1884, por Joris-Karl Huysmans. Trata-se de um romance que, em especial para nós, brasileiros, figura na história literária, mas que nem sempre é lido com entusiasmo. Para a maioria dos leitores, acredito que simplesmente é um título desconhecido. José Paulo Paes, um dos poetas-tradutores mais ativos de nossa história, foi o responsável por apresentá-lo ao público de língua portuguesa ao lançar sua tradução, em 1987, pela Companhia das Letras, que o reeditou neste ano de 2014.

Apesar de chamarmos Às avessas de “romance”, essa obra é justamente daquelas que nos fazem sentir dúvida diante de livros contemporâneos que atenuam as fronteiras entre os gêneros literários. Talvez seja dos primeiros romances modernos que, em sua recepção, causaram estranheza por sua estrutura, sua forma de narrar. Para o autor, em prefácio para edição de 1903, assim como para os críticos que o recepcionaram, o romance se afasta da estrutura narrativa convencional, se situa longe dos moldes naturalistas e realistas da época, inclusive pela ausência de enredo, de intriga. Para nós, leitores do século XXI, essa afirmação talvez não seja consensual. É um romance transgressor, mas todo transgressor atenta numa moral que pode mudar. Ainda assim, Às avessas diz muito a qualquer moderno (ou pós-moderno, se preferirem).

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Um pequeno Finn de Joyce

Nos últimos tempos, no Brasil, felizmente acompanhamos uma retomada feroz de leituras da obra de James Joyce. Em parte, trata-se de um fenômeno social derivado do campo jurídico: a obra do autor irlandês entrou em domínio público em 2012, o que permitiu que editoras de todo o mundo, inclusive daqui, se vissem fora do jugo de Stephen Joyce, seu neto, e publicassem livremente seus livros. No caso brasileiro, há ainda alguns outros fatores que chamaram a atenção do grande público para esse autor, como a publicação de novas traduções de suas obras mais consagradas, em especial do Ulysses (1922).

Joyce é hoje, acima de tudo, um fenômeno cultural. Faz parte daquela classe dos modernistas que já viraram clássicos, que, na verdade, nos fizeram redefinir o que é um clássico. Para além desse estatuto, em terras tupiniquins, o autor sempre foi visto, em grande parte devido à tradução de Antônio Houaiss para o Ulysses, que, por suas escolhas rebuscadas, lhe consagrou uma imagem hermética que poderia ser somente desvendada por grandes cérebros. Não quero aqui reduzir Joyce; na verdade, quero enaltecer o leitor, que, acredito eu, pela nova onda de publicação de suas obras por aqui, se sentiu livre para ele mesmo tentar acessar o universo joyciano. Finn’s Hotel, um dos livros póstumos do autor, talvez seja, a partir de agora, mais uma dessas portas, quem sabe a mais sintética – e, ao mesmo tempo, abrangente.

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A arte francesa da guerra e da paz

Todos que leram 1984 devem se lembrar de um dos lemas do Partido: “guerra é paz”. George Orwell, diante da ascensão dos totalitarismos do século XX, seguia aquilo que vinha sendo dito desde o século XIX por muitos acerca da forte ligação entre o Estado moderno e a guerra, uma ligação, podemos dizer, intrínseca de existência. A própria noção de Estado, assim, pressupõe o conflito com outros poderes, outros domínios, outros Estados. A “paz” que essa guerra gera seria a estabilidade do poder, ao menos enquanto este se mantiver como vencedor das batalhas.

Todos os governos imperialistas sempre atuaram de acordo com esse princípio presente na ficção de Orwell. A Europa é o “centro” do mundo (junto com os Estados Unidos) até hoje por sua tradição de guerras e dominação de outros, em especial por meio de ocupações, invasões e, é claro, da colonização, como nós, brasileiros, bem sabemos. Apesar disso, há um certo sentimento por vezes de que os meios de se manter esse domínio podem ter mudado, afinal acompanhamos ao longo do século XX todo o processo de descolonização e tudo mais. Ainda assim, resta o “centro”, bem como toda a opressão por ele imposta. A arte francesa da guerra (2011), de Alexis Jenni, é um romance que lida com essa questão, só que de dentro, digo, da própria França.

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Kundera strikes again!

É realmente muito bom ver que Milan Kundera, depois de dez anos sem publicar livros de ficção, still got it. O espaço de tempo decorrido desde sua última publicação, como é de praxe, foi sendo preenchido por um conjunto de expectativas que crescia a cada ano, e por albergar sentimentos tão dúbios como esse, qualquer nova publicação já nascia sob o estigma de um potencial desapontamento. Se é verdade que todo livro vem ao mundo em condições parecidas, no caso de Kundera é forçoso reconhecer que uma década é um tempo bastante longo, e que a reputação do escritor contribuiu para engrandecer as especulações sobre o próximo livro e se ele estaria à altura de suas obras anteriores.

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