Ana Cristina Cesar, com direito à panorâmica

Fala-se sempre de Ana Cristina Cesar, Ana Cristina, Ana C. por aí. Nem sempre se fala da poeta em sua completude, com base em sua obra por inteiro. Há boas razões para isso: a falta de circulação de seus livros, especialmente das edições antigas como A teus pés (Brasiliense, 1982); o reforço constante na imagem de sua persona, da poeta suicida, como se fosse a Sylvia Plath brasileira (o que também reduz a poeta americana a um estereótipo); a negligência de parte da crítica literária até anos atrás, que ainda mantinha marginalizada a poesia marginal, como registro da época do mimeógrafo. Espera-se que com Poética, compilação de sua poesia completa recém-lançada (Companhia das Letras, 2013), esse cenário mude. Seus anexos e seu posfácio, da professora Viviana Bosi, certamente auxiliam na compreensão desse universo pelo leitor. Leia mais

A poesia dos Passos

Praticar poesia não é tarefa fácil. Ela parece alimentar-se da espontaneidade em seu mais puro espírito, mas quais significados planejadores não se escondem por detrás da palavra “metrificação”? Ao mesmo tempo, se concebida somente em termos de números de sílabas, função de rimas e disposição de versos e estrofes, certamente perde uma das suas substâncias mais essenciais.

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Entrevista com Fabrício Corsaletti sobre Quadras Paulistanas

Recentemente, Fabrício Corsaletti, residente em São Paulo, lançou pela Companhia das Letras seu livro Quadras paulistanas juntamente com Andrés Sandoval, responsável pelas ilustrações da obra. O poeta é também autor de Esquimó (2010), que contém poemas de forma e temática variadas, indo da nostalgia da terra natal (Santo Anastácio, no interior paulista) até a solidão amorosa, sempre com certa auto-ironia.

Na obra recém-lançada, Corsaletti, que também é cronista da Folha de S. Paulo, se aventura na descrição de sua cidade atual sob uma mesma forma, a popular quadra, para os mais diversos fins. Não se trata de uma mera descrição no sentido científico, é claro. São textos literários que frequentam um espaço, uma lacuna entre a crônica e a poesia. Vemos a crônica quando o autor observa as figuras e os pequenos acontecimentos da metrópole em seus momentos de província, como Manuel Bandeira ao tratar das cidades históricas mineiras em Crônicas da província do Brasil. Leia mais

Pedro Kilkerry: O poeta e sua sombra

por Nathan Matos

Atualmente, a crítica literária brasileira tem atuado de maneira falha. Dizemos falha porque o que percebemos é que há um grande boom de novos autores e, muitas vezes, esse boom se dá de acordo com a vontade de editoras e de festivais literários. Dessa forma, a preocupação dos críticos, principalmente brasileiros, se concentra em falar de novos autores e “esquecer” dos antigos, voltando a eles apenas quando necessário para realizar uma comparação com o novo escritor, ajudando-o, de certa forma, a criar a sua reputação.

Mas isso não deve ser o foco deste texto. Queremos ir de encontro a essa nova crítica literária. Desejamos, a partir da reflexão que será realizada, entender por quais motivos alguns poetas ficaram à margem da crítica literária brasileira, mas que podem ser equiparados a outros grandes escritores que se encontram no panteão nacional.

Entre esses, os mais descreditados de nossa literatura foram os poetas simbolistas. E isso talvez tenha ocorrido porque, de acordo com alguns críticos e poetas, o simbolismo no Brasil não aconteceu. Leia mais

“O poeta protesta com festa”

A Flip começou esta manhã de sábado num tom fanfarrão. E não poderia ser diferente: a Mesa 11, com o tema “Maus Hábitos”, reuniu os “poetas marginais” Zuca Sardan e Nicolas Behr, mediados pelo não menos fanfarrão e não menos poeta Chico Alvim. A amizade entre os três permitiu a levada descontraída do bate-papo e rendeu risadas de todos os lados. Leia mais

Todos os poemas (Paul Auster)

Acredito que a primeira reação do leitor é pensar que Paul Auster (1947) é romancista, não poeta, dúvida essa que não surge sem fundamento. Realmente, ele hoje se dedica à prosa, posição essa que lhe consagrou todo seu sucesso literário da década de 80 para cá, porém antes disso, desde 1970, sua principal ocupação era a de poeta e tradutor de poesia. Com o objetivo de recuperar sua produção poética de ótima qualidade, lançaram-se há poucos anos os Collected poems, coletânea essa que hoje temos traduzida por Caetano Galindo e publicada em edição bilíngue como Todos os poemas pela Companhia das Letras, com um prefácio de Norman Finkelstein. Em relação à edição americana, esse lançamento no Brasil só não contém as traduções de Auster de poetas franceses como Paul Éluard e Stéphane Mallarmé. Imagino que essa ausência se deva a uma escolha do tradutor ou da editora de não retraduzir a tradução do autor americano, o que não faria sentido algum.

Mesmo para se compreender o romance de Auster, acredito ser essencial entender sua poesia também. Ela está diretamente relacionada a diversas questões que o autor aborda em suas criações posteriores e, em certa medida, pode dar uma noção de suas origens. Auster estudou Letras em um período muito específico, durante a ascensão do pós-estruturalismo nas ciências humanas, o que, de certo modo, repercute em seu pensamento sobre poesia. Em especial em seus primeiros poemas, a figuração do objeto, a presença do concreto em oposição ao abstrato traz consigo muitas reflexões sobre a simbologia e a nossa imposição de sentido ao mundo. Leia mais

Os Imagistas, uma antologia

por Matheus “Mavericco”

I.

O livro que resenho não possui tradução para o português; ou, se possui, não é integral. Sendo assim, para facilitar o trabalho de uma gama de leitores, propus, amadoramente (mas com um mínimo de decência), a tradução dos versos citados ao longo do texto. A sequência será: primeiro a tradução; depois o trecho original, em generosos parêntesis.

Agora que já cuidamos das pendências, apertem os cintos.

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Esquimó (Fabrício Corsaletti)

Quando tentamos escrever sobre poesia, às vezes nos deparamos com certas necessidades que nem sempre podem ser concretizadas. Uma delas é ter em mente todas as referências possíveis para leitura da obra de um poeta, algo muito solicitado para análise de vários autores contemporâneos. Podemos nos sentir quase que intimados a pensar como o escritor pensou aquela intertextualidade toda na hora da escrita. A questão é que isso é impossível. O nosso trabalho de leitura é sempre o nosso, nunca uma incorporação dos ideais da escrita do autor. Leia mais

Camões, Browning e Bandeira: Análise comparada de poemas

No presente texto objetiva-se fazer uma análise comparada entre os sonetos: O amor é fogo que arde sem se ver, de Luís Vaz de Camões, Amo-te quanto em largo, alto e profundo, de Elizabeth Barrett Browning (tendo como base para este estudo a tradução de Manuel Bandeira) e o poema Teresa, de Manuel Bandeira. Leia mais

Fifty poems – Cinquenta poemas (Emily Dickinson)

Há uma certa morbidez se revezando com a beleza nos versos de Emily Dickinson (1830-1886). A seleção de Isa Mara Lando, da edição bilíngue da editora Imago em parceria com o Instituto Alumni mostra como os versos da poetisa cambiam das fruições sublimes e majestosas da natureza para o sentimento de morte e desilusão com uma facilidade tão interessante quanto desconcertante. A própria história de vida de Dickinson aponta para uma introspecção simultaneamente alegre em seu isolamento, mas misteriosa e soturna em sua solidão. A maioria dos versos da poetisa norte-americana só ficaram conhecidos após sua morte.

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Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (Oswald de Andrade)

O intuito do título parece ser claro: o poeta quer que se leia o livro como uma obra imatura, de alguém que ainda aprendia a escrever poesia, como se estivesse em uma escola. Pode-se imaginar que essa suposição não é verdadeira, ainda mais se lembrarmos que essa obra foi publicada em 1927 por Oswald de Andrade (1890-1954), portanto já em fase mais avançada do Modernismo brasileiro. A Semana de Arte Moderna já havia acontecido em 1922 e o poeta era uma figura estabelecida na vanguarda literária do país. Não se tratava mais de um iniciante, muito menos de um frequentador de carteiras de colégio. Além disso, esse não era seu primeiro livro de poesia, sendo sucessor de Pau Brasil (1925). Então por que será que esse título foi dado à obra?

Percebe-se que Oswald não queria escrever como uma criança, mas sim evocar sua liberdade da imaginação para a construção de uma nova poesia. Seu aprendizado literário viria da própria experiência com a poesia, sua “escola”, não do que se ditou como poesia até então. Ao mesmo tempo, a fascinação infantil diante do mundo e o próprio desenvolvimento do indivíduo como ser humano pleno em suas capacidades são temas dos poemas do Primeiro caderno. Entre os mais citados estão “as quatro gares”, compostas por quatro composições: “infância”, “adolescência”, “idade adulta” e “velhice”, em que em poucos versos cada fase da vida é traçada de forma irônica e inovadora. Leia mais

Sentimento do mundo (Carlos Drummond de Andrade)

Dizer algo sobre a obra de um dos poetas mais renomados do país é sempre uma tarefa constrangedora no mínimo, ainda mais se esse poeta for Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e a obra Sentimento do mundo (1940), fundamental em seu percurso como escritor. Entender Drummond é também buscar compreender melhor nossa história literária em um período tão conturbado quanto a primeira metade do século XX, considerando-se que o Sentimento… foi publicado em um ano tão distinto quanto 1940, em que a Segunda Guerra Mundial, iniciada no ano anterior, finalmente ganhava corpo e começava a deixar de ser um mero conflito diplomático para ser uma tragédia de proporções imensas. Leia mais